Uma Mente Brilhante, de Sylvia Nasar

Racionalidade e loucura

Célia Teixeira
Uma Mente Brilhante, de Sylvia Nasar
Relógio d'Água, 2002, 672 pp.

Sylvia Nasar apresenta-nos nesta biografia um retrato espantoso de um homem genial, o matemático John Forbes Nash, que viveu em dois mundos opostos: o da racionalidade e o da loucura. Nash foi laureado com o prémio Nobel da economia em 1994 pelo seu contributo para o desenvolvimento da teoria dos jogos. As suas ideias foram desenvolvidas entre 1940-50 durante a sua estadia em Princeton enquanto estudante de doutoramento. Foi na tese de 26 páginas, terminada com 21 anos, que apresentou as ideias revolucionárias de teoria dos jogos, que foram posteriormente aplicadas em economia, política e biologia e que lhe mereceram o Nobel. Mas a vida de Nash esteve longe de ser uma vida de sucesso, ao contrário do que a sua genialidade e os seus feitos enquanto muito jovem faziam prever. Com apenas 31 anos sucumbiu à esquizofrenia, afastando-se do mundo académico e do mundo da racionalidade durante 30 dramáticos anos em que a sua vida profissional e pessoal se desmoronou quase por completo.

Uma Mente Brilhante tem sido extremamente bem recebido pela crítica; foi premiada com o National Book Critics Circle Award e foi finalista do prestigiado prémio Pulitzer. Contudo, também tem recebido duras críticas por parte de alguns especialistas em teoria dos jogos, que acusam Nasar de alguns erros e incompreensões nas explicações que dá da teoria dos jogos. E de facto assim é: se for leigo na matéria a leitura deste livro não irá alterar o facto. Mas continua a ser uma leitura fascinante com contrapartidas valiosas. O retrato da vida académica durante o florescimento cultural dos EUA é maravilhoso. E John Nash é uma figura tão intrigante que vale a pena conhecê-lo.

É provável que já esteja relativamente familiarizado com a vida de John Nash através do famoso filme a que o livro deu origem. Mas devo dizer-lhe desde já que o filme, o que não é de espantar, está muito longe de captar a complexa vida e personalidade do matemático. Uma das coisas fascinantes acerca da personalidade de Nash é o facto de ter sido uma pessoa absolutamente egocêntrica, cujo o objectivo último consistia em resolver teoremas ou descobrir teorias que lhe conferisse grandeza e admiração pelos seus pares. Os seus esforços sempre foram canalizados para esse fim: apenas se lançava a um trabalho de extrema dificuldade e que fosse visto como tal pelos seus pares. Mas o seu alheamento era tal que por vezes empreendeu esforços e colheu resultados, sem dúvida extraordinários, mas que já haviam sido alcançados. A facilidade com que mudava de ramo e se lançava aos mais diversos desafios, desde problemas da matemática pura ou aplicada a problemas da física, era de facto admirável. Na sua vida pessoal, era igualmente uma pessoa quase que abominável: vivia a sua vida sem respeitar os sentimentos alheios, com relações afectivas complicadas tanto com mulheres como com homens. Mas, apesar de tudo isto, não deixamos de sentir um certo carinho e admiração por ele. E isso não advém da sua genialidade, mas do facto de ser tão completamente socialmente inepto e carente que acabamos por conseguir justificar alguns das suas acções aparentemente injustificáveis.

John Nash teve no entanto a sorte de poder desfrutar dos anos mais efervescentes de Princeton, trabalhando ao lado de matemáticos e cientistas cuja a genialidade e importância é sobejamente conhecida — como Albert Einstein e John von Neumann, entre muitos outros. É sabido que o início do arranque cultural nos EUA coincidiu com a Segunda Guerra Mundial. Mas o que despoletou esse arranque já não é tão conhecido. Princeton, tal como as restantes universidades americanas, era medíocre e provinciana, sem qualquer perspectiva de desenvolvimento, geridas por pessoas sem visão nem talento. Por exemplo, o astrónomo Henry Norris Russell foi severamente repreendido pela administração de Princeton por perder demasiado tempo na sua investigação diminuindo o tempo de aulas. Em Yale, o físico William Gibbs, cujo trabalho era já respeitado na Europa, viu o pagamento do salário ser recusado durante 7 anos por “perder” demasiado tempo em investigação “sem qualquer interesse”. E as coisas eram assim por toda a parte. A revolução repentina deu-se por mero acaso quando o administrador de Princeton, Woodrow Wilson, para quem a matemática era algo detestável que só servia para afastar alunos, por amizade a Henry Burchard Fine cedeu à contratação de alguns matemáticos. Por sorte Wilson foi trabalhar para a casa branca deixando o lugar a Fine, que desencadeou a revolução cultural em Princeton em 1912, contratando as grandes figuras mundiais para ensinar matemática e física aos estudantes pós-graduados. E obviamente o ensino melhorou radicalmente e não houve um único estudante que achasse as aulas incompreensíveis mas brilhantes. Se a história da revolução cultural dos EUA prova alguma coisa, é que o que faz falta, e o que fez efectivamente a diferença, foi a competência científica. Esta é uma das lições mais importantes que podemos retirar da leitura deste livro, e que Portugal devia aprender antes que seja tarde demais.

Célia Teixeira
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte