The End of Science, de John Horgan

Idiossincrasia fatalista

Orlando Tambosi
O Fim da Ciência, de John Horgan
Tradução de Rosaura Eichemberg
Companhia das Letras, 1998, 364 pp. Comprar

Antes de interessar-se pelo conhecimento científico, nos seus tempos de estudante, John Horgan namorou a crítica literária. Enfadado com o eterno círculo de interpretações de textos e "as confusas tarefas das humanidades", que tanto deleitam os cultores da "pós-modernidade" ("para a maioria dos pós-modernistas", diz ele, "um texto é um texto é um texto"), enveredaria pelo jornalismo científico em busca da "abordagem clara, sem absurdos, da ciência". Tornar-se-ia, mais tarde, editor de uma das mais respeitadas revistas dos EUA, a Scientific American, onde começou a ruminar sobre a possibilidade de a ciência chegar ao fim.

Esta obra é o resultado dessas elucubrações. Título bombástico, subtítulo mais brando: "uma discussão sobre os limites do conhecimento científico". Não, Horgan não é um obscurantista: como os cientistas e os filósofos, ele acredita que a busca do conhecimento é "a mais nobre e significativa de todas as atividades humanas". Sabe que aqueles que assim pensam são acusados de arrogância e reconhece que alguns, de fato, o são; mas considera muitos outros mais ansiosos que arrogantes.

Pelas nuanças que revela no livro, Horgan teria sido mais fiel a seus argumentos se colocasse uma interrogação no título. Afinal, exclui de seu vaticínio a ciência aplicada, centrando-se exclusivamente na ciência básica, isto é, a "busca humana primordial de compreender o universo e o nosso lugar dentro dele" ("a Pergunta", para a qual exige "a Resposta"). Nesta, já não ocorreriam grandes revoluções, mas apenas "acréscimos".

É bem verdade que o empreendimento científico enfrenta tempos difíceis. A "ciência pura" pode sucumbir a restrições sociais, políticas, econômicas, ameaçada por tecnófobos, ativistas dos direitos dos animais, fundamentalistas religiosos e por políticos de visão curta, sem falar na subcultura pós-modernista. Mas há outros limites, impostos pela própria ciência: matéria e informações não trafegam a velocidades mais rápidas que a da luz (teoria da relatividade, de Einstein); o conhecimento do microcosmo é sempre incerto (mecânica quântica); e a biologia da evolução nos lembra que somos animais, "destinados pela seleção natural a nos reproduzir, e não a descobrir verdades profundas da natureza". Devemos nos contentar, ensina a ciência, com verdades parciais.

Horgan não subtrai à sua idiossincrasia fatalista (ele próprio admite que falar sobre limites do conhecimento é "profundamente idiossincrático") sequer a filosofia, em estado terminal junto com a física, a cosmologia, a ciência social, a neurociência, a biologia da evolução, etc. Na tentativa de corroborar sua idéia, entrevistou filósofos, embora limitando-se a Popper, Feyerabend e Kuhn (a depender do relativismo dos dois últimos, a filosofia iria mesmo para o brejo); biólogos e teóricos da evolução, como E. O. Wilson, Dawkins e Gould; e físicos e cosmólogos, como Barrow, Weinberg, Hawking, Feynman, Penrose, Gell-Mann e o Witten da "teoria das supercordas", além de matemáticos, neurocientistas, antropólogos, teóricos da inteligência artificial, da complexidade e do caos. Cruzou o Atlântico apenas para encontrar-se com Popper: à exceção deste, são norte-americanos ou trabalham em universidades norte-americanas todos os entrevistados, entre os quais alguns ganhadores do Prêmio Nobel.

O matemático e cientista da computação Gregory Chaitin, que já escrevera sobre a "morte da matemática", parecia ser o único a compartilhar a tese de Horgan. Engano. Num encontro em que Horgan disse-lhe estar escrevendo sobre a possibilidade de a ciência morrer, ele riu, incrédulo. "Pense em todas as coisas que não sabemos! Não sabemos como o cérebro funciona. Não sabemos o que é a memória. Não sabemos o que é o envelhecimento". E definiu: "você é um pessimista!". Mas a ciência, claro, pode terminar se terminar também a civilização.

