As Horas, de Michael Cunningham

Três histórias

Ana Paula Gomes
As Horas, de Michael Cunningham
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues
Gradiva, 1999, 228 pp.
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As horas, as dúvidas. As horas, o tempo. Que ao passar nos vai encurralando na teia das nossas próprias escolhas. O amor. A sua estranheza. O outro. O que a vida é e o que poderia ser. O espanto. A inadaptação.

Neste livro de Michael Cunningham há três histórias. Separadas no tempo e no espaço mas unidas pela escrita. Virginia Woolf, Clarissa Vaughan, que bem poderia ser o personagem principal de um dos romances da famosa escritora, e Laura Brown que lê os mesmos romances e apenas (ou sobretudo?) lamenta não poder dedicar à leitura o tempo que deve reservar para a família, são três mulheres que rapidamente se instalam não no imaginário do leitor, mas na sua galeria de afectos. A força e as fraquezas de cada uma delas, o esforço que fazem, e a que assistimos, para não conquistarem o seu próprio espaço à custa dos outros, a angústia de não encontrar o gesto certo, a impotência perante a dor própria e a alheia, mas sobretudo a busca de um sentido para as horas que, passando uma após a outra, traçam o percurso em que não se reconhecem inteiras, fazem destas três personagens, distantes mas intimamente ligadas pela solidão que cada um de nós transporta e de que nunca consegue desfazer-se completamente, companheiras de estrada no curto tempo em que se lê este livro.

E mesmo se sabemos que dificilmente elas vão encontrar as respostas de que poderíamos servir-nos também, não deixa de existir a expectativa. É talvez por isso que o final sabe a pouco. Mas esse é apenas o sinal de que o autor não perseguiu as soluções mais fáceis. Nem as de maior efeito. Talvez porque, ao contrário de um dos seus personagens, o único (à excepção de Virgínia Woolf, claro) que desiste de continuar a viver, não seja razoável querer competir com a própria vida:

Queria criar alguma coisa suficientemente viva e chocante para ombrear com uma manhã na vida de alguém. A mais comum das manhã. Imagina, tentar fazer isso. Que tolice.

Das três histórias que correm paralelas mas mal se cruzando, a de Clarissa é a mais rica em pormenores, detalhes, personagens. Há uma antiga relação amorosa transformada em amizade, por um homem roubado a outro homem, mas Clarissa acaba, ela própria, por escolher uma companheira do mesmo sexo. As relações com o amigo, a companheira, a sua própria filha, o antigo namorado do amigo, a amiga da filha e mais umas quantas figuras ocasionais, são apresentadas a traços rápidos mas não superficiais, no curto período de tempo em que Clarissa prepara uma festa em honra do amigo, Richard, que ganhou um prémio literário.

Laura Brown tem de lidar com um passado e um presente menos povoado mas nem por isso menos dividido. Há um marido e um filho que pedem e esperam uma atenção que Laura não está segura de ter para dar. E mesmo que possa e queira fazer esse esforço permanece a questão: deverá fazê-lo? E em nome de quê?

Virgínia Wolf começa por suicidar-se no prólogo deste livro. Mas ressurge depois, para que possamos presenciar a sua luta por se manter viva e escrevendo. Lúcida, atenta, desejosa de acção e emoções. Ansiosa por voltar a Londres, de onde o marido a afastou para que melhorasse. Mas nem as melhoras são significativas, nem a escrita pode substituir os dias e as noites agitados da grande cidade. Como na história de Clarissa os livros de Richard dificilmente substituirão a vida que a doença lhe rouba. Embora, na história de Laura, a leitura apareça como aquilo que podia substituir tudo o resto.

Ana Paula Gomes
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