Até Onde se Pode Ir?
Livros

Misérias e esperanças

Desidério Murcho
Até onde se pode ir?, de David Lodge
Tradução de Helena Cardoso
Lisboa: Gradiva, 1997, 229 pp.
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Já me tinham falado de David Lodge, mas em moldes que não me atraíram: pensei que era apenas um escritor de romances divertidos mas superficiais, talvez bom para ler quando não temos nada de melhor de recomendável para fazer, mas dificilmente recomendável a quem não tem tempo a perder. Estava enganado. Depois de ler este romance de 1980 que a Gradiva em boa hora decidiu publicar em Portugal, quase fiquei a pensar que não ler David Lodge é que é perder tempo...

Este romance é divertido, sério, inteligente, comovente, por vezes trágico. Como a vida. E revelou-me um autor culto — uma agradável surpresa para quem, céptico como eu, pensa ser essa uma espécie em vias de extinção na literatura deste fim de século.

Lodge conta-nos a história de nove jovens e de algumas outras personagens que giram em torno delas. E que história vem a ser essa? Basicamente, a história de um grupo de católicos — praticantes, claro (a espécie tipicamente portuguesa de "católicos não praticantes" não aparece aqui). Que vão à missa, que participam em grupos, que fazem aquelas coisas todas que eu felizmente nunca fiz, como, por exemplo, casar virgens, não usar preservativos nem tomar a pílula e acreditar no inferno, no pecado original e noutras ideias tristes — que Bertrand Russell achava, com razão, que nenhuma pessoa realmente boa podia ter inventado.

E que mais? Bom, Lodge guia-nos pelas vidas desse grupo de católicos desde 1952 — adolescentes e estudantes — até aos anos setenta, casados, com filhos e alguns com netos. Mas que é que acontece? Bem... tudo. Todas as misérias e esperanças da visão católica do mundo, todos os sacrifícios em nome de coisa nenhuma, todo o absurdo de uma crença insensata, todas as dificuldades de obedecer aos mandamentos do papa quando se é fisicamente normal e as hormonas segregam o que a natureza determinou que segregassem — aparentemente contra a vontade de Deus. Do início dos anos 50 até aos 70, a classe média católica passou por uma revolução: deixou, pura e simplesmente, de acreditar no inferno. Mas, como um castelo de cartas que se desmorona, toda a mundividência católica se tornou cada vez mais absurda e a pergunta que todos os rapazes colocavam ansiosos aos seus guias espirituais quando começavam a namorar — até onde se pode ir? — coloca-se agora em relação à liberdade espiritual que a ausência do inferno representa.

As personagens são espessas, a narrativa fluente e a quantidade de informação oferecida sobre a história recente do catolicismo inglês é preciosa — e apresenta-se bem estruturada e sem pedantismos ou didactismos irritantes. Lodge é um mestre da arte narrativa. Certas observações fizeram-me lembrar a lucidez da visão que García Márquez cultiva da vida quotidiana. E do ponto de vista formal surpreendeu-me deveras. Lembra-se de A Insustentável Leveza do Ser, na qual Milan Kundera nos desarma ao conduzir-nos aos bastidores do próprio romance que estamos a ler? Lodge faz uma coisa semelhante: as personagens são-nos apresentadas como... personagens. Lodge consegue desarmar o leitor, que é apanhado desprevenido: o jogo ficcional torna-se diferente daquilo a que estamos habituados porque dialoga com a realidade da própria escrita. Apesar disso, as personagens não perdem a sua espessura dramática! E isto parece-me um feito admirável, do ponto de vista formal. Um livro inesquecível, com uma galeria de personagens autênticos, uma narrativa bem ritmada que constrói cumplicidades e cria expectativas, diverte, faz pensar e cultiva. A não perder. Compre-o, leia-o, ofereça-o, discuta-o. A tradução de Helena Cardoso lê-se com prazer.

Ah!, esqueci-me de dizer: o livro lê-se com um certo entusiasmo. Por exemplo, eu comecei a lê-lo à meia-noite e só parei às 5:30 para uma soneca. Retomei-o assim que acordei e terminei-o depois de almoço. Acho que posso dizer que é um romance que nos prende da primeira à última página, passe o lugar-comum...

Desidério Murcho
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