Breve História de Quase Tudo
3 de Agosto de 2005 ⋅ Livros

Ingredientes vitais

Ricardo Ribeiro
Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson
Tradução de Daniela Garcia
Lisboa: Quetzal Editores, 2003, 496 pp.

Os livros de ciência acessível a todos podem ser considerados um género próprio, apesar do lugar onde colocam a tal ciência ficar muito discutivelmente à mão de verdadeiramente "todos". Este tipo de obras surge com alguma frequência no nosso mercado, com balizas temáticas mais ou menos definidas. Um dos históricos, será Cosmos, de Carl Sagan, e, para completar o enquadramento, teremos em Ao Encontro de Espinosa, de António Damásio, um dos mais recentes casos.

É à luz desta categoria que deveremos observar Breve História de Quase Tudo, cuja primeira particularidade pode ser assinalada no percurso profissional e literário do seu autor, Bill Bryson. Basicamente desde sempre, Bryson escreveu sobre viagens. Os seus travelbooks são famosos, sobretudo no mundo anglo-saxónico, e a sua presente incursão no ramo da ciência terá surpreendido muita gente. Segundo as suas palavras, o desejo de escrever algo assim partiu dos seus pesadelos enquanto jovem aluno, obrigado a encarar a ciência com materiais de estudo pouco claros e extremamente aborrecidos. Vai daí, decidiu arranjar maneira de pintar todas essas cinzentas matérias com cores bem mais alegres, e aqui temos este Breve História de Quase Tudo.

E quando escolheu o título, não estava a brincar! Na realidade, ao longo das suas quase quinhentas páginas, uma infinidade de ciências é desdobrada perante o atónito olhar do leitor, que nem se apercebe da passagem de uma para outra. Geologia, paleontologia, sismologia, antropologia, física quântica, química, farmacologia... um leitor apenas terá de escolher, porque qualquer ramo da ciência que lhe ocorra terá elevadas probabilidades de se encontrar representada neste extenso tratado.

A divisão dos capítulos não coincide obrigatoriamente com a transição entre estas áreas do saber; nem o ritmo adoptado por Bryson o permitiria, tal é a velocidade com que muda de assunto. Não pense o leitor que por acção desta dinâmica as coisas são expostas de forma atabalhoada e superficial. Bom, superficial talvez, que afinal de contas este livro é sobre quase tudo, mas há aqui margem para vários conceitos, e não poderá mesmo assim ser de ânimo leve que se classificará o texto de superficial.

Uma das características da escrita do autor é o humor despretensioso com que se exprime. Por incrível que possa parecer, quem lê este livro pode dar consigo mesmo a rir literalmente à gargalhada, perante as situações narradas, mas, sobretudo, pela forma como estas são descritas por Bryson. Este, combina em inteligentes porções alguns dos ingredientes vitais para a compreensão das matérias: um pouco de teoria, uma porção de aplicação práctica da teoria, e uma pitada de elementos factuais, nomeadamente sobre a evolução de cada uma das ciências em foco. Com esta diversidade, o leitor ficará preso à leitura, o que não aconteceria se cada uma destas componentes fosse explorada de forma mais intensiva.

Quanto à edição portuguesa da Quetzal Editores, há que se lhe tirar o chapéu: "plasticamente" muito agradável, é enriquecida por um excelente trabalho de tradução assinado por Daniela Garcia.

Ricardo Ribeiro
torgut@torgut.com
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