Filosofia da Mente, de John Heil
Julho de 2003 ⋅ Filosofia da mente

O que é uma dor?

Desidério Murcho
Filosofia da Mente: Uma introdução contemporânea, de John Heil
Lisboa: Instituto Piaget, 2001, 292 pp.

As boas obras de filosofia de carácter introdutório são muito importantes para o ensino e o público em geral, pois permitem superar deficiências graves de formação, compreender correctamente os problemas, as teorias e os argumentos da filosofia, e adquirir os instrumentos básicos que nos permitem ler criticamente a bibliografia especializada. Sem estes livros introdutórios ficamos sem recursos críticos para ler a bibliografia especializada e limitamo-nos por isso a repetir o que disse Kant ou Frege, Descartes ou Searle. Infelizmente, os editores portugueses ainda não despertaram para a importância deste tipo de livros (e para o seu evidente potencial comercial), insistindo em obras avançadas de filosofia (como alguns livros de Searle, Putnam ou Heidegger) para as quais há apenas cerca de duzentos leitores — leitores que não precisam de traduções (tantas vezes más), pois podem ler os originais, ou traduções de qualidade em línguas cultas.

A colecção inglesa original a que pertence este título ("Routledge Contemporary Introductions to Philosophy") tem algumas obras que há muito deviam estar publicadas em português. É o caso de Ethics, de Harry Gensler, uma excelente introdução à ética para estudantes do secundário e do primeiro ano da faculdade; Metaphysics, de Michael Loux, uma introdução a alguns dos temas centrais da metafísica, ideal para professores do secundário e estudantes do superior; o insuperável Philosophy of Art, de Noël Carroll, a melhor introdução actual à filosofia da arte; e Philosophy of Language, do reputado filósofo William G. Lycan, uma introdução claríssima e muito bem estruturada à filosofia da linguagem, indicada para estudantes do primeiro ano da faculdade.

Não sei por que razão a Piaget escolheu uma área da filosofia que não é estudada no secundário nem no superior (salvo raras excepções). E esta está longe de ser a melhor introdução à filosofia da mente disponível no mercado internacional; a clássica introdução de Colin McGinn, The Character of Mind, continua provavelmente a ser a mais aconselhável. Em qualquer caso, o livro de Heil é perfeitamente competente; acontece apenas que está insuficientemente estruturado e está por vezes demasiado embrenhado na discussão especializada para que um leitor sem formação na área possa acompanhá-lo completamente. Mas não se pense que não é indicado para o leitor comum, estudantes universitários ou professores do secundário; é perfeitamente compreensível, informativo e estimulante. O ponto forte da sua abordagem é o facto de se centrar nos aspectos metafísicos dos problemas, teorias e argumentos da filosofia da mente. Por isso, acaba por ser do interesse de leitores que não estejam interessados em filosofia da mente, mas em metafísica: neste livro explicam-se, de forma clara e cuidada, várias noções centrais de metafísica (substância, propriedade, particular, acontecimento ou evento, etc.). É particularmente útil a insistência do autor na distinção entre palavras e coisas, cuja confusão tantas vezes dificulta o estudo e a compreensão da filosofia — confundindo-se, por exemplo, predicados (que são itens linguísticos) com o que os predicados exprimem (as propriedades, que não são itens linguísticos).

O problema central da filosofia da mente pode resumir-se numa única pergunta: O que é uma mente? Claro que, intuitivamente, todos compreendemos o que é uma mente: é aquela coisa interior onde se formam as nossas decisões e desejos, onde sentimos as dores e as esperanças, onde temos consciência do mundo e de nós próprios. Acontece que os fenómenos mentais são muito difíceis de compreender, pois parecem muito diferentes dos outros fenómenos da natureza. Há várias teorias filosóficas que procuram resolver os problemas da filosofia da mente, baseadas em vários argumentos e nas imaginativas "experiências mentais". São essas teorias e argumentos (e os problemas secundários que essas teorias e argumentos levantam) que são apresentados por John Heil. A péssima tradução, infelizmente, torna a leitura deste livro penosa e difícil. O que temos não é uma verdadeira tradução de inglês para português, mas antes uma substituição de palavras inglesas por palavras portuguesas (substituição muitas vezes errada), sem mudar a estrutura sintáctica inglesa. Tenho dúvidas de que um leitor sem prática na leitura de obras em inglês consiga compreender grande parte das frases. Apesar de tudo, vale a pena ler. A má edição portuguesa, em que até o índice analítico original desapareceu, contudo, parece feita de propósito para se comprar antes o original inglês.

Desidério Murcho
Publicado na revista Os Meus Livros (n.º 7, Dezembro de 2002).
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