Como se Faz um Filósofo
20 de Setembro de 2003 ⋅ Filosofia

O verdadeiro mundo de Sofia

Desidério Murcho
Como se Faz um Filósofo, de Colin McGinn
Tradução de Célia Teixeira
Revisão de Desidério Murcho
Lisboa: Bizâncio, 2007, 252 pp.

"A tradição filosófica de que faço parte começa com Platão e Aristóteles, prossegue com Locke, Berkeley e Hume, tal como com Descartes, Leibniz e Kant, terminando em Frege, Russell, Wittgenstein e nos seus descendentes filosóficos. Esta tradição dá ênfase à clareza, rigor, argumentação, teoria e verdade. Não é uma tradição que tenha primariamente por objectivo a inspiração ou a consolação ou a ideologia." Com estas palavras, Colin McGinn esclarece o leitor menos informado, que é precisamente o leitor a que este livro se dirige. O público em geral (e, sobretudo entre nós, alguns cientistas mais desinformados) pensa por vezes que a filosofia é uma espécie de infância da Ciência; ou uma espécie de Religião sem confissão; ou uma espécie de Cultura Geral com palavras caras; ou uma espécie de especulação aleatória em que tudo vale. Este livro mostra o que é a filosofia, hoje, e constitui-se como uma espécie de Mundo de Sofia para leitores que não gostam de ser tratados como mentecaptos. E com o atractivo suplementar de não se tratar do incoerente mundo inventado de uma personagem oca, mas por se tratar do mundo real de um verdadeiro filósofo contemporâneo.

Nascido em 1950, Colin McGinn é hoje um dos filósofos mais respeitados. Inglês, de origens humildes (foi o primeiro da família a entrar na universidade), estudou nas universidades de Manchester e Oxford, onde foi também professor. Actualmente é professor na Universidade de Rutgers, nos EUA, e vive em Nova Iorque. Começou por destacar-se pelo seu trabalho em filosofia da mente, e o seu livro, The Character of Mind (OUP, 1982), é considerado um dos melhores do género (trata-se de uma introdução). Contudo, ao cabo de alguns anos de investigação, e depois de publicados vários livros e dezenas de artigos em revistas da especialidade, McGinn começou a suspeitar que o problema central da filosofia da mente ("O que é a consciência?") não poderia ser respondido pela mente humana. Para quem tinha investido anos da sua vida nesta área, foi necessária coragem para a abandonar. Mas foi o que ele fez, tendo-se dedicado à filosofia da literatura e à ética, sendo o seu livro Ethics, Evil, and Fiction (Clarendon Press, 1997) o primeiro resultado das suas novas investigações. No seu último livro de investigação, Logical Properties (OUP, 2000), regressa às áreas mais especializadas da filosofia, com uma clareza, rigor e concisão que são infelizmente raras.

Em Como se Faz um Filósofo, McGinn usa a sua biografia como fio condutor, dando a conhecer não apenas alguns dos temas centrais da filosofia, tal como são discutidos hoje em dia, mas também o modo como um ser humano vive esses problemas. Sabendo que os filósofos são muitas vezes encarados como seres do outro mundo, McGinn mostra o lado humano de uma vida dedicada à investigação filosófica, procurando destruir a imagem romântica do "génio atormentado" que infelizmente alguns intelectuais gostam de cultivar. Afinal, que há de mais humano do que esta vontade de descobrir a verdade das coisas? Como Oliver Sacks comentou, este livro está "escrito de forma brilhante, é devastadoramente honesto, por vezes hilariante, e conta uma história pessoal tão fascinante quanto a filosófica". Nem mais.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Previamente publicado no jornal Público (29 de Março de 2003).
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