O Jardineiro do Rei, de Frédéric Richaud

Acutilância e sobriedade

Maria João Cantinho
O Jardineiro do Rei, de Frédéric Richaud
Temas e Debates, Lisboa, 2001, 118 pp.

Eis que nos chega a tradução deste romance, publicado em França em 1999 e já traduzido para várias línguas, muito bem acolhido pela crítica francesa e primeiro romance do autor. Licenciado em Letras e professor de Francês no ensino secundário, Richaud, nasceu em 1966, em Aubignan, na Provença, tendo-se revelado como um escritor de "garra", destacando-se no panorama da literatura francesa recente.

Com um estilo sóbrio e requintado, de grande elegância, Richaud traça-nos um retrato fidedigno da época de Luís XIV e da sociedade francesa do século XVII. A personagem central do romance é Jean-Baptiste de la Quintinie, célebre jardineiro da época, admirado pelo rei e pelos cortesãos, fascinados pelo seu trabalho. Homem discreto e reservado, aparentemente alheio aos acontecimentos sociais, políticos e culturais da sua sociedade, Quintinie habita em Versalhes e acaba por se converter no "olhar" neutro, mas atento e lúcido, que diagnostica os problemas sociais e políticos, e nos mostra a decadência de uma corte que foi deslocada de Paris para Versalhes para que não pudesse intrometer-se nas decisões políticas e estratégicas do Rei Sol. Quintinie representa o homem simples, que recusa os prazeres frívolos de uma sociedade que se desagrega rapidamente, mas que não pode furtar-se ao contacto com essa sociedade, assistindo, no entanto, à sua agonia final.

Contemporâneo de homens cujo espírito antecipa já os valores que irão presidir à Revolução Francesa, Quintinie assiste e dá-nos a ver os fortes contrastes em que vive a França, dividida entre as guerras, a miséria do povo, acrescida da fome e da doença, e a sociedade aristocrática, perdida nos seus devaneios e jogos de ilusão, na corte de Versalhes.

Com um rigor e precisão notáveis, Richaud traça um retrato da época, em que se aliam uma prosa fluida, constituindo, ao mesmo tempo, um delicioso divertimento, pautado pelos acontecimentos descritos, pelo desenvolvimento da natureza, das estações e pela sua diversidade intrínseca. É com um sorriso ao canto dos lábios que entramos num universo risível e quase absurdo, povoado de mulheres e homens empoados e de perucas gigantescas, de bailes de máscaras, de promiscuidade sexual, de intriga, teatro e hipocrisia social.

O jardineiro observa, sem se deixar arrastar, a dança perpétua dessa sociedade, permanecendo a salvo dos olhares e resguardando a sua personalidade misteriosa e reservada, correspondendo-se com homens que marcaram a sua época, pela adversidade dos valores embrionários que dariam lugar à futura revolução.

O final do romance é surpreendente e admirável. Mas não faça batota. Leia a obra para se poder deslumbrar com o seu desfecho.

Pela acutilância, sobriedade e elegância da escrita, podemos destacar este romance como uma leitura imprescindível para este Verão.

Maria João Cantinho
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