O Fardo do Amor, de Ian McEwan
20 de Abril de 2005 ⋅ Livros

Precisão cirúrgica

Desidério Murcho
O Fardo do Amor, de Ian McEwan
Tradução de Maria do Carmo Figueira
Lisboa: Gradiva, 2005, 280 pp.
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Surpreendente! Fiquei preso à leitura deste romance desde a primeira página. Quando a Gradiva publicou O Jardim de Cimento, há cerca de quinze anos, a sua leitura impressionou-me, mas achei um romance demasiado violento e um pouco aborrecido. Digo isto para que se perceba o meu cepticismo inicial quanto a este romance de McEwan.

Quero estimular o leitor a deitar-se a este romance, mas há certas coisas que tenho de evitar dizer para não lhe destruir o efeito de surpresa. Bom... Tudo começa quando o protagonista está no campo, nos arredores de Oxford, a fazer um piquenique com a sua namorada. Os tripulantes de um balão (um adulto e uma criança), estão em dificuldades para conseguir fazê-lo descer, devido aos fortes ventos que se fazem sentir. É a partir daqui que tudo se precipita, arrastando o protagonista para situações cada vez mais dramáticas, até ao desfecho final. Lamento estar a ser tão vago, mas é a única maneira de não lhe estragar a primeira leitura!

Não quero adiantar muito mais sobre a história, para lhe dar o prazer da descoberta. Para quem não conhece a história, o livro lê-se com a mesma sensação de suspense com que se vê um bom filme de Hitchcock. É isso que torna a sua leitura compulsiva. Nunca sabemos muito bem quem é realmente o responsável pelas desventuras que se vão sucedendo, nunca sabemos bem em quem confiar. Isto acontece em dois níveis: ao nível dos trágicos acontecimentos que rodeiam a vida do protagonista — que foram despoletados pelo acidente do balão, mas que não se relacionam com ele directamente — e ao nível da outra história, directamente relacionada com o acidente do balão. O autor vai tecendo uma teia narrativa que nos fascina, cujo desenlace imprevisível é de cortar a respiração.

Do ponto de vista formal, destaca-se a precisão cirúrgica da narrativa de McEwan. Desde as primeiras páginas que isso é evidente, aquando da descrição do acidente do balão. É incrível a precisão na descrição dos gestos, olhares, perspectivas, acontecimentos, simultaneidades, descontinuidades... uma experiência inesquecível de leitura, um domínio absoluto no tratamento do tempo. Admirável.

O narrador é o protagonista, um cientista que já não investiga, mas que tem uma carreira de sucesso como divulgador de ciência — escreve livros e artigos de divulgação. A namorada é uma especialista em Keats, professora universitária de literatura. Tudo se passa entre Londres e Oxford. O romance entre Joe, o protagonista, e Clarissa, é comovente pela honestidade e simplicidade. Na página 38, surge uma reflexão de Joe acerca do telescópio Hubble e da ciência em geral que parece deslocada e fazer perigar a economia da obra: não percebemos que está aquilo ali a fazer, apesar de ficarmos fascinados com a justeza dos seus comentários. Só com a continuação da leitura começamos a perceber o papel crucial que aquela passagem — e outras que entretanto vão surgindo — desempenham na obra.

Aconselho o leitor a fazer como eu: comece a ler e não espreite o final. Se fizer é isso, será compensado, ao chegar ao fim, com uma nova perspectiva sobre tudo o que leu. A leitura deste romance deixa marcas indeléveis. Nunca mais nos esquecemos dele. A tradução de Maria do Carmo Figueira lê-se com prazer.

Desidério Murcho
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