Lolita, de Vladimir Nabokov
Livros

Panaceia para um coração destroçado

José Barros
Lolita, de Vladimir Nabokov
Teorema, 1985, 270 pp.

É comum considerar-se que em matéria de literatura, são os gostos de cada um a ditarem leis. Assim sendo, não podemos deixar de aceitar que um nosso amigo (ou amiga) prefira ler Isabel Allende ou Paulo Coelho a debater-se com livros que exigem mais do leitor. Essa exigência pode advir de uma série de factores: um bom livro (seja ele de poesia, ficção ou ensaio) exige, de uma maneira geral, conhecimentos sobre a obra do autor, os processos literários que ele utiliza, a época e o espaço descritos na obra, referências a outras obras literárias, filosóficas, científicas, e a outros autores. Numa expressão, exige competência literária por parte do leitor. O argumento típico de quem lê livros maus (assim como de quem vê filmes maus) é o de que estes servem apenas para entreter ou distrair. Considero o argumento fraco, visto que livros bons conseguem simultaneamente entreter e instruir (com os filmes passa-se o mesmo). Não é que a educação seja um dos propósitos do autor (espera-se até que não seja), mas deve sê-lo do leitor que se preocupa em aprender algo de novo a partir dos livros que lê. O autor que irei apresentar não escrevia os seus livros com nenhum intuito didáctico e, no entanto, é muito o que podemos aprender e retirar da obra dele.

Por outro lado, a economia de mercado, embora ofereça vantagens inegáveis, como seja a de uma maior oferta em termos de bens de consumo, tem tendência a igualar gostos, pondo todas as pessoas a gostarem dos mesmos filmes, dos mesmos programas de televisão, dos mesmos livros. Só assim se explica o sucesso enorme que a literatura de cordel ou literatura de aeroporto, como também é conhecida (que inclui os nomes atrás citados) detém hoje em dia e que estejamos esquecidos dos grandes autores, que, por força da sua imaginação, construíram novos mundos possíveis que habitamos durante a nossa curta estadia neles. Aqui põe-se a questão de querermos ser como os outros. Penso que é mais útil construirmos a nossa personalidade (a nossa teia de crenças, como diria Rorty) de uma maneira original, visto que, desse modo, podemos contactar com outras pessoas e transmitir-lhes algo inteiramente nosso, que não seja mero cliché de revistas femininas (ou masculinas) ou de conversa de psicólogo. Para tal, ler livros que os outros não lêem, nem querem ler, pode ser um começo.

Considero (um tanto subjectivamente, é certo) que existem dois tipos de escritores bons: aqueles que nos mostram a realidade que habitamos sob uma luz diferente e aqueles que criam os seus próprios mundos baseando-se naturalmente na realidade. No primeiro caso, incluem-se autores que são movidos pelo impulso social, psicológico ou metafísico para a escrita. Neles, conto escritores como Balzac, Zola, Hemingway, Camus, Sartre, Orwell, por exemplo. Todo o género de escrita comprometida com um ideal extra-literário (sócio-político ou filosófico) pertence a este grupo. Ao segundo, pertencem escritores que, não fazendo parte de nenhuma escola, escolhem escrever a sua obra por amor à literatura, à sua própria língua e, sobretudo, à imaginação. Neles, incluo, Shakespeare, Gogol, Joyce, Kafka, Borges e Nabokov. É sobre este último que quero escrever, em particular sobre a sua obra-prima: Lolita.

Nabokov nasceu em 1899, no mesmo dia do nascimento de Shakespeare — 22 de Abril. Trilingue, falava inglês e francês com a mesma facilidade com que se exprimia em russo. Depois da Revolução de Outubro em 1917, foge com a família para Londres. O autor de Lolita estuda em Cambridge e mais tarde junta-se à família, agora em Berlim. É lá que o seu pai é assassinado, por alegadamente conspirar contra os comunistas. Entre 1923 e 1940 escreve contos, romances, peças de teatro, poemas em russo, não obtendo, porém, grande reconhecimento público, porque a sua obra é proibida na Rússia. Emigra para os Estados Unidos em 1940 com a sua mulher e o seu filho, e a partir daí escreve apenas em inglês, abandonando definitivamente a língua russa, pelo menos no que toca ao seu trabalho criativo, visto que continua a traduzir várias obras para o russo. A sua obra é, em grande medida, apenas conhecida pelo facto de ter escrito Lolita, um best-seller nos anos 60, rejeitado anteriormente à sua publicação por vários editores, que o consideravam subversivo. Morre em Montreux, na Suiça, em 1977. Entre as suas obras, contam-se ainda (dos livros traduzidos para português) Pnin, Fogo Pálido, Desespero, Transparências e a autobiografia Na Outra Margem da Memória.

