Operação Mar Verde
19 de Abril 2006 ⋅ Livros

Uma história secreta

Fernando M. Caria
Operação Mar Verde: Um Documento para a História, de António Luís Marinho
Lisboa: Temas & Debates, 2006, 301 pp.
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Este livro contribui significativamente para o processo de encerramento da história colonial portuguesa e do seu corolário, consubstanciado nas guerras de independência, na opinião de uns, ou nas guerras contra-subversivas, na opinião de outros. Seja qual for a perspectiva, a verdade é que em Abril de 1974 não só terminou um regime político, como se criaram pelo menos mais quatro novos países em resultado directo do abandono da potência colonial — Portugal. Também, mais ou menos nessa data, se pôs fim à guerra em que Portugal estava envolvido desde há treze anos nas suas colónias africanas.

Operação Mar Verde, foca especificamente o teatro de operações da Guiné-Bissau e em particular um dos seus mais marcantes episódios: a invasão da República da Guiné-Conacri, país vizinho da Guiné-Bissau, que se havia recentemente tornado independente da França. É neste ponto que a importância maior deste livro se revela. Por um lado, o facto de um país pequeno como o nosso ter tido capacidade de protagonizar o acto de guerra mais perigoso para qualquer força beligerante — a invasão de outro país soberano. Por outro lado o facto de até à data, nenhum órgão oficial do estado Português ter admitido a existência deste acto de guerra, ou terem sido libertados quaisquer documentos oficiais que o comprovem ou desmintam.

Este assunto não é novidade para aqueles que, mais irrequietos e perguntadores, investigam e se interessam por este tipo de assuntos. Mas o livro de António Luís Marinho, traz várias novidades. Em primeiro lugar, o estilo jornalístico em que foi escrito (o que não admira, pois o jornalismo é a profissão do autor) permite a narração dos factos de uma forma interessante e até desapaixonada, o que é importante quando o tema é a guerra, com intervenção directa de alguns dos seus verdadeiros protagonistas ainda sobreviventes. Em segundo lugar, o autor conseguiu ir além do método jornalístico — confrontação de fontes diversas para a construção da história — apresentando um conjunto impressionante de documentos relativos à operação militar (115 páginas). Estes não têm origem na torre do Tombo nem no estado-maior das Forças Armadas; vêm do espólio particular de quem planeou e dirigiu a operação, o comandante Alpoim Calvão. Em terceiro lugar, conta ainda uma história inédita associada à operação de invasão da Republica da Guiné-Conacri: a libertação de quinze prisioneiros portugueses, que o governo de Portugal da época nunca tinha admitido existirem e que foram simplesmente engrossar a lista dos mortos e desaparecidos em combate.

Assim, este livro consegue dar a conhecer um capítulo da nossa história mais recente, e que parece quer esconder-se, como se os treze anos de guerra em África não passassem de páginas de calendário que se arrancam quando chega o fim do mês ou que os mortos (número incomensurável do lado africano) morreram apenas de mal-estar. O autor prova com base no método jornalístico e documental a existência e realização desta operação militar portuguesa contra outro país soberano — e que nessas guerras de África também existiram prisioneiros portugueses, que outros portugueses heróis souberam resgatar, sem que o governo alguma vez o tivesse admitido.

Fernando M. Caria
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