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Livros

Uma fé perdida

Desidério Murcho
Notícias do Paraíso, de David Lodge
Tradução de Carlos Grifo Babo
Gradiva, 1998, 316 pp.

Imagine um padre católico sem fé no Havai, um grupo de turistas onde se inclui um antropólogo que estuda os modernos rituais das férias de plástico, um casal em lua-de-mel que não se fala e um maníaco dos vídeos amadores que nunca larga a sua câmara. Junte ao padre desiludido uma tia que morre de cancro, um pai macambúzio que é atropelado por uma mulher que acabou de ser abandonada pelo marido e que vai libertar finalmente o padre de anos de clausura espiritual. Bata bem e sirva com um domínio perfeito da arte de contar histórias e ficará com uma ideia do que faz mais este livro de David Lodge uma obra maravilhosa. Efectivamente, Lodge orquestra todos os elementos deste seu romance com a segurança de um mestre e dirige as peripécias em que os seus personagens se envolvem com o brilho de um maestro experiente.

Como no anterior romance de Lodge apresentado no Leituras, o tema central desta obra é, uma vez mais, o desencanto de uma fé perdida. Bernard, o personagem principal, cresceu para ser padre numa família irlandesa que vive na Inglaterra. Aos 40 anos é um homem destruído espiritualmente. Perdeu a fé e, por causa da fé, perdeu o amor, perdeu a vida, perdeu a família. Agora, sem a fé, nada resta. Este romance trata da conquista difícil dessas três coisas. O ambiente não podia ser melhor escolhido: um ex-padre desencantado e sombrio num paraíso de luz e calor. Que contraste! Mas o ambiente paradisíaco é também ele vazio, não corresponde às brochuras das agências de viagens, é um gigante de betão e aço afogado num calor opressivo e desmesurado. Mas é o paraíso na terra, segundo os padrões que nos vendem pela TV. Até que ponto é este paraíso desencantado uma metáfora do paraíso religioso e do seu vazio?

A verdadeira vida espiritual, o amor, o altruísmo, a bondade, serão descobertos por Bernard graças à mulher que atropelou o seu pai, Yolande. Esta personagem é extremamente cativante e o amor vivido pelos dois é de uma ternura inesquecível. Yolande é uma mulher extremamente inteligente e bondosa, uma espécie de anjo que aparece na vida taciturna e sem futuro de Bernard e lhe dá a conhecer o outro lado da vida, o lado dos seres humanos que podem ter uma verdadeira vida espiritual porque não se atormentam com dogmas religiosos absurdos. Uma lição de vida.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
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