A Luz da Noite, de Pietro Citati

A mitologia revisitada

Maria João Cantinho
A Luz da Noite, de Pietro Citati
Tradução de Regina Louro
Editorial Presença, 2000, 286 pp.

Recentemente galardoado com o prémio Latinidade, Pietro Citati é ainda um autor pouco traduzido em Portugal, ainda que a sua extensa carreira de ensaísta literário seja sobejamente conhecida. Nesta colecção fascinante, constituída a partir de pequenos ensaios, Pietro Citati guia-nos com a sua mão segura e sábia através do fabuloso mundo da mitologia, revisitando-a e reinterpretando-a.

Numa prosa colorida e fluente, Citati inicia-nos no mais fabuloso dos universos humanos, o das representações simbólicas que se constituíram como a matriz das famosas civilizações do mundo: egípcia, chinesa, grega, árabe, maia e inca. Contudo, lamento o facto de Citati não ter resolvido incluir nesta obra a mitologia nórdica, o que tornaria a obra ainda mais interessante.

Cada uma das partes em que se divide A Luz da Noite refere-se a uma determinada mitologia. Assim, a primeira parte, intitulada "O Rei de Micenas", refere-se à mitologia grega. Nela encontramos não um desfilar exaustivo de deuses e de narrativas sobre o Olimpo mas uma fascinante e riquíssima interpretação das narrativas legadas pela literatura grega que percorre os séculos, desde Homero aos autores mais tardios que pertenceram ao género da tragédia.

No artigo "Apolo, Hermes e a Poesia", Citati parte da clássica e famosa oposição entre Hermes e Apolo, aprofundando a análise dessas figuras simbólicas na arte e na literatura e relacionando-a directamente com os poemas Ilíada e Ulisses de Homero. Ficamos a saber que Hermes, contrariamente a Apolo, é o deus que ama o equívoco, a mentira e o logro da literatura, mente intrincada e irisada, artificiosa, enigmática e labiríntica. Nascido da noite, o tempo de Hermes é o tempo da noite e da sedução, trazendo consigo o povo dos sonhos, acompanhando a alma dos mortos, lançando no mundo a informidade e o caos, em metamorfose constante. Citati retoma ainda o texto platónico do Banquete, para analisar o amor filosófico, à luz da teoria das Ideias.

Em "Saturno e a Melancolia", Citati aborda a relação entre a genialidade e o temperamento melancólico e saturnino, como fermento de um saber alegórico que encontra a sua mais elevada expressão na literatura. O tema não é novo. Havia sido analisado por Aristóteles e pela medicina da Idade Média e posterior, mas Citati aprofunda-o, pois recorre a uma galeria de autores, plásticos e literários, que sucumbiram a essa estranha aura. Em "Plutarco e o Mito", o autor estabelece, entre a mitologia grega e egípcia, pontos de confluência, lugares de pertença, os quais enriquecem substancialmente a leitura dos mitos gregos.

Na segunda parte desta obra, Citati centra-se na análise dos mitos judaico-cristãos da Bíblia e que conformaram a tradição cristã. O ponto de vista que nos inicia na sua leitura é original. Citati responde à questão: como leria um pagão S. Paulo? Este ponto de vista, que é o inverso daquele a que nos habituámos desde sempre, obriga-nos a questionarmo-nos sobre a zona de obscuridade do cristianismo e o seu carácter trágico e absurdo.

A terceira parte é dedicada à cultura e literatura chinesas. Novamente nos delicia Citati com o absurdo do cristianismo, face à harmonia da religião de Confúcio, revelando a intolerância e a soberba dos missionários cristãos, convencidos da sua superioridade, isto é, inconscientes do seu primitivismo.

Na quarta parte, Citati aborda as narrativas islâmicas que chegaram até nós, desde As Mil e Uma Noites, até à poesia de Omar Khayam e Farid od-Din Attar (autor do místico poema O Verbo das Aves), poetas persas célebres.

A última parte, "A Morte dos Deuses", reúne uma série de ensaios consagrados à decadência e morte das grandes civilizações dos maias e dos incas. Desfilam diante do nosso olhar esses personagens fabulosos que sofreram na carne a intolerância implacável dos conquistadores espanhóis, deixando-nos nos lábios o amargo sabor da injustiça cometida contra a ingenuidade e a inocência de povos que os acolheram em paz. Só para lembrar, cite-se o caso de Montezuma, que acolheu Cortéz como um deus, oferecendo-lhe uma filha, oferecendo jóias aos seus carcereiros, acreditando que dessa forma pacificaria a insaciabilidade desses aventureiros espanhóis. Com a morte dos grandes chefes dessas derradeiras civilizações morreram também as mais fantásticas mitologias, consagradas ao culto do sol, tendo sido igualmente destruídas as mais belas e harmoniosas cidades do mundo, a acreditar nas fontes históricas. É um olhar pungente e dilacerado que Citati nos proporciona e que assiste com impotência à desagregação da mais plena harmonia entre o homem e os seus deuses, oferecendo-nos um cenário de desolação plena.

Intenso como apenas alguns romances conseguem sê-lo, Citati é um autor a reter na nossa memória e A Luz da Noite destaca-se como uma jóia preciosa, um monumento dedicado ao conhecimento das grandes narrativas míticas da humanidade. De imprescindível leitura, obviamente.

Maria João Cantinho
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