Lexique de Philosophie, de Alain Graf e Christine Le Bihan
Filosofia

Analogia desfigurada

Leônidas Hegenberg
Lexique de Philosophie, de Alain Graf e Christine Le Bihan
Seuil, 1996, 96 pp.
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Em sua série de pequenos livros (tamanho bolso) da coleção "Mémo", a Seuil acaba de incluir este Lexique de Philosophie. A série, sob os cuidados de Jacques Généreux e Edmond Blanc, já alcançou mais de 30 títulos e promete crescer. O "léxico" foi elaborado por Alain Graf, "chargé de cours" na Universidade de Marne-la-Vallée (sem indicação de sua área de trabalho), e Christine Le Bihan, "maitre de conférence" no Instituto de Estudos Políticos de Paris.

Quando um dicionário especializado é organizado por um idôneo diretor, com apoio de boa equipe de estudiosos, é difícil encontrar, no texto final, falhas dignas de nota. Podemos, naturalmente, discordar de uma ou outra maneira de caracterizar certos significados, como podemos divergir quanto à conveniência (ou não) de incluir certos termos. Mas será pequena, em geral, a probabilidade de haver dissensões acentuadas. Exemplificando, um bom dicionário de filosofia é o de D. D. Runes (New Jersey, Littlefield, 1966, 343 páginas), preparado com auxílio de 72 ilustres colaboradores, quase todos muito conhecidos e competentes (por exemplo, A. Church, J. R. Weinberg, M. Black, R. Carnap e W. Frankena).

Por outro lado, qualquer dicionário elaborado por um só autor (mesmo que se limite a duas centenas de termos de uma dada área, bem restrita), contém, de hábito, definições "boas" e definições apenas "razoáveis". Em outras palavras, contém termos cuja definição chegamos a aceitar, mas que certamente preferiríamos entender de outro modo. (É raro que um tal dicionário contenha definições "más", pois as casas editoras cuidam, em geral, para que isso não aconteça.)

No presente caso, o dicionário registra significados de 333 termos, desde “absolu” a “volonté”. Alguns (poucos) merecem apenas uma linha. É o caso, por exemplo, de "a priori". A grande maioria se põe em quatro "classes", recebendo três, ou seis, ou doze linhas ou meia página (em páginas de 40 a 42 linhas).

As definições foram preparadas por dois autores. Como um deles é da área de ciências políticas, o leitor aceita, com naturalidade, as longas definições de “capital”, “communauté”, “contrat”, “droit”, “état”, “liberté”, “politique, “religion” e “travail” (que merece uma página). A par disso, parece razoável encontrar termos como “histoire” e “mathématique”. Mas, assim sendo, por que faltam, por exemplo, “biologie” e “physique”?

O leitor aceita, de bom grado, várias definições (algumas, "bem apanhadas") e aprende muita coisa associada aos termos em tela. É o que acontece, digamos, com “temps”, “téchnique”, “sens”, “sensible” (e “sensibilité”), “relatif”, “régle”, “personne”, “perception”, “pensée”, “norme”, “entendement”, e “civilization”. Os autores marcam, também, oportunamente, a diferença entre “prévision” (na ciência) e “prédiction” (na astrologia, por exemplo).

Em oposição, está mal servido quando se trata de entender certos vocábulos da lógica. A idéia de analogia, por exemplo, foi desfigurada. Os autores requerem quatro termos, em proporção, "A está para B, assim como C está para D" e, no entanto, na linha seguinte, estabelecem analogia entre dois termos, respiração e combustão. Em “conditionnel” há confusão entre uma frase ("Se p, então q") e um argumento ("Dada a premissa p, segue-se a conclusão q"). As noções de contradição, dedução, demonstração e igualdade (em matemática) exigiriam reformulação. No termo “fato” não há definição, mas uma classificação dos fatos. “Identité” é um termo que exige revisão. O significado de “induction” está completamente desvirtuado. O que se diz de matematização difere do que, a esse respeito, costumam dizer certos filósofos de outras tendências — a matematização não é, por certo, o uso de estatística em sociologia! Em “necessité”, parece meio difícil aceitar a idéia de que "Si A alors B" exprimiria uma necessidade hipotética...

Apenas por curiosidade — tendo por base o escrito em francês e registrado neste pequeno dicionário — notemos que as palavras mais comuns são as iniciadas por "A" (ao todo, 46), por "C" (34) e por "I" (33). Em seguida, surgem, pela ordem, termos com iniciais "E", "F", "M", "D" e "S". Ainda mais ou menos freqüentes, os vocábulos iniciados por "F" e "R" (13) e "T" (12). A seguir, "H", "V", "N", "L" (oito), "G", "J" e "O" (seis palavras cada). Pouco usuais, as palavras iniciadas pelas letras "B" (cinco vezes) e "U", "Q" (duas vezes cada). Não há palavras iniciadas com as letras "X", "Y" e "Z".

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

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