O Caso de Foz Côa, de Maria Eduarda Gonçalves

Fogo de artifício verbal

Aires Almeida
O Caso de Foz Côa: Um laboratório de análise sociopolítica, coord. de Maria Eduarda Gonçalves
Edições 70, 2001, 263 pp.
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Apesar de já não estar na ordem do dia, Foz Côa é um assunto que continua a suscitar interesse. Por isso não é de estranhar que os livros sobre Foz Côa comecem a aparecer. Este apresenta uma investigação realizada por uma equipa de 8 investigadores, coordenada por M. Eduarda Gonçalves, professora do ISCTE. Das culturas científica e participativa à estrutura da decisão política; das políticas da água ao conceito de desenvolvimento; das estratégias em confronto ao papel dos mass media, o que se procura ver é se o caso de Foz Côa permite tirar conclusões em relação à própria sociedade portuguesa. Trata-se de uma investigação de carácter científico. O que é reforçado pela metáfora do laboratório referida no título do livro.

Ora, num laboratório testam-se hipóteses. E qual é a hipótese de trabalho desta investigação? Depois de várias pistas, só na p. 52 ficamos a saber que a "hipótese é que Foz Côa representa a ponta do iceberg de uma sociedade portuguesa em transformação, onde se verifica uma evolução nos valores e práticas socioculturais, que não é, porém, acompanhada ao mesmo ritmo por uma evolução na cultura e actuação da administração estatal". Hipótese que, diga-se, balança entre o trivial e o cientificamente irrelevante, pois dificilmente se percebe o que a poderá refutar. Mas também não se chega a mostrar claramente se a hipótese se confirma ou não. Cada estudo limita-se a repetir que os resultados não são conclusivos, deixando apenas algumas pistas. Quando há conclusões, acabam por ser ou muito vagas ou trivialmente verdadeiras. Ainda por cima numa linguagem que torna obscuro o seu significado. Nalguns casos parece até que se procura a falta de clareza e o discurso impressionante. Veja-se como exemplo o estudo de J. L. Garcia, "Oblivionismo e teodiceia dos mass media no caso de Foz Côa", que começa da seguinte maneira:

Expostas ao fim leteu, as gravuras paleolíticas do rio Côa foram depois consideradas literalmente "insacrificáveis". As relações de força postas em cena pelo theatrum mundi mediático-espectacular, contando com a mobilização de um imaginário nostálgico e naturalístico do longínquo original, conseguiram estender a insacrificabilidade semiotizada da figura do humano à rock art do Côa — é deste modo que proponho a compreensão da dinâmica que, a partir de uma complexa zona de indistinção, acabou por consagrar e vindicar o valor patrimonial das gravuras rupestres impedindo a sua "liquidação" através da submersão.

E o resto é ainda mais empolgante, procurando impressionar o leitor com uma espécie de fogo de artifício verbal. Em apenas 40 páginas o autor enriquece ainda a sua experiência laboratorial com referências a Protágoras, Platão, S. Agostinho, S. Tomás, Kant, Nietzsche, Heidegger, Wittgenstein, Foucault, Baudrillard, Arendt e Hegel, entre outros.

Também o texto da coordenadora da investigação, de carácter teórico, é quase totalmente apoiado num extenso rol de referências bibliográficas que constantemente vêm caucionar mesmo as afirmações mais banais. As 107 referências sucedem-se em apenas 31 páginas. No estudo sobre os públicos do parque arqueológico, os mais de 40 quadros e gráficos atrapalham-se uns aos outros sem que se passe além da mera apresentação de dados. E no texto de J. C. Jesuíno somos outra vez brindados com a erudição teórica que procura aplicar o "quadro conceptual, de carácter heurístico e inspiração semiótica", do "actor-rede com redes locais desdobráveis em sub-redes", numa "lógica rizomática" deleuziana. O autor faz também intervir pensadores como Latour e Foucault. E até Popper aí aparece caricaturado. Tudo isto num projecto de investigação de ciências sociais, o que mostra que nem tudo vai bem no meio científico português. As únicas contribuições que fogem à regra são as de Paula Lopes sobre as políticas da água e de Rogério R. Amaro sobre as estratégias de desenvolvimento em confronto no Côa.

Texto publicado na revista Livros.
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