Junho de 2003 ⋅ Filosofia

A tragicidade da vida

Leônidas Hegenberg
O Homem e a Filosofia, de José Maurício Carvalho
Porto Alegre: EDIPUCRS (Editora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), 1998, 224 pp.
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Durante quatro anos, José Maurício chefiou o Departamento de Filosofia e Métodos da FUNREI (Fundação de Ensino Superior S. João Del Rei), transformada em Universidade Federal, no início de 2002. Atualmente, Maurício é o coordenador do curso de filosofia da UFSJ. Contribui para que a entidade mantenha os Anais de Filosofia (coordenados por Mariluze F. de Andrade e Silva), “revista da pós-graduação”, periódico anual (nove números publicados) em que colaboram várias personalidades de renome.

Maurício volta-se, com freqüência, para as questões éticas. Indício dessa preferência está em livro de 1995, Caminhos da Moral Moderna (Belo Horizonte: Itatiaia). Na quarta capa do presente livro, porém, o autor é caracterizado em termos de maior generalidade, como um defensor de certo amálgama entre o ser humano e as coisas que o rodeiam. Em síntese, não é possível estudar a realidade, ou seja, homem e mundo, separando os dois itens.

Especificamente, O Homem e a Filosofia reúne “meditações” que gravitam em torno de existência e cultura. Maurício acolhe palavras de Cícero (p. 15), para quem “cultura” designava processo pelo qual o ser humano examina as relações que mantém com as coisas e os demais seres vivos. Subscreve (p. 16) certas posições do iluminismo alemão e entende que o termo “cultura” também designa o produto da educação, assim como os procedimentos que permitem ao Homem atribuir ordem e valor à Natureza.

Mais adiante (p. 20), José Maurício ressalta que a filosofia da cultura não pode ignorar a tragicidade da vida, como apropriadamente ressaltam os existencialistas. Nesse contexto, cumpre evitar que os conhecimentos particulares de cada ramo do saber ganhem caráter absoluto. O autor endossa palavras de Reale (p. 21): “o que marca a finitude do homem são a ambigüidade e a provisoriedade de tudo que ele constrói”. A missão do filósofo continua sendo a indicada por Kant — defender a liberdade e a razão.

Percebe-se, pois, o propósito de José Maurício. Quer deixar acessíveis suas idéias a respeito dos limites e da relevância das ações humanas. Para exemplificar, eis alguns dos temas discutidos: interrogações humanas (IV); apelo da filosofia (V); individualidade (IX); singularidade e dignidade (X); circunstancialidade (XIII); pluralidade cultural (XV); história (XVII e XVIII); deus (XIX). Há ensaios curtos, com 5, 7, ou 9 páginas. Outros têm 17, 20 e até 25 páginas. Dada a relativa independência dos dezenove comentários (confirmada pelo autor, p. 25), eles serão lidos de acordo com as preferências de cada interessado. Em verdade, o livro pode ser visto como um misto de diário (um “registro pessoal das atividades de cada dia”) em que se adivinham roteiros de aulas, e preleção (uma “palestra com fins educativos”) em que não faltam certos tons de pregação moralizante.

Em IV, o autor observa que o pensar não se volta (apenas, diria eu) para problemas particulares, mas para um alvo maior: criar um significado para o mundo (p. 69). Em V, assevera que todos nós, em certos momentos, somos assolados por dúvidas. Faltando soluções para tais dúvidas, “experimenta-se o encantador apelo da filosofia” (p. 77). Em XIII está acolhida a posição culturalista de Antonio Braz Teixeira e de Antonio Paim (p. 137 ss), com aceitação de visões nacionalistas que, naturalmente, não impedem os vôos de âmbito universal. Em XIX, José Maurício lembra que qualquer afirmação a respeito de Deus “será fruto da fé de um homem”. A fé religiosa seria, afinal, “opção livre” (p. 219) destituída de qualquer garantia. No que respeita a condição histórica do ser humano, Maurício acompanha Ortega y Gasset.

No Sumário, o título da meditação VI foi trocado. Na Introdução (p. 11), o autor fala de Manoel Kant. Lembrei-me das dificuldades que enfrentei ao preparar biografias de matemáticos para a Enciclopédia Mirador Internacional (org. por Houaiss, São Paulo: Melhoramentos), para localizar um tal de Juan Nigro — que, afinal, era Johann Schwarz... Sei que José Maurício não tem o (péssimo!) hábito de traduzir nomes próprios. Combato esse tipo de tradução há anos. Só o fiz, porém, oralmente. O engano aqui presente me permite voltar ao assunto, agora por escrito.

É certo que nomes árabes ou chineses necessitam de transliteração. Nomes impronunciáveis no português também podem sofrer modificações, a fim de se tornarem legíveis. Excetuados esses casos, nomes próprios não devem ser traduzidos, a menos quando em tela personagens ou localidades muito conhecidas e mencionadas, como Ana Bolena (Anne Boolen), Alemanha (Deutschland) ou  País de Gales (Wales).

Imagine-se o desastre que provocaríamos ao usar “Max Preto”, “Ernesto Prego”, “Reino do Leste”, “Bons ares” ou “Os anjos”, em vez de “Max Black”, “Ernst Nagel”, “Buenos Ayres”, “Östreich” ou “Los Angeles”...

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

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