O Mundo é Pequeno, de David Lodge

Que fazer com a vida?

Desidério Murcho
O Mundo é Pequeno: Um Romance Académico, de David Lodge
Tradução de Lucinda Maria dos Santos Silva
Edições Asa, 1996, 362 pp.

Este romance ocupa-se de um grupo de professores de literatura que deambulam em torno do mundo em sucessivos congressos. As suas vidas privadas e profissionais são passadas a pente fino, com muito humor, por alguém que conhece bem o meio: David Lodge é professor universitário de literatura. O livro tem momentos verdadeiramente hilariantes e não aconselho a sua leitura nocturna a quem não desejar acordar o vizinho do lado… É que, por vezes, explodimos em sonoras gargalhadas — isso aconteceu-me pelo menos três vezes.

O romance não é, todavia, inteiramente frívolo, se bem que seja o menos sério de todos os que li até hoje de Lodge. As vidas sexuais e académicas dos seus personagens são caricaturas bem conseguidas e há dois aspectos sérios no meio de tudo: a aparente fraude intelectual que é a crítica literária pós-moderna e a questão que muitos dos personagens colocam mudamente a si mesmos: que fazer com a vida?

O personagem principal corre o mundo em busca de uma mulher furtiva pela qual nutre uma paixão infantil — não vou revelar o desfecho para não lhe estragar a surpresa. Os outros personagens correm o mundo em busca não se sabe bem de quê… nem eles sabem bem de quê. Um dos personagens tem a coragem um dia de se fazer a pergunta mais incómoda de todas: que estou eu a fazer aqui, a centenas de quilómetros de casa? Ele não sabe, nenhum deles sabe, mas a correria de congresso para congresso, atravessando fronteiras e calcorreando fusos horários faz parte da vida académica actual; pelo menos, faz parte da vida académica dos países mais avançados do que Portugal…

À excepção do romântico personagem principal (um poeta, claro), o bando de académicos frívolos dedicam-se, basicamente, a ir para a cama uns com os outros e a lutar desalmadamente por distinções a que não dariam nenhuma importância não fosse o facto de toda a gente as desejar para si. São como os diletantes das classes mais elevadas da sociedade europeia e americana do século XIX, para quem viajar servia para enganar o tédio de vidas sem sentido. O retrato é cruel, mas parcialmente realista. Pergunto-me a mim próprio o que aconteceria a um professor português que tivesse a coragem de descrever os piores aspectos da academia portuguesa…

Este livro de Lodge é, como sempre, uma lição na arte de bem narrar uma história. Com uma galeria de personagens tão vasta, Lodge consegue conduzir todos os elementos da sua criação com mestria, qual maestro perante uma partitura complexa mas que conduz a bom porto. A tradução portuguesa é boa.

Desidério Murcho
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