A tragicidade da vida
Leônidas HegenbergPorto Alegre: EDIPUCRS (Editora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), 1998, 224 pp.
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Durante quatro anos, José Maurício chefiou o Departamento de Filosofia e Métodos da FUNREI (Fundação de Ensino Superior S. João Del Rei), transformada em Universidade Federal, no início de 2002. Atualmente, Maurício é o coordenador do curso de filosofia da UFSJ. Contribui para que a entidade mantenha os Anais de Filosofia (coordenados por Mariluze F. de Andrade e Silva), “revista da pós-graduação”, periódico anual (nove números publicados) em que colaboram várias personalidades de renome.
Maurício volta-se, com freqüência, para as questões éticas. Indício dessa preferência está em livro de 1995, Caminhos da Moral Moderna (Belo Horizonte: Itatiaia). Na quarta capa do presente livro, porém, o autor é caracterizado em termos de maior generalidade, como um defensor de certo amálgama entre o ser humano e as coisas que o rodeiam. Em síntese, não é possível estudar a realidade, ou seja, homem e mundo, separando os dois itens.
Especificamente, O Homem e a Filosofia reúne “meditações” que gravitam em torno de existência e cultura. Maurício acolhe palavras de Cícero (p. 15), para quem “cultura” designava processo pelo qual o ser humano examina as relações que mantém com as coisas e os demais seres vivos. Subscreve (p. 16) certas posições do iluminismo alemão e entende que o termo “cultura” também designa o produto da educação, assim como os procedimentos que permitem ao Homem atribuir ordem e valor à Natureza.
Mais adiante (p. 20), José Maurício ressalta que a filosofia da cultura não pode ignorar a tragicidade da vida, como apropriadamente ressaltam os existencialistas. Nesse contexto, cumpre evitar que os conhecimentos particulares de cada ramo do saber ganhem caráter absoluto. O autor endossa palavras de Reale (p. 21): “o que marca a finitude do homem são a ambigüidade e a provisoriedade de tudo que ele constrói”. A missão do filósofo continua sendo a indicada por Kant — defender a liberdade e a razão.
Percebe-se, pois, o propósito de José Maurício. Quer deixar acessíveis suas idéias a respeito dos limites e da relevância das ações humanas. Para exemplificar, eis alguns dos temas discutidos: interrogações humanas (IV); apelo da filosofia (V); individualidade (IX); singularidade e dignidade (X); circunstancialidade (XIII); pluralidade cultural (XV); história (XVII e XVIII); deus (XIX). Há ensaios curtos, com 5, 7, ou 9 páginas. Outros têm 17, 20 e até 25 páginas. Dada a relativa independência dos dezenove comentários (confirmada pelo autor, p. 25), eles serão lidos de acordo com as preferências de cada interessado. Em verdade, o livro pode ser visto como um misto de diário (um “registro pessoal das atividades de cada dia”) em que se adivinham roteiros de aulas, e preleção (uma “palestra com fins educativos”) em que não faltam certos tons de pregação moralizante.
Em IV, o autor observa que o pensar não se volta (apenas, diria eu) para problemas particulares, mas para um alvo maior: criar um significado para o mundo (p. 69). Em V, assevera que todos nós, em certos momentos, somos assolados por dúvidas. Faltando soluções para tais dúvidas, “experimenta-se o encantador apelo da filosofia” (p. 77). Em XIII está acolhida a posição culturalista de Antonio Braz Teixeira e de Antonio Paim (p. 137 ss), com aceitação de visões nacionalistas que, naturalmente, não impedem os vôos de âmbito universal. Em XIX, José Maurício lembra que qualquer afirmação a respeito de Deus “será fruto da fé de um homem”. A fé religiosa seria, afinal, “opção livre” (p. 219) destituída de qualquer garantia. No que respeita a condição histórica do ser humano, Maurício acompanha Ortega y Gasset.
No Sumário, o título da meditação VI foi trocado. Na Introdução (p. 11), o autor fala de Manoel Kant. Lembrei-me das dificuldades que enfrentei ao preparar biografias de matemáticos para a Enciclopédia Mirador Internacional (org. por Houaiss, São Paulo: Melhoramentos), para localizar um tal de Juan Nigro — que, afinal, era Johann Schwarz... Sei que José Maurício não tem o (péssimo!) hábito de traduzir nomes próprios. Combato esse tipo de tradução há anos. Só o fiz, porém, oralmente. O engano aqui presente me permite voltar ao assunto, agora por escrito.
É certo que nomes árabes ou chineses necessitam de transliteração. Nomes impronunciáveis no português também podem sofrer modificações, a fim de se tornarem legíveis. Excetuados esses casos, nomes próprios não devem ser traduzidos, a menos quando em tela personagens ou localidades muito conhecidas e mencionadas, como Ana Bolena (Anne Boolen), Alemanha (Deutschland) ou País de Gales (Wales).
Imagine-se o desastre que provocaríamos ao usar “Max Preto”, “Ernesto Prego”, “Reino do Leste”, “Bons ares” ou “Os anjos”, em vez de “Max Black”, “Ernst Nagel”, “Buenos Ayres”, “Östreich” ou “Los Angeles”...