No Great Mischief, de Alistair MacLeod
Livros

Um grito contra a indiferença

Maria de Fátima St. Aubyn
No Great Mischief, de Alistair MacLeod
Vintage, 2001, 272 pp.
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É sem dúvida a máxima da fabulosa personagem matriarcal, a Avó — “Olha sempre pelo teu próprio sangue” — que fornece o fio condutor a esta narrativa. Com efeito, trata-se de um relato aparentemente factual da história do clã Calum Ruadh, desde o tetravô emigrante que lhe deu nome até aos descendentes actuais. Esta é uma história de emigração, e, por conseguinte, de fatalidade, perseverança e dualismos. A Escócia, terra natal do clã, é omnipresente, apesar de a narrativa se desenrolar no Canadá: a importância das origens revela-se tanto no que diz respeito à terra como no que diz respeito à família — a Escócia tem para com os familiares actuais uma espécie de parentesco afastado, tal como os ascendentes mais remotos (não conhecidos, mas insistentemente referidos pelos vivos). A História do povo escocês que partiu da sua terra natal confunde-se com a história pessoal desta família específica: os ensinamentos e ressentimentos que a História fornece são apropriados e processados na vida quotidiana dos Calum Ruadh.

Sendo os emigrantes escoceses, há também muita música, funcionando esta como elo de união entre as várias gerações. Na verdade, poder-se-ia afirmar que toda a narrativa é uma extensa balada trágica de herói colectivo, sendo o seu refrão constituído pelas máximas e provérbios que surgem recorrentemente ao longo do texto (“Olha sempre pelo teu próprio sangue” é um destes casos, mas existem muitos outros). Não será por acaso que é referida a balada de Wordsworth intitulada “Lucy Gray” — também ela uma história de fatalidade. Poeticamente, ainda no domínio do Romantismo, há referências explícitas a Keats; no de um certo Simbolismo, a T. S. Eliot; e, num registo mais realista, ao norte-americano Robert Frost. O “balanço” do texto faz-se precisamente entre estas perspectivas: a alma sonhadora celta e gaélica (com a sua poesia, ironia, humor e mitos próprios) e o realismo necessário às descrições das condições de vida e trabalho daqueles que emigram. Alternando entre passado e presente, a narrativa institui-se como documento vital, impondo-se como inevitabilidade, insinuando-se enquanto perpetuação das origens e conferindo ao narrador uma função quase meramente instrumental (“Eu não escolho nem provoco a recordação dos factos”, diz este na pág. 24), semelhante à que este teve na decisão do seu estatuto de emigrante. E, embora parte dos factos seja, reconhecidamente, “fantasia” — histórias de família que não é possível confirmar —, ambos os fluxos (o documental e o fantasioso) brotam espontaneamente, aparentemente sem intervenção exterior. “A linguagem do coração e a linguagem do espírito” (pág. 193), o gaélico e o inglês, surgem a par, e isto pode ser visto como uma questão de profundidade e superfície, como se a vida destas “pessoas” fosse semelhante à mina em que trabalham: “[o gaélico] limitou-se a jorrar do meu interior, como se se tratasse de um rio subterrâneo que corresse nas minhas profundezas e, subitamente, irrompesse” (p. 163), diz a irmã gémea do narrador.

A cisão externa e interna que a emigração sempre provoca [nas palavras de um irlandês, “Na Irlanda, tenho um lar mas não tenho dinheiro. Aqui, tenho montes de dinheiro mas não tenho lar” (p. 147)] é uma constante ao longo do livro — o Canadá, terra de acolhimento, é igualmente a terra das grandes tragédias (entre elas, e não menor, a morte dos pais do narrador quando este tinha apenas três anos) e da desagregação do clã. Trata-se, afinal, de um grito contra a indiferença — “Ele parece estar a derramar o seu coração, e ninguém se apercebe” (p. 214) e “Eles não percorreram todo este caminho [para agora] se esquecerem” (p. 215) e da afirmação melancólica da importância e da força de um grupo coeso [a bela imagem da árvore cortada que é mantida de pé pelos ramos das árvores circundantes, entrelaçados nos dela (p. 239) e a fotografia colectiva onde não é possível individualizar as figuras dos pais do narrador, pois a imagem torna-se indistinta quando ampliada — as pessoas só fazem sentido num grupo (pp. 240-1)].

Segundo a badana da edição canadiana, o livro de MacLeod levou dez anos a escrever — talvez se adivinhe porquê: o assunto, o vocabulário cuidado, as referências históricas e familiares, o eco de factos, provérbios e expressões, a fina ironia e, em termos gerais, a grande qualidade da escrita, fazem deste um livro excelente, tocante e actual. Com um final fortíssimo, esta obra destinar-se-á a um público que aprecie a leitura de qualidade, procurando num livro uma boa história, plena de humor mas também de questões que façam pensar, distanciando-se claramente da “literatura ligeira” que actualmente prolifera.

Maria de Fátima St. Aubyn
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