Marco Aurélio, de Arnaldo do Espírito Santo

O governante e o filósofo

Célia Teixeira
Marco Aurélio, de Arnaldo do Espírito Santo
Editorial Inquérito, 1996, 60 pp.
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Numa pequena biografia editada pela Inquérito, Arnaldo do Espírito Santo, Professor da Faculdade de Letras de Lisboa, conta-nos a vida do grande imperador romano Marco Aurélio (121-180 d.C.), celebrado no filme "Gladiador", de Ridley Scott. Como sempre acontece com as grandes produções hollywoodescas, também esta renovou o interesse do grande público pela Roma antiga. O fenómeno "Gladiador" inspirou já duas exposições em Londres, uma no museu da cidade e outra no Museu Britânico, acabada de estrear. Espero que o fenómeno "Gladiador" também tenha despertado o interesse do grande público português pela Roma antiga e que isso o leve a ler esta excelente biografia de Marco Aurélio.

O autor inicia esta biografia com uma lenda deliciosa acerca de Platão, a qual revela a incompatibilidade entre a função de governante e a de filósofo. Conta-se que Platão foi ao encontro de um príncipe, desejando pôr em prática as suas teorias políticas. Com esse fim em vista, dirigiu-se ao palácio de Dionísio, rei de Siracusa. Platão acabou por ser preso e vendido como escravo. “A moral da anedota é que a filosofia e o poder não se ajustam, ou que os imperadores não podem ser filósofos, nem os filósofos imperadores, porque há uma certa incompatibilidade entre o que é justo e racional e aquilo que é exigido pelo exercício do poder.” Marco Aurélio foi o primeiro homem da história do ocidente a quebrar esta lenda, reunindo em si as qualidades de filósofo e imperador; imperador romano de 161 a 180 d.C., foi talvez o único homem a quem o poder não corrompeu.

O livro divide-se em oito curtos capítulos, abrangendo a vida de Marco Aurélio da sua infância à sua morte, passando por um pequeno prelúdio, seguidos de alguns textos antigos sobre Marco Aurélio e, claro, das referências às fontes consultadas. Baptizado como Marcus Anius Catilius Seuerus, Marco Aurélio revelou desde cedo um carácter franco e recto o que levou o imperador Adriano a chamar-lhe Anius Verissimus. Marco Aurélio é considerado o último grande estóico da antiguidade. A sua obra filosófica é constituída pelas Meditações, onde nos relata de modo não sistemático as suas ideias sobre a vida e a morte, a moral, o mundo, o cosmos, e tudo mais. As Meditações devem ser entendidas como meras meditações de um homem, onde podemos encontrar os seus desabafos e sentimentos acerca do mundo e nos é exposta a sua intimidade.

Privilegiado com uma educação nobre, cedo se apercebeu da sua importância, reconhecendo e agradecendo o papel que os seus professores e mestres tiveram na consolidação do seu carácter. A eles agradece tudo aquilo que é; com eles aprendeu a distinguir o bem do mal, a resistir ao mal e a desejar o bem, aprendeu o que é a justiça, a ter uma vida digna e virtuosa. “Com tais mestres e tais influências, ou por simples tendência natural, Marco Aurélio foi, desde a meninice, uma criança concentrada, grave, talvez um pouco sisudo, ou, pelo menos, com um olhar cintilante de interrogação sobre as coisas. [...] Aos doze anos assumiu os hábitos e comportamento característico dos filósofos. Levava tudo muito a sério. Dormia no chão. Só por imposição da mãe aceitava deitar-se num leito com umas peles por enxerga. O importante era renunciar a todo o prazer. Viver uma vida simples, sem luxos nem comodidades, numa espécie de ascetismo do corpo para mais facilmente se concentrar na meditação e na vida do espírito.” O carácter estóico é algo que o acompanha ao longo da vida, nunca se deixando perverter pelo poder. Deixou a vida com a mesma dignidade com que a viveu. O nome “Marco Aurélio” foi-lhe dado quando passou a fazer parte da família Aurélia ao ser adoptado por Antonino Pio. O poder foi algo que nunca o fascinou, encontrando neste uma fonte de perversão, o que fez que aos 17 anos saísse contrariado de casa de sua mãe para ir viver para o palácio imperial.

Foi coroado imperador em 161 d.C., após a morte de Antonino Pio. Decidiu partilhar o poder com Lúcio Vero, também ele filho adoptivo de Antonino, nomeando-o co-imperador. Este sistema de governação partilhada dura até à morte de Lúcio Vero em 169 d.C. Enquanto imperador, sempre colocou os interesses do povo à frente dos seus próprios interesses, sacrificando-se por diversas vezes, como quando teve que interromper o doloroso luto por um dos seus filhos para cumprir os seus deveres. Preocupando-se com as necessidades do seu povo, reduziu os gastos supérfluos para poder investir mais naquilo que achava essencial, como a alimentação e a educação, o que o levou, entre outras coisas, a acabar com os combates de gladiadores. “A sua atitude como governante foi a de quem tinha consciência de que governava para uma comunidade de homens, que por definição são seres livres, companheiros da mesma caminhada. Isso di-lo ele e repete-o nas suas meditações. Muito moderado, acreditava que um homem mau se pode tornar bom e que um bom óptimo. Mas era de intransigência total em caso de corrupção e de delapidação dos dinheiros públicos.” Apesar de alguns anos de difícil governação, Marco Aurélio foi sempre respeitado pelo seu povo. Erigiram-se muitas estátuas em sua honra e foram-lhe concedidos muitos títulos. Marco Aurélio ficou na história como um grande imperador que tentou governar segundo os ditames da razão e da justiça, com excelência e dignidade. Um exemplo a seguir. O seu único defeito foi ter deixado o seu filho Cómodo, homem sem escrúpulos nem carácter, como seu sucessor.

Célia Teixeira
Texto publicado na revista "Livros".
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