Lobo Branco
5 de Fevereiro de 2005 ⋅ Livros

Uma fantasia muito realista

Desidério Murcho
Lobo Branco, de David Gemmell
Tradução de Maria Georgina Segurado
Lisboa: Editorial Presença, 2004, 408 pp., €14,96

Se procura uma leitura empolgante de Verão e gosta do género Fantasia, esta é uma boa escolha. Com uma tradução e edição primorosa — que raramente confunde o "por que" (why) com o "porque" (because) — faz-nos pensar por que razão os ensaios não são em geral publicados com este carinho pela língua portuguesa e este respeito pelo leitor. Gemmell apresenta-nos um universo de sabor mais ou menos medieval, como é praticamente de regra no género Fantasia, com alguma magia (felizmente, muito pouca, e praticamente só no final) e muita verdade. E esta é a força do romance: o seu retrato cru e por vezes violento dos seres humanos, eternamente envolvidos em guerras e maldade, seres humanos que são igualmente capazes de lealdade e justiça, de compaixão e coragem. "Todos vamos morrer, alguns de nós jovens, alguns de nós velhos, alguns de nós enquanto dormimos, alguns de nós gritando em agonia. Não o podemos impedir, mas podemos apenas retardá-lo" — este tipo de prosa crua caracteriza o romance, e cativa o leitor. A intensidade humana das suas personagens, que com apenas algumas pinceladas narrativas ganham vida própria e se tornam pessoas de carne e osso, faz deste romance mais do que uma mera leitura de Verão para preencher tardes quentes. Começando por nos apresentar o herói Skilgannon, o Maldito, num curto prólogo de seis páginas, a narrativa entrelaçada prende o leitor num crescendo de intensidade, não existindo quaisquer momentos mortos. Entrelaçando a narrativa com vários "flashbacks" que nos vão revelando toda a profundidade e complexidade da história, o autor consegue o efeito notável de nos apresentar um universo ficcional extraordinariamente complexo e pormenorizado — tanto pela profusão de personagens, como pela complexidade da história daqueles povos. Mantendo-se sobretudo ao nível do diálogo inteligente e revelador, e da descrição hábil da acção, é uma leitura apropriada para os mais jovens, apesar de não esconder realidades humanas geralmente ausentes da Fantasia para jovens (como a sexualidade).

Skilgannon, de ascendência guerreira, segue os passos do pai e torna-se um general temido pela sua destreza no manejo das espadas. Quando o encontramos, no início do romance, retirou-se para um mosteiro pacifista e vive com remorsos pelo que foi e pelo que fez — não apenas ao nível militar, mas também sentimental. Todavia, acaba por ser empurrado novamente para uma perigosa aventura, que levará a cabo com um conjunto curioso de amigos que conhece, em diversas circunstâncias, ao longo da sua demanda. A amizade e lealdade que se desenvolve entre tal conjunto improvável de aventureiros — que inclui dois irmãos gémeos, um dos quais parece sofrer de um profundo atraso mental, uma rapariga louca que ouve vozes e um portentoso velho guerreiro que usa um pesadíssimo machado como arma, entre outros — é um dos aspectos mais bem conseguidos deste romance.

Ao longo das suas quatrocentas páginas, conhecemos inúmeros personagens secundários, todos tratados com uma atenção notável ao pormenor e uma grande sensibilidade psicológica. Não encontramos, praticamente, personagens ocos, sem história ou sem personalidade. Os diálogos ricos definem personagens e apresentam-nos passados e perspectivas complexas, interessantes e profundamente humanas. A fluidez narrativa confere-lhe uma veracidade pouco comum em obras desta natureza — um pouco como se o autor estivesse a relatar realidades e não uma ficção. E não é isso que esperamos tantas vezes de um bom romance, independentemente do género?

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (31 de Julho de 2004)
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