Lolita é uma história de amor trágico entre um homem de 35 anos (Humbert Humbert, embora este nome seja um pseudónimo) e uma rapariga de 12 anos, fascinada pelo cinema e que quer um dia ser actriz, Lolita. A narrativa é-nos dada por Humbert, que narra o período da sua vida em que conheceu e amou Lolita, não sem antes nos dar conta das suas anteriores experiências amorosas na Europa. Estas anteriores experiências de Humbert, um gentleman inglês que chega à América com o intuito de dar aulas e pôr termo a uma vida desgraçada na Europa, são importantes para estabelecerem um padrão de comportamento da personagem: Humbert gosta de meninas pequenas e não consegue interessar-se por mulheres da sua idade. Tal deve-se em grande parte a um amor antigo e perdido, quando era jovem e a sua namorada Anabela morreu de tifo. Humbert, depois desse amor, chega a casar-se com Valéria, uma mulher de origem polaca, mas sem grande entusiasmo. Divorcia-se e emigra para os Estados Unidos, onde mais tarde, depois de sair de uma casa de saúde, decide ir viver para uma cidade pequena, Ramsdale. É lá, em casa de Mrs. Haze, onde está instalado, que Humbert conhece Lolita, cedo se apaixonando fatalmente por ela. A obsessão de Humbert descambará num final trágico, que leva o amante a escrever o manuscrito para apaziguar a alma dos seus erros. A literatura é para Humbert uma mera panaceia para um coração destroçado. Mas atenção: o facto de a narrativa estar repleta de humor e sensualidade, não nos deve fazer esquecer o abuso de Lolita por Humbert. Um dos méritos de Nabokov é precisamente o de nos fazer flutuar entre sentimentos antagónicos em relação à figura e ao comportamento de Humbert. Tendemos a desculpabilizar Humbert, como nos desculpabilizamos quando somos consciente ou inconscientemente insensíveis ou cruéis com as pessoas com as quais convivemos diariamente.

Não pretendo estragar-lhe a leitura, pelo que prefiro não contar o resto da narrativa. No entanto, gostava de apontar alguns elementos do romance que merecem destaque.

O prefácio à narrativa humbertiana, é escrito por um professor de filosofia (há muitos na obra de Nabokov), John Ray, que conta como o manuscrito de Humbert lhe chegou às mãos. O prefácio é importante (e divertidíssimo), porque antecipa o destino de todas as personagens do livro. Também é engraçado notar o tom moralista do professor de filosofia a condenar o comportamento de Humbert, mas simultaneamente a assegurar o leitor de que a narrativa não é imoral, nem contêm termos obscenos. Sabendo-se que Nabokov teve imensas dificuldades em encontrar um editor que se predispusesse a publicar a obra, por esta ser alegadamente subversiva, não é difícil perceber o tom de paródia aos moralistas que perpassa todo o prefácio. A sensualidade que respira no texto, não é o fulcro do mesmo, é antes uma opção estilística que está de acordo com o tom da narrativa. Por um daqueles acasos irónicos, o escândalo levantado pelos moralistas, apenas deu relevo à obra.

A paródia, que se distingue da sátira por não ter nenhum fim moralista ou moralizante, é um recurso literário muitas vezes utilizado por Nabokov, um grande humorista. Assim, o tratamento dado aos psiquiatras e psicanalistas em Lolita e em todos os outros livros do autor é sempre corrosivo. Nabokov detestava Freud, considerava-o medieval e primitivo. A psicologia, segundo o grande autor russo, depende de clichés baseados em generalizações que só se adequam a quem não tem imaginação ou é facilmente impressionável pelo jargão sem sentido dos "psis". Humbert , no livro, descreve o modo como engana psiquiatras, inventando sonhos complexos que não teve, para eles os descodificarem.

