A Impostura Intelectual em Dez Lições, de Michel de Pracontal
8 de Agosto de 2004 ⋅ Livros

Manual do charlatanismo

Weber Lima
A Impostura Intelectual em Dez Lições, de Michel de Pracontal
Tradução de Álvaro Lorencini
São Paulo: Unesp, 2004, 453 pp., 49 reais

Michel de Pracontal, especialista em divulgação científica na França, inicia o seu livro, em tom irônico, "advertindo" aos leitores que ao contrário do que esses possam pensar o seu livro segue uma "ordem lógica rigorosa". Devendo ser lido da direita para a esquerda, de cima para baixo (para o hebraico e o chinês ele "adverte" que o sentido é da esquerda para a direita e de trás para frente), linha por linha, deixando para cada leitor se deseja aceitar ou não tal imposição lógica. Parece-me uma espécie de crítica provocadora aos discursos pós-modernistas e afiliados.

Ao longo de suas 453 páginas, Pracontal, constrói um "manual do charlatanismo" que pretende apontar alguns problemas muito comuns aos discursos pseudocientíficos ou charlatanescos e às farsas científicas. Penso ser esse o maior mérito de Pracontal. Apresentar os argumentos pseudocientificistas e seus problemas, bem como os argumentos farsantes obscurecidos por métodos científicos consagrados. Ficamos muitas vezes com uma sensação de déjà lus. Aliás, ele diferencia o discurso meramente pseudocientificista da farsa intelectual. Na farsa intelectual o erro é obscurecido ou intencionalmente ignorado (recurso eventualmente utilizado para ajustar os resultados de alguma pesquisa devido ao wishful thinking do pesquisador). O discurso pseudocientífico, ao contrário, é o mero embuste, insensatez, tresvario etc, onipresentes em alguns discursos pós-modernos, por exemplo.

São apresentados diversos exemplos de pseudociência e fraudes científicas, mais ou menos célebres, das quais destaco a "banheira" (tanque) de privação sensorial de John Lilly, biólogo marinho, que na década de 60 causou um enorme furor em torno da possibilidade de a privação sensorial "elevar" a consciência a "estados superiores". Destacando os argumentos de Lilly quanto à "novidade" de sua "invenção" por meio das provocadoras 7 "regras de ouro" do charlatanismo:

Regra n. 1: Escolha um filão inesgotável;
Regra n. 2: Seja revolucionário;
Regra n. 3: Percorra os atalhos batidos;
Regra n. 4: Nunca invente nada;
Regra n. 5: Cultive o segredo;
Regra n. 6: Encontre seu público;
Regra n. 7: Não desista nunca. (p. 70-72).

Ou ainda o caso da "Máquina de curar o câncer" de Antoine Priori. Autodidata e desconhecido, Priori "inventou" uma lâmpada que "curava o câncer". A tortuosa saga de Antoine Priori é descrita por meio de uma opereta retórica dividida em 7 "cantos":

Canto I: no qual Priori solicita uma patente de invenção e descobre a Causa Oculta do câncer;
Canto II: em que se magnetizam ratos;
Canto III: em que os ratos britânicos interrogam-se sobre a sua identidade;
Canto IV: em que os peritos tentam fazer perícia, antes de renunciar;
Canto V: em que a política se intromete;
Canto VI: em que Priori se retira definitivamente;
Canto VII: em que se faz a autópsia da lâmpada maravilhosa. (p. 92-98).

Mas é a "lição" 9 que, penso, melhor ilustra o esforço de Pracontal em questionar os argumentos apresentados pelos pseudocientistas e cientistas que fraudam seus resultados. Intitulado: "Das armadilhas da linguagem, abusarás", o autor francês perpassa das pilhérias dos Irmãos Marx às falsas transposições e abusos de conceitos a partir da teoria da incompletude de Kurt Gödel; ou a metáfora de Rupert Sheldrake do "campo de ressonância mórfica", cujo autor britânico pretende que seja muito mais do que uma metáfora; ou ainda a "hermenêutica da gravitação quântica" criada por Alan Sokal para criticar os abusos pós-modernistas, dentre tantos outros.

A última "lição" delineia uma não menos provocativa incursão pela "irrefutabilidade" das "teorias" charlatanescas e fraudes deliberadas. Todos as "lições" possuem inusitados "exercícios" a fim de "verificar" o desenvolvimento charlatanesco.

Em alguns momentos, entretanto, o próprio Pracontal "escorrega" em relação a sua avaliação do que é pseudociência como quando ele analisa a possibilidade de a inteligência ser de origem (também) genética qualificando tal argumento como um mero preconceito, já superado, a partir dos argumentos de Richard Herrnstein, autor de The Bell Curve, polêmico estudo sobre a correlação entre QI e origem genética. Ora, nesse caso Pracontal se engana, pois os mais recentes estudos em psicologia cognitiva (vide, por exemplo, Tabula Rasa de Steven Pinker ou O Mistério da Consciência de Antonio Damásio) demonstram o contrário, ou seja, a inteligência possui aspectos tanto genéticos (limites neurobiológicos) quanto pode adaptar-se ao meio, relativamente àqueles limites.

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