Introducción al Pensamiento Filosófico, de Ángeles Mateos Garcia
Março de 2003 ⋅ Filosofia

Reflexão filosófica e moral

Leônidas Hegenberg
Introducción al Pensamiento Filosófico, de Ángeles Mateos Garcia
Madrid: Ediciones del Laberinto (Coleção Didática Hermes), 2001, 286 p.
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Conheci Ángeles no VII Congresso Brasileiro de Filosofia, realizado em João Pessoa (agosto, 2002). Sua comunicação ("Contribuiciones del culturalismo jurídico brasileño a la fundamentación autônoma de la Ética") e suas intervenções, em vários debates, permitem afirmar que se trata de estudiosa de méritos e, a par disso, expositora qualificada. Lembremos que é licenciada em filosofia e doutora em direito. Leciona filosofia. Na mesma editora Laberinto, publicou Ética y transición a la vida adulta y activa.

Depois de ouvir a professora Ángeles e depois de ler o comentário que Mercedes Ripa escreveu a respeito do livro em epígrafe (em Paidéia, revista mantida pela Sociedade Espanhola de Professores de Filosofia, n. 61, julho-setembro, 2002), tornou-se muito agradável reencontrá-la em letra de forma e muito fácil elaborar esta resenha. Elaboro-a com prazer porque isso me dá oportunidade para recordar as prosas mantidas com a autora e, também, porque posso elogiá-la pela obra produzida.

De início, deixemos registrada a tese central da autora: Se o segundo milênio foi caracterizado pelo desenvolvimento e pela consolidação da ciência e da tecnologia, o terceiro milênio estará voltado para a reflexão filosófica e moral. Esse "direcionamento" da obra está expresso no subtítulo, "La ética, el reto del tercero milenio".

Introducción al pensamiento filosófico desenvolve a tese, em linguagem acessível e adequada. Mostra que o ser humano partiu do mito para atingir o logos, partiu da filosofia para atingir a ciência. E assevera que o ser humano retorna, agora, à reflexão ética e moral — "exigência inquestionável que marcará nosso tempo".

Ángeles discute o assunto em seis capítulos. Cada qual deles se encerra com dois ou três pequenos excertos, recolhidos em obras de autores renomados (Russell, Ortega, Hempel, Sanmartin, Eco, Morin, Aranguren, Sartre, Kant...), destinados a ilustrar aspectos dos temas abordados.

De início ("Albores del pensamiento"), Ángeles nos oferece, em perspectiva de vôo de pássaro, uma idéia da evolução do pensamento humano. A seguir ("Consolidación de la ciência"), detém-se no pensamento científico, principal caracterizador do segundo milênio. O terceiro capítulo ("Luces y sombras del pensamiento cientifico-tecnológico"), é traço-de-união a ligar as antigas preocupações científicas às novas preocupações éticas e morais, que exigem crescente atenção.

O quarto capítulo ("Reflexión ética y moral") é de especial valia. Nele, a autora analisa de que maneira se conduz a investigação ética, em paralelo com o saber científico. Ángeles fala da origem da ética, de seus alicerces na antropologia e da usual divisão que considera as éticas materiais e as formais. O capítulo se desenvolve em favor de uma conciliação dessas posições, em favor de uma ética universal, cujo fundamento estaria em reconhecer, de modo irretorquível, os direitos humanos.

No capítulo quinto, Ángeles desenha os contornos do mundo globalizado que nos caberá enfrentar, ressaltando quão indispensável será a ética diante das novas condições em que nos caberá viver. Incontornáveis questões estão diante do ser humano desde 2001: legitimação da autoridade, formas do poder político, a moral e o direito, consolidação das leis, a ética mergulhada em seus contextos sociais, jurídicos e políticos.

O livro termina com um capítulo voltado para a clássica indagação de Kant: "Afinal, que é o ser humano?" A autora nota que a questão tem nítido caráter filosófico. Nota que há uma clara diferença entre "hominização" e "humanização". Nota, enfim, que o ser humano é um ser racional e um ser livre. Para que continue mantendo essas características, a educação é elemento imprescindível. A educação, entretanto, precisa ter em conta certos valores. Três categorias de valores são destacados. 1) Valores que ajudam a configurar o indivíduo como pessoa e favoreçam seu desenvolvimento e sua autonomia. 2) Valores que facilitem o convívio das pessoas.  3) Valores que preconizem o afeto, os sentimentos de solidariedade entre pessoas.

Chegaremos, assim, a uma vida melhor e mais digna.

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

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