The Last Victim, de Jason Moss

Mais sinceros e honestos

Desidério Murcho
The Last Victim, de Jason Moss
Virgin Books, 1999, 278 págs.
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O fenómeno dos "serial killers" ou assassinos compulsivos americanos é profundamente repugnante, mas muito interessante, pois representa um desafio à nossa compreensão. Na obra "Ética Prática", Peter Singer confronta-se com a existência deste tipo de pessoas quando enfrenta a questão de saber por que razão devemos pautar a nossa vida pela ética. Estas pessoas representam um desafio à ideia de que pautar a nossa vida por princípios éticos é melhor para nós, pois não é claro que os psicopatas sejam infelizes — o único problema que têm é o de serem por vezes apanhados pela polícia. Mas, por outro lado, parece que falta a estas pessoas qualquer coisa de fundamental que os leva a cometer os crimes horríveis que cometem.

Esta obra relata, na primeira pessoa, as experiências levadas a cabo por um estudante universitário de Las Vegas. Moss decidiu encetar correspondência com alguns dos "serial killers" americanos mais horrendos que aguardam no chamado “corredor da morte” pelo desfecho legal da sua situação. Os "serial killers" dão, como é natural, origem a uma vasta bibliografia; psicólogos e criminologistas procuram uma explicação para este fenómeno horrendo. A vantagem deste livro é o facto de ser escrito por uma pessoa comum, que não procura apresentar grandes teorias, mas antes dar-nos a conhecer a mentalidade íntima dos psicopatas com quem se correspondeu. O efeito não podia ser mais intenso: o livro lê-se de um só fôlego e afecta de tal modo o leitor que não podemos deixar de nos sentirmos aterrorizados.

A estratégia de Moss foi muito simples: adoptou a personalidade típica das vítimas habituais dos "serial killers" com quem se correspondeu, levando-os a confiar nele e a tentar exercer sobre ele o poder que conseguem exercer sobre as suas vítimas. Muitos destes psicopatas, com efeito, conseguem conquistar de tal forma a confiança das suas vítimas que até ao último instante estas são incapazes de reagir. "John Wayne Gacy" é o psicopata (entretanto executado) com quem Moss estabeleceu uma relação mais intensa — culminando inclusivamente em duas visitas quase fatais à prisão onde ele então se encontrava (e onde agia como se fosse o anfitrião, dominando os carcereiros, à maneira do psicopata apresentado no filme "O Silêncio dos Inocentes").

Não só Gacy, mas também todos os outros psicopatas com que Moss contactou (incluindo um energúmeno de aspecto pacífico e solitário... que comia as suas vítimas depois de as matar e de as deixar apodrecer) estão convencidos que todas as pessoas estão o tempo todo a pensar em sexo e que tudo o que se faz é em função do sexo — só porque eles estão efectivamente todo o tempo a pensar em sexo. Há qualquer coisa de estranho nesta obsessão pelo sexo, qualquer coisa que faz os psicopatas serem incapazes de ter uma vida sexual verdadeiramente compensatória. (Veja-se a este respeito a crítica à obra "O Professor e o Louco".)

Os psicopatas parecem incapazes de perceber que as outras pessoas não são como eles; pensam que toda a gente se limita a fingir não ser como eles; assim, eles têm a vantagem de ser mais sinceros e honestos que as outras pessoas. Mas, claro, isto só se revela a pouco e pouco, pois os psicopatas não são estúpidos, de modo que reclamam — em geral — a sua inocência, procurando por todos os meios evitar a pena capital. O milagre de Moss foi ter conseguido arrancar a Gacy a confissão dos seus actos, coisa que ele sempre negou perante as autoridades.

Recomendo vivamente a leitura deste livro a criminologistas, psicólogos e todas as pessoas interessadas em reflectir sobre os labirintos mentais dos psicopatas. Moss descreve a correspondência com os psicopatas em jeito de romance, sem se deter a analisar teoricamente o fenómeno — e esta é uma perspectiva que tem muitas vantagens. Mas alerto para o facto de se tratar de uma obra muito intensa — uma leitura que não se recomenda ao leitor nocturno solitário, mesmo que este não seja facilmente impressionável.

Desidério Murcho
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