Gertrud, de Hermann Hesse
Livros

A fragilidade da vida

Maria João Cantinho
Gertrud, de Hermann Hesse
Trad. de Maria Adélia Silva Melo
Difel, 2001, 152 pp.

Hermann Hesse dispensa apresentações. Genial contista, romancista e poeta, agraciado pelo Nobel em 1946, pertence à galeria dos notáveis escritores do século XX. Esta obra foi escrita já numa época em que o autor havia alcançado a sua maturidade plena. É um texto de uma beleza extraordinária, tanto do ponto de vista formal como do seu conteúdo, tematizando a irredutibilidade da experiência estética e da arte (neste caso a música) à vida humana.

O autor retoma a concepção do artista que transfigura a experiência, sublimando a sua vida através da arte, procurando sobreviver à realidade e às contingências do quotidiano. É pelo impulso criador que se opera essa sublimação, despojando-se o artista da sua própria vida para poder sobreviver à infelicidade e escapar ao seu mal-estar.

A personagem central do romance é Kuhn, um jovem que, após sofrer um violento acidente, perde a sua pujança física e fica definitivamente marcado pela sua deformidade. A tragédia pessoal não lhe traz apenas azedume e amargura perante o seu futuro, mas desenvolve nele a capacidade de a transfigurar, acrescida de um amor frustrado, em arte sublime, impregnada de nostalgia e tristeza melancólicas.

Muito mais que um simples conto, o que pode descobrir-se aqui, através da voz sóbria e contida do narrador, é uma séria reflexão acerca da fragilidade da vida e da finitude humana, que vislumbra na arte o caminho para a luz e para a redenção, num sentido bem alegórico. É do excesso das paixões e da impossibilidade da sua concretização que nasce a arte e o impulso criador, repondo o equilíbrio e o jogo de forças entre o amor e a auto-destruição. Essas figuras de excesso, reconhecemo-las em Kuhn (ferido pelo amor não correspondido) e em Muoth, mas é essencialmente neste cantor lírico de sucesso e figura galante, diante do qual as mulheres sucumbem, que identificamos a doença do mal-estar, a angústia existencial, no seu paroxismo e carácter auto-destrutivo. E, se em Kuhn a música transfigura a angústia existencial e o salva, criando um distanciamento relativamente às suas paixões, para Muoth, todavia, não há redenção possível e ele acaba por submergir no seu abismo interior.

Gertrud, não sendo a personagem principal, acaba por revelar-se o motivo secreto desta obra — e daí o seu título. Ela personifica o desejo amoroso, não apenas físico, mas sobretudo o ideal que alimenta o impulso criador de Kuhn e o faz transbordar. E embora Gertrud seja capaz, enquanto objecto amado, de salvar aquele que a ama (Kuhn), sem a possuir, no entanto, não consegue conduzir Muoth (aquele que ela ama) para fora do seu labirinto, convertendo-se, pela sua ausência, na própria perda de Muoth.

Como todas as obras-primas e grandes romances da história da literatura, também este conto pode ser infinitamente interpretado, não se esgotando a sua análise. Ressumando, na sua estrutura frágil e nostálgica, o espírito da época, reflectindo o mal-estar e a violência da desagregação da experiência humana e dos valores burgueses, Gertrud, pode ainda ser interpretado como uma prefiguração das violentas forças destrutivas do terceiro Reich, uma metáfora que antecipa o poder demolidor das pulsões que estiveram na sua origem.

Se nem todos os romances de Hermann Hesse merecem igualmente a nossa atenção, sem dúvida que Gertrud se encontra entre as melhores obras do autor, maravilhando-nos pela sua beleza intrínseca, mas também pelo apelo à reflexão sobre a essência da arte e o modo como se relacionam vida e arte, questões sempre pertinentes.

Eis aqui uma obra inesquecível e que nos obriga a pensar, ao mesmo tempo que nos deslumbra, pela sua beleza.

Maria João Cantinho
mjcantinho@hotmail.com
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