New Fontana Dictionary of Modern Thought, organizado por Alan Bullock et al.
Filosofia

Preconceito esclarecido

Leônidas Hegenberg
New Fontana Dictionary of Modern Thought, organizado por Alan Bullock et al.
Fontana Press, 2.a edição, 1988, 917 pp.
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A primeira edição deste dicionário apareceu em 1977. Foi organizada por Bullock e Stallybrass. Com o falecimento de Stallybrass, ele foi substituído, na preparação da segunda edição, por S. Trobley. Já em 77, a palavra "thought" ganhava certa amplitude, a fim de abranger não apenas idéias e conceitos, como também acontecimentos e fenômenos — que pudessem influir sobre pensamentos — e produtos de pensamento — igualmente capazes, por via indireta, de influir sobre pensamentos. A palavra "modern" provocou certas controvérsias. Foram dirimidas na segunda edição. A palavra passou a aludir, em 88, a idéias, movimentos, teorias e eventos que tivessem tido repercussão sobre o que se discutia nos anos 80 do século XX.

Os organizadores se esforçaram para dar dimensões "aceitáveis" ao dicionário, ou seja, para manter as anotações em um único volume (e com preço "atraente" para o grande público). Como a obra tendesse a crescer meio desmesuradamente, os organizadores foram compelidos a omitir nomes próprios, apenas citados, de maneira elíptica, em verbetes "apropriados". Por exemplo, "Marx" foi omitido, como "artigo independente", figurando apenas em "marxismo".

A primeira edição do dicionário continha aproximadamente 4000 "verbetes". Haviam sido escritos por 138 especialistas — quase todos da Inglaterra, alguns poucos dos EUA. Entre os colaboradores, dois vencedores de prêmio Nobel.

Preparando a segunda edição, 11 anos depois da primeira, os editores cogitaram, como era cabível, em três questões fundamentais: 1) termos que caberia omitir; 2) termos que exigiriam revisões e modificações; 3) termos que conviria acrescentar. Surpreendentemente, mais de 80% dos verbetes conservavam-se "apropriados". Contudo, mais da metade exigia revisões e alguns precisavam ser inteiramente reescritos.

Quanto aos verbetes a incluir, provocaram inúmeras discussões. De fato, parecia indispensável mencionar novidades políticas, econômicas, médicas, biológicas, etc., surgidas na fase 1970 a 85. Também parecia oportuno mencionar certas novas idéias (sobretudo "continentais", isto é, alemãs, francesas, etc.) surgidas na psicologia e na filosofia. A fim de cogitar de tais inclusões desejáveis, os organizadores obtiveram auxílio de 93 novos especialistas e o apoio de 9 jovens e experientes consultores (que atuaram em paralelo com os antigos 9). Afinal, depois de muitos debates, as decisões quanto à inclusão de quase 1000 verbetes novos, foram tomadas de acordo com um princípio curioso (já adotado por Samuel Johnson, famoso lexicógrafo do século XVIII) — o do preconceito esclarecido. Em resumo, as escolhas foram ditadas pelos especialistas (cada qual com sua particular maneira de contemplar o mundo) capazes de "fazer valer" suas opiniões...

Assim, afinal, surgiu a segunda edição deste dicionário do pensamento moderno. Um comentarista (do jornal The Economist), falando da obra, teceu-lhe o elogio apropriado: "How did one exist without this splendid book?"

De fato, aqui estão tópicos a respeito dos quais qualquer pessoa "educada", nos dias de hoje, deve estar informada (ainda que perfunctoriamente) e que, se os ignora, deve procurar conhecer, para afugentar mal-entendidos inúteis. A fim de dar uma ligeira idéia do que o dicionário comenta, eis alguns dos verbetes: anti-art; archigram; atonal music; Bohr theory; concentration camps; defibrillator; emic; eurodollar; free port; genetic linkage; hinduism; immunoassay; justice; Keller plan; labour hoarding; linear programming; matheme; money supply; négritude; objet trouvé; operon; perceptual defence; pornography; quasar; radio isotope; reaganism; samizdat; Skinner box; soliton; superstrings; taoism; total strategy; ultra vires; vector; Walras law; x-ray; yoga; zaum.

Em suma, ampliando áreas como as da antropologia, história, economia, música, medicina, psicologia, e dando atenção a muitas descobertas recentes da astrofísica, da informática, bem como a várias inovações nas artes, o dicionário presta um grande serviço a quem precisa, vez por outra, de uma informação breve e precisa a respeito da significação de certos termos hoje corriqueiramente utilizados.

Tendo em conta que as 900 páginas do dicionário custam 10 libras (cerca de 22 a 25 reais ou de 3200 escudos), vale a pena manter o livro na estante, mesmo que seja apenas para consultas ocasionais.

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

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