Genoma, de Matt Ridley
Livros

A vida humana

Pedro Galvão
Genoma: Autobiografia de uma Espécie em 23 Capítulos, de Matt Ridley
Tradução de Carla Rego
Gradiva, 2001, 354 pp.
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"Acredito verdadeiramente que estamos a atravessar o maior momento intelectual da história. Sem nenhuma excepção." Quem ler "Genoma", de Matt Ridley, corre o risco de concluir que esta afirmação talvez não seja exagerada.

Tem 23 capítulos, tantos quantos os pares de cromossomas de um ser humano. Não há nisto qualquer coincidência, pois em "Genoma" traça-se uma autobiografia da nossa espécie e cada capítulo corresponde a um dos nossos cromossomas. Matt Ridley, um brilhante jornalista científico doutorado em Oxford, procurou escolher em cada cromossoma um gene com uma história digna de ser contada e, a partir daí, escreveu este livro que nos propõe "uma visita guiada a alguns dos locais mais interessantes do genoma e ao que nos dizem acerca de nós próprios".

Não é fácil encontrar um livro mais abrangente do que "Genoma". Nele não há um único aspecto decisivo da vida humana que tenha sido esquecido. Ridley mostra-nos como a genética tem contribuído para compreendermos melhor, muito melhor, coisas como a origem da inteligência, o uso da linguagem, o processo de envelhecimento, o funcionamento da memória ou a formação da personalidade. Rejeita-se sempre a pretensão absurda de que tudo isto possa alguma vez ser explicado exclusivamente em termos genéticos, mas apresentam-se inúmeros dados e descobertas que revelam que a influência dos genes na nossa vida é muitas vezes surpreendentemente poderosa, mesmo quando está em causa uma coisa como a probabilidade de nos divorciarmos.

A este livro não subjaz qualquer grande tese, nem encontramos nele qualquer exposição razoavelmente sistemática de uma teoria científica. "Genoma" reúne imensa informação factual e teórica de uma maneira bastante dispersa, valendo sobretudo pelo grande interesse e fiabilidade dessa informação, que nos é apresentada de uma forma sempre clara e cativante. Um dos capítulos ocupa-se da origem da espécie humana, no capítulo seguinte somos conduzidos para a história da própria genética, logo depois surge um capítulo sobre uma estranha doença genética, a "coreia de Huntington", ao qual se segue um capítulo sobre os esquivos "genes da asma" — num percurso deste género, é tão improvável que o leitor se aborreça como que não descubra nada que lhe interesse.

Há neste livro capítulos especialmente fascinantes, como o dedicado aos cromossomas sexuais. Nele, Ridley mostra com algum detalhe como os nossos genes estão em conflito entre si e como o genoma humano é "uma espécie de campo de batalha entre genes parentais e genes das crias, ou entre genes masculinos e femininos". Outros dos melhores capítulos é sobre o chamado "ADN lixo", que constitui 97 por cento do nosso genoma e engloba um "jardim zoológico de entidades estranhas" que só se torna compreensível à luz da teoria do gene egoísta, segundo a qual somos "máquinas de sobrevivência" dos nossos próprios genes.

Ridley também dedica um espaço considerável às questões éticas e políticas associadas à genética, sobretudo nos últimos capítulos. Contra a rejeição da possibilidade de se realizarem diagnósticos genéticos de doenças cardíacas e da doença de Alzheimer, por exemplo, defende que "estamos em perigo de sermos demasiado escrupulosos e demasiado cuidadosos na utilização do conhecimento acerca dos genes que influenciam ambas as doenças e, por isso, corremos o risco de cometermos o erro moral de negarmos às pessoas o acesso à investigação que salva vidas".

Ao longo do livro está também presente uma preocupação filosófica: constituem as descobertas da genética uma ameaça à ideia de que somos agentes livres? O capítulo final, "Livre Arbítrio", incide explicitamente nesta questão. Ridley sugere que a forte influência dos genes no nosso comportamento é compatível com a existência do livre arbítrio, salientando que recusar essa influência para privilegiar o papel do ambiente em nada contribui para nos vermos como agentes livres. Defende assim que "a distinção grosseira entre os genes como programadores implacáveis de uma predestinação calvinista e o ambiente como o lar do livre arbítrio liberal é uma falácia".

Este livro de Matt Ridley é um exemplo de boa divulgação científica pois associa o rigor da informação a um estilo de escrita agradável e despretensioso. "Genoma" não se lê como um romance: lê-se como um livro de contos subtilmente relacionados entre si.

Pedro Galvão
p.m.galvao@gmail.com
Texto publicado no jornal Público (28 de Julho de 2001)
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