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Estética

Ideias musicais

Aires Almeida
Do Belo Musical, de Eduard Hanslick
tradução de Artur Morão
Edições 70, 1994, 104 páginas

Perto de dez anos após a sua tradução para português e quase 150 depois de ter sido escrito, Do Belo Musical de Eduard Hanslick ainda não despertou entre nós o interesse que merece.

Este pequeno livro de cerca de 100 páginas, muito polémico no seu tempo, continua ainda avançado em relação ao nível de discussão filosófica sobre a arte musical no nosso país (admitindo que tal comparação faz sentido relativamente a um país em que a expressão “filosofia da música” parece causar estranheza).

Trata-se de um livro, dividido em sete partes que não se fazem acompanhar de qualquer título, em que o autor pretende lançar as bases filosóficas de uma estética musical, evitando de uma vez por todas o território pantanoso das sensações e da subjectividade dos sentimentos associados às obras musicais. A tese defendida por Hanslick é a de que a música nada representa senão ideias musicais e que o conteúdo do belo musical não são emoções mas apenas sons. Rejeita, assim, o sentimento como categoria da estética musical e argumenta que o princípio do belo musical não se encontra nos efeitos por ele produzidos. Ao fazê-lo não vai ao ponto de negar que tais efeitos existem, mas defende que não constituem a essência da música e nem sequer são exclusivos das obras de arte. Não constituem a essência da música porque, como pode ser empiricamente mostrado, os referidos efeitos não têm a necessidade, a constância e a exclusividade que seriam de esperar. Dito de outra maneira, não oferecem as condições necessárias e suficientes para tornar possível uma definição do belo musical a partir deles. Segundo Hanslick, “o comportamento dos nossos estados emotivos perante um belo qualquer é mais objecto da psicologia do que da estética”.

O que Hanslick aqui nos apresenta é uma teoria da arte musical formalista, ao mesmo tempo que recusa tanto a “estafada” estética da expressão, como a teoria da arte como imitação. Assim, Hanslick está a antecipar em relação à música aquilo que só no início do século XX viria a ser defendido por Clive Bell em relação à arte em geral (sem bem que este filósofo fosse buscar os seus exemplos quase sempre às artes plásticas).

Mas isso não significa que o interesse deste livro se esgote enquanto curiosidade histórica. Se estivermos atentos ao que ainda hoje se passa quando a música é assunto de discussão ― e não apenas no domínio do senso comum, mas também de muita da crítica musical ―, facilmente reparamos que os termos em que frequentemente tais discussões se colocam mostram bem que os argumentos de Hanslick estão longe de pertencer ao passado.

Até porque Hanslick não se limita a apresentar sem discussão a sua teoria formalista da arte musical. A tese central, segundo a qual existe uma essência do belo musical que é intrínseca à própria obra musical e que consiste em formas sonoras em movimento, é sustentada por um conjunto de argumentos que o levam a considerações cuja aceitação continua a ser fonte de disputa.

A patologia sentimental a que tantas vezes a música anda associada, assim como o seu putativo efeito na “pacificação das paixões humanas”, perante o qual ficamos sem saber se, ao falar da música, “se está falar de uma medida policial, pedagógica ou medicinal”, como humoristicamente escreve, nada têm a ver com a ideia de que a fruição estética é uma fruição espiritual a exigir razões para o prazer que recebe. O mesmo se pode dizer em relação à ideia pouco popular, defendida por Hanslick, de que a compreensão de uma obra musical nada deve à intenção do compositor, o que o leva a considerar que os títulos das obras musicais, a servir para alguma coisa, só pode ser para artificiosamente sugerir emoções que perturbam a verdadeira fruição estética da obra. Por isso Hanslick sugere que se experimente alterar o título de uma obra musical para ver o que nela se altera de essencial. É também por isso que toma partido na defesa da música instrumental (surgindo como um dos grandes entusiastas da música de Brahms), considerando-a como a forma em que se revela na sua pureza a essência da arte musical. Defesa essa que o leva a desencadear uma célebre polémica com os defensores da chamada música programática (música em que se conta ou evoca com sons uma história ou poema), entre os quais se destacou Franz Lizst, mas acima de tudo com o campeão da música dramática na Alemanha do seu tempo, Richard Wagner, procurando este vingar-se de Hanslick ao ridicularizá-lo na figura de uma das personagens da sua ópera Os Mestres Cantores de Nuremberga.

Ainda como consequência das posições anteriores, o autor afasta a ideia de que a obra musical possa ter qualquer conteúdo moral, psicológico, político, ou outro que não estritamente musical e que não há um belo natural para a música. Para ele, a música é uma criação inteiramente espiritual que pouco deve à natureza: nem a melodia, nem a harmonia se encontram na natureza. Apenas o ritmo. O canto dos pássaros não pode, segundo Hanslick, ser considerado como música, daí que escreva, com alguma graça, que o importante “não são as vozes dos animais, mas as suas tripas, e o animal a que a música mais deve não é o rouxinol, mas a ovelha”.

Tudo isto é sustentado com uma argumentação clara, fazendo-se acompanhar quase sempre de exemplos, muitos deles introduzidos com uma ironia e um humor surpreendentes, o que torna a leitura compulsiva. Mesmo que datado nos exemplos musicais oferecidos pelo autor; mesmo que, entretanto, a teoria formalista da arte tenha visto cair por terra alguns dos seus argumentos; mesmo que, tendo em conta o desenvolvimento da música no século XX, seja agora difícil aceitar que “na música não existe um ritmo isolado como tal, mas somente melodia e harmonia que ritmicamente se exterioriza” (os casos de, por exemplo, algumas composições para percussões não melódicas de Xenakis), continua a ser filosoficamente estimulante ler este livro. Sobretudo porque se trata de um livro em que o carácter argumentativo da filosofia é claramente exemplificado e porque os livros de filosofia da música são quase inexistentes na nossa língua.

Quanto à tradução, apenas posso dizer que me parece competente, embora se possa notar um estilo ligeiramente rebuscado, que talvez pretenda reproduzir o estilo pomposo da época em que foi escrito.

Aires Almeida
aires.almeida@netcabo.pt
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