Genoma, de Matt Ridley

Receitas de proteínas

Célia Teixeira
Genoma: Autobiografia de uma Espécie em 23 Capítulos, de Matt Ridley
Tradução de Carla Rego
Gradiva, 2001, 354 pp.
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Quer estas férias planeie viajar quer não, com Genoma: Autobiografia de uma Espécie em 23 Capítulos, de Matt Ridley, fica garantida uma viagem extraordinária ao genoma humano. O livro está dividido em 22 Capítulos numerados (e não 23, como o título indica: mas é mesmo assim!). A razão disto é porque o genoma humano é constituído por 23 pares de cromossomas, mas os cromossomas X e Y não têm número, daí o número 22. Em cada capítulo conta-se, em geral, a história de um gene "interessante" do cromossoma em causa. Temos genes associados ao cancro, à inteligência, ao sexo, à personalidade, ao stress, e muito mais. Para que não haja desculpas, o prefácio contém uma segunda parte com uma espécie de glossário com os termos técnicos de genética para os que se sentem pouco à vontade nestas matérias.

Segundo Ridley, a nossa história está gravada nos nossos genes. E se conseguirmos ler o livro do genoma humano, descobriremos as nossas origens, como evoluímos, por que somos como somos, qual a natureza da mente, o que nos distingue enquanto espécie, o que partilhamos, etc. Resumidamente, se conseguirmos ler o livro do genoma, iremos descobrir mais coisas do que alguma foi descoberto pela psicologia, pela antropologia, pela medicina, etc. Ridley não tem dúvidas de que “estamos a atravessar o maior momento intelectual da história.” Não sei se isso será verdade, até porque também já assistimos a momentos tão estimulantes e revolucionários como este na matemática e na física, mas que estas descobertas são verdadeiramente extraordinárias, são!

Mas afinal o que é o genoma? Segundo a analogia de Ridley, o genoma é uma espécie de livro de tamanho gigantesco: tem “23 capítulos, chamados cromossomas; cada capítulo contém vários milhares de histórias, chamadas genes; cada história é feita de parágrafos, chamados exões que são interrompidos por anúncios chamados intrões; cada parágrafo é feito de palavras, chamadas codões; e cada palavra é escrita com letras, chamadas bases.” Todos os seres vivos, quer se tratem de plantas, animais ou insectos, partilham o mesmo código genético, o que revela um passado comum entre todas as espécies de seres vivos. Além de possuirmos “a máquina biológica mais complicada do planeta empoleirada entre as orelhas”, pouco mais nos diferencia das outras espécies. Somos sem dúvida únicos, mas também as outras espécies o são. Partilhamos 98% do nosso código genético com os chimpanzés, e apenas (apenas?) 97% com os gorilas. As diferenças entre os nossos cromossomas e os dos chimpanzés são muito poucas. Mas não deixe que isso o desmoralize, pois essas pequenas diferenças são suficientes para fazer uma grande diferença.

Ao contrário do que poderia pensar, nem todos os capítulos são exclusivamente dedicados à história de um cromossoma, é também dada especial atenção à história da própria genética. O capítulo 3 é, no entanto, o único de carácter inteiramente histórico. E é muito bom! Infelizmente, a história da genética não é muito diferente da história intelectual das outras disciplinas: existiram ideias de tal forma geniais e revolucionárias que durante anos, por vezes até mesmo séculos, foram incompreendidas e maltratadas. Neste caso, os senhores das primeiras ideias geniais e revolucionárias foram Gregor Mendel e Archibald Garrod. Em 1902 Garrod desvendou um dos maiores mistérios biológicos, a questão de saber o que é um gene — “um gene é uma receita para um único produto químico”, a proteína. Apesar de ter sido necessário esperar 35 anos para que as suas ideias fossem compreendidas, Garrod teve melhor sorte do que Mendel, pois foi respeitado e homenageado pelos seus pares. Mendel foi o homem em cujo trabalho Garrod se apoiou, e sem o qual nunca poderia ter chegado onde chegou. Era filho de pais pobres e por isso teve dificuldades em poder continuar a estudar. A solução foi tornar-se frade. Como padre foi um fracasso. Tentou tornar-se professor de ciências, mas chumbou no exame. Foi como jardineiro que fez mais sucesso. As suas experiências com ervilhas, milho, brincos-de-princesa e outras plantas permitiram-lhe iniciar a revolução na genética: “A proeza de Mendel foi revelar que a única razão por que a maioria das características herdadas parecem uma mistura se deve ao facto de envolverem mais do que uma partícula… Mendel tinha provado a teoria biológica atómica da biologia.”

O entusiasmo com que o livro está escrito é absolutamente contagiante. E a história do genoma humano e da genética é ela própria igualmente contagiante, o que torna a leitura quase compulsiva. Alguns capítulos têm secções interessantíssimas sobre doenças como o cancro, a BSE — pode ficar a saber qual a probabilidade que existe de vir a contrair a contraparte humana da doença das vacas loucas — a doença de Alzheimer, a sida e muito mais. Ridley explica em que medida a genética nos pode ajudar na compreensão e combate destas doenças. Apesar de nos alertar por várias vezes que os genes não existem para provocarem doenças, ficamos a saber em que medida são por vezes eles os culpados. Se ler o livro, garanto-lhe ainda a experiência extraordinária de poder espreitar para dentro do seu corpo. Uma leitura fundamental!

Célia Teixeira
Texto publicado na revista Livros (n.º 22, Julho 2001)
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