O Jejum e a Festa, de Anita Desai

Economia e contenção

Maria João Cantinho
O Jejum e a Festa, de Anita Desai
Tradução de Maria do Carmo Figueira
Gradiva, 1999, 238 pp.
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Havia algum tempo que não encontrava nada assim. Um livro que nos persegue e obceca, mesmo quando não o lemos. Quando acabei a sua leitura, fechei os olhos, respirei fundo e desejei que Uma, personagem terna e comovente, núcleo central da obra, estivesse ali sentada, a meu lado.

Deixe-me apresentar-lhe a obra. Composta por uma série de pequenos capítulos, em que a economia e a contenção constituem a nota dominante da escrita, a obra configura-se como uma tragédia dos tempos modernos, em que a desagregação e a fragmentação da família se vão progressivamente fazendo sentir. É num contraponto, entre as formas arcaicas da tradição indiana e a vertigem da vida moderna de uma América decadente, que se desenvolve toda a tensão do livro, vista pelas perspectivas dos protagonistas principais: Uma e Arun.

Uma é a filha mais velha da família, vítima indefesa de uma sociedade em que, tradicionalmente, a mulher é relegada para o esquecimento do lar, não tendo sequer chegado a partilhar isso que são as "pequenas felicidades" do quotidiano: uma carreira, um marido, filhos. Arun é o filho varão dessa família, o herdeiro aculturado, que irá estudar para fora da sua pátria em busca do seu eldorado. É na pele desse forasteiro, frágil e débil, que sentiremos todo o desespero duma sociedade, invadindo a família e contaminando todas as relações nela existentes, eternamente insaciável, condenada a uma bulimia autodestrutiva.

A escrita de Anita Desai é luminosa e sensual, pautada por um finíssimo sentido de humor, arrastando-nos desde o início para um mundo — que nada tem a ver com o nosso, inodoro e frio, despojado de sensações que não sejam as virtuais — onde as coisas reencontram o seu lugar e onde o equilíbrio é constante, apesar de se sentir a sua precaridade e fragilidade, a todo o instante.

Porém, pouco a pouco, essa harmonia desabará, arrastando na sua vertigem a galeria (admirável) de personagens, que soçobram lentamente, no confronto com a vida na sociedade moderna. Nessa tragédia sucumbirão Ramu, a bela Anamika, a própria Uma, Arun... num mundo onde a redenção não é possível. Obrigatório, evidentemente, por todas as razões.

Maria João Cantinho
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