Memórias, de Voltaire
História da filosofia

A multidão de sabichões

André Barata
Memórias, de Voltaire
Tradução de Telma Costa
Teorema, 2000, 170 pp.

Após duas detenções na Bastilha, que o obrigaram a um exílio de três anos em Inglaterra, Voltaire regressa a Paris, onde conhece Mme de Châtelet, "a mulher de França com mais disposições para todas as ciências". Isto em 1733, o primeiro ano de um longo período (que vai até 1760) da vida de Voltaire que, assim, é dada a conhecer nestas "Memórias", em boa hora divulgadas por Beaumarchais.

A estadia forçada em Londres degradara Paris aos olhos de Voltaire. Ficara a desolação: "Estava cansado de Paris, da multidão de sabichões; dos maus livros impressos com aprovação e privilégio do Rei; das cabalas dos homens de letras, das baixezas e do banditismo dos miseráveis que desonravam a literatura". Partiu, então, com a delicada Émilie Châtelet para a Lorena, instalando-se ambos no castelo de Cirey e aí permanecendo durante quinze anos.

Esses foram anos de felicidade, descritos com enorme bonomia, anos de intensa produção literária e científica. A influência inglesa, muito em particular de Newton e da sua física, que já se traduzira nas "Cartas Filosóficas" e no "Tratado de Metafísica" (ambos de 1734), mas também de Locke e de Pope, animou este idílio a dois — "neste delicioso retiro procurávamos apenas instruir-nos, sem nos informarmos do que se passava no resto do mundo." Chegam a montar um laboratório de física e a marquesa de Châtelet traduz os "Principia Mathematica" de Newton. Entre 1739 e 1742, o retiro dá lugar a um conjunto de deslocações que culminam no encontro com Frederico II, o rei da Prússia, ou ainda, o Rei Filósofo. Este deseja que Voltaire se fixe em Berlim, mas não conseguirá convencê-lo contra a vontade da marquesa. "Não deixei de sentir apego por ele", dirá Voltaire, "pois tinha espírito e dotes."

Com a morte da marquesa, Voltaire vai enfim para a corte de Frederico II. A partir daqui, boa parte das "Memórias" contam as peripécias, os incidentes e as polémicas em que Voltaire se envolveu, ou se viu envolvido, sempre, de uma forma ou de outra, na presença da figura paradoxal do rei da Prússia, poeta, músico e filósofo, mas também homem de muitos defeitos. O estilo é marcado pela sátira, o dito de espírito, por vezes cáustico, com que põe a nu as contradições de Frederico II e do despotismo esclarecido. Se os "philosophes" conseguiam cultivar as ideias do progresso, da tolerância e do espírito científico nos monarcas de então, isso não significava que dispusessem de algum tipo de segurança. Podiam ser protegidos, mas podiam igualmente cair em desgraça. E para isso não era preciso muito mais do que uma história de cordel, ou uma qualquer outra história banal de intriga e ciúme. Os riscos eram efectivos e Voltaire, receando pela sua liberdade, debandou em direcção a Genebra, sendo pelo caminho ainda detido.

Apesar desta contingência permanente, foi possível a Voltaire fazer fortuna e ganhar poder, o poder suficiente para intervir nos destinos da Europa, influenciando ora Frederico II ora Luís XV, ao ponto de, em plena Guerra dos Sete Anos, ser ele próprio a intermediar a caricata disputa que ficou nos anais da História como a Guerra das Odes, em que os dois monarcas enviavam e devolviam um ao outro impropérios em verso.

Em suma, um livro em que Voltaire percorre não só a história de uma vida, mas a vida de uma História.

André Barata
anndrebarata@yahoo.com

Público, 29/01/2000
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