Macunaíma, de Mário de Andrade
Livros

Fauno insaciável

Antônio Ribeiro de Almeida
Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Caráter, de Mário de Andrade
Edição coordenada por Telê Porto Ancona, sob os auspícios da UNESCO, 1988, 480 pp.
Colaboração de Alfredo Bosi, Silviano Santiago, Diléa Manfio, Raúl Antelo, Maria Fonseca, Eneida Maria de Souza, Darcilene Rezende, Marlene Gomes Mendes.

Em apenas 30 dias, quando passava umas férias em numa chácara em Araraquara, interior de São Paulo, Mário de Andrade escreveu Macunaíma que seria um clássico da literatura brasileira e que levantaria a questão se o herói é ou não o protótipo do brasileiro.

Caráter, como se sabe, quer dizer muitas coisas. A interpretação mais imediata é a de que Macunáima não tem caráter porque não vive os valores da civilização ocidental. Um crítico, com preocupações estatísticas, ficaria espantando com o número de vezes — mais de uma centena — que o herói "brinca" com todas as mulheres que encontra no seu caminho. É um fauno insaciável, e, neste sentido, refletiria o sensualismo e o erotismo do brasileiro. Mas se ele "brinca" até com a própria cunhada e a conquista do seu irmão, observa-se, por outro lado, que seus atos sexuais nunca são descritos com lascívia, mas, antes, apresentados como jogos de um adolescente, e, sempre seguidos de punição. Haroldo Campos na sua "Morfologia de Macunaíma" (Ed. Perspectiva, 1973) mostra isto muito claramente no cap. 5 do seu livro. Macunáima possui Ci, rainha das Amazonas, e Ci acaba morrendo. A morte do Ci acaba trazendo conseqüências indesejáveis para Macunaíma que inicia sua andança pelo Brasil afora. Se ele é o Imperador do Mato Virgem o é sem a sua companheira e a violação do interdito tribal traz a punição. A felicidade é jogada para o futuro e na posse de um talismã de felicidade, a "muiraquitã". Todo o enredo da rapsódia se desenvolverá em torno de sua perda e recuperação.

Penso ainda que é possível descobrir uma consciência moral em Macunaíma. Sempre me intrigou, por exemplo, o inicio do capítulo V que transcrevo: "No outro dia Macunaíma pulou cedo na ubá e deu uma chegada até a foz do Rio Negro pra deixar a consciência [o grifo é meu] na ilha de Marapatá. Deixou-a bem na ponta de um mandacaru de dez metros, pra não ser comida pelas saúvas." (p. 33). Não deixa de ser simbólico que a consciência fique no Norte do país quando o herói se prepara para viajar para o Sul (S. Paulo), onde estão todas as tentações e maravilhas. Quando depois de muitas aventuras Macunaíma volta para o Norte ele retorna para morrer. Fica em aberto a questão se ele algum dia pensava em "recuperar" sua consciência.

A edição crítica de Telê Ancona é magnífica, e, os irmãos portugueses têm neste texto um roteiro seguro para ver como o brasileiro foi ou é interpretado por um dos seus maiores escritores.

Antônio Ribeiro de Almeida
almeida.35@uol.com.br
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