Outra característica interessante em Nabokov é a descrição pormenorizada de cada objecto focado pelo narrador. Sendo lepidopterista (cientista que estuda as borboletas), o autor tenta combinar poesia e ciência. De facto, cada página nabokoviana é um pequeno poema, pela beleza e exuberância da escrita, rica em recursos estilísticos e em imagens precisas. Tal exige do leitor uma atenção redobrada na leitura, visto que os jogos de palavras, os estrangeirismos, as referências múltiplas são abundantes. Por exemplo, quando passam pelo estado da Virgínia, Humbert descreve um farol. Esse pormenor passa despercebido a quem não conheça a obra de Virgínia Woolf (autora do romance Rumo ao Farol, To the Lighthouse no original em inglês). Outro exemplo: no romance aparece uma figura feminina que se chama Vivian Darkbloom. O nome é um anagrama de Vladimir Nabokov. Tantas armadilhas (são muitas) aparecem em todos os livros de Nabokov, mas não devem desmoralizar quem não conheça a obra. Eu admito não compreender o alcance de muitos aspectos e referências nos livros dele, mas só pelo que compreendo vale a pena lê-lo. A ideia de Nabokov, é fazer do confronto entre o autor e o leitor, um jogo em que um (o leitor) tenta resolver todos os quebra-cabeças literários levantados pelo outro (o autor). É óbvio que Nabokov sai sempre a ganhar deste jogo, ele que era mestre no jogo de xadrez. No entanto, tal facto não tem a menor importância. Os livros lêem-se bem, mesmo que não captemos todas as referências.

Lolita não tem qualquer finalidade moralista latente. Apesar de relatar um caso de abuso de uma criança, o objectivo do autor (como ele afirma no posfácio) não é moralizar ou satirizar. Ele pretende somente fazer arte, sem se preocupar com questões sociais, políticas, ou didácticas. Para Nabokov, a verdade de um livro é a coerência que o autor consegue atingir entre o comportamento das personagens e o mundo que elas habitam, o mundo do autor. Nabokov é uma espécie de divindade antropomórfica que manipula as personagens como o marionetista controla as marionetas. Não há modo de comparar a verdade do livro com a verdade do mundo cá fora, nem o leitor pode esperar de Nabokov juízos sábios e morais: "o poeta é um fingidor". Como tal, engana-nos também a nós com os seus truques. Mas nem por isso deixamos de gostar da magia.

Vale a pena ainda mencionar dois trabalhos feitos a propósito de Lolita. O filme de Andrew Lyne, realizado, salvo erro, nos anos 80, com Jeremy Irons, no papel de Humbert, e Dominique Swayne, no papel de Lolita. Gostei muito do filme, apesar de me parecer que o Humbert de Jeremy Irons é demasiado simpático em comparação com o do livro. Tal deve-se possivelmente ao facto de a película acentuar o lado romântico da história, bem como a sensualidade presente no texto. As interpretações são excelentes e vale a pena vê-lo. O outro trabalho é um ensaio de Richard Rorty, o filósofo pragmatista americano, a propósito de Nabokov, incluído em Contingência, Ironia e Solidariedade. O ensaio é sobre a crueldade, considerando que Nabokov faz parte de um grupo de escritores (que inclui o Marquês de Sade e Choderlos de Laclos, autor de Ligações Perigosas) que nos mostra (a nós leitores) como podemos ser insensíveis e cruéis perante outras pessoas, nossas vítimas. Nabokov (através de Humbert) seria um escritor que nos mostra no que é que nos tornamos quando perdemos a curiosidade e a atenção com que atendemos outras pessoas que procuram a nossa ajuda, mesmo sem o dizerem explicitamente. Humbert, diz Rorty, é um monstro de incuriosidade, incapaz de atender os desejos e ansiedades das pessoas que o rodeiam, é um vitimizador, que submete Lolita à pior das torturas. Nabokov estaria pois do lado do martelo (é esta a metáfora de Rorty), o lado dos vitimizadores, enquanto escritores como Orwell ou Dickens, estariam do lado do prego, ou seja, das vítimas, mostrando-nos pessoas que sofrem nas nossas sociedades e a quem nós ainda não demos a atenção que merecem. Vale a pena ler o ensaio, depois de lermos Lolita, mesmo que não concordemos com ele.

A tradução portuguesa de Lolita é recomendável.

José Barros
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