Nesses perfis é que está o melhor do livro, que conduz o leitor, em linguagem clara, às principais teorias científicas contemporâneas. São relatos saborosos, alguns com simpatia, outros com evidente antipatia, como no caso de Richard Dawkins, descrito como o frio "galgo de Darwin", com seu materialismo "arquielucidativo e reducionista". Já no início, aliás, Horgan advertira ter abandonado "qualquer pretensão de objetividade jornalística": o livro é "opinativo, argumentativo e pessoal".

Horgan é particularmente cético em relação aos teóricos da "complexidade" (termo tão ambíguo que comporta 45 definições), que tendem a confundir as simulações de computador com a realidade. A eles junta os pesquisadores do "caos" para cunhar o termo "caoplexidade", área freqüentada por gente que quer "abarcar o mundo com as pernas". As definições, diz o jornalista, se baseiam na termodinâmica, na teoria da informação e na ciência da computação, envolvendo conceitos escorregadios como entropia, acaso e informação. Tudo alimentado por uma crença ingênua no poder dos computadores: Christopher Langton, por exemplo, propõe que as simulações criadas num computador estão vivas.

Até agora, os caoplexologistas criaram apenas algumas boas metáforas ("vida artificial", "efeito borboleta", "fractais", "fronteira do caos", "criticalidade auto-organizada"), "mas nada nos disseram sobre o mundo, que é concreto e verdadeiramente surpreendente". Para Horgan, eles não levarão a nenhuma grande compreensão da natureza, "certamente nada comparável à teoria da evolução de Darwin ou à mecânica quântica". Acredita que eles "não nos obrigarão a fazer nenhuma revisão significativa em nosso mapa da realidade ou em nossa narrativa da criação". Daí que as velhas teorias são velhas por boas razões. "São sólidas, flexíveis. Têm uma correspondência excepcional com a realidade". E, além do mais, podem até ser verdadeiras.

Não faltam ironias também para os "cientistas da mente", os vasculhadores da consciência. É um campo em que ainda se verá entrar, travestido de ciência, muito do velho espiritualismo filosófico. Há os "adeptos dos mistérios", como o filósofo Thomas Nagel, que supõem ser a consciência algo inexplicável — a experiência subjetiva seria impenetrável. Outros, como o biofísico Francis Crick (que, com James Watson, revolucionou a biologia com a descoberta da estrutura molecular do DNA, em 1953 — recebendo o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 1962 —, e hoje dedica-se à neurociência), despiram a consciência do mistério filosófico e a transformaram em problema empírico. A questão da consciência, sustenta Crick , não será resolvida com a discussão de conceitos e definições psicológicas, mas com "milhares de experiências", pois "assim é que se faz ciência".

Reducionista implacável, Crick afirma que os neurônios são a base para qualquer modelo da mente. A conclusão é radical: "Você, suas alegrias e tristezas, suas lembranças e ambições, seu senso de identidade pessoal e livre-arbítrio, não são mais do que o comportamento de um imenso conjunto de células nervosas e suas moléculas associadas. Como diria a Alice de Lewis Carroll, 'você não passa de um baralho de neurônios'".

De qualquer modo, sempre haverá espaço para aquilo que Horgan chama de "ciência irônica", ou seja, uma ciência "especulativa e pós-empírica", que não é experimentalmente testável ou solucionável mesmo em princípio, e que, por isso, "não é ciência em sentido estrito" — está mais próxima da filosofia, da crítica literária, e, até mesmo, da poesia (uma das razões, aliás, que levam o autor a supor o fim da ciência). É uma ciência que oferece pontos de vista que são, "na melhor das hipóteses, interessantes", mas que "não converge para a verdade", nem pode ter consciência de "surpresas empiricamente verificáveis, que forcem os cientistas a fazer revisões substanciais na sua descrição básica da realidade".

O panorama das teorias científicas delineado por Horgan é informativo e estimulante, embora não consiga justificar o tom peremptório do título. E a grande "Pergunta" feita por ele ("o segredo da vida, a solução para o enigma do universo") fica sem "a Resposta" que tanto anseia desde que passou a dedicar-se ao jornalismo científico. No fundo, o que Horgan quer é o Absoluto (confessa mesmo ter passado, ainda nos tempos de estudos literários, por uma "experiência mística").

Estranho — e vão — é que o procure na ciência. Deveria buscá-lo na teologia.

Orlando Tambosi
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