O Arquivo Mitrokhine
13 de Março 2006 ⋅ Livros

Nem sombra de James Bond

Fernando M. Caria
O Arquivo Mitrokhine: O KGB na Europa e no Ocidente, de Christopher Andrew e Vasili Mitrokhine
Tradução de Freitas e Silva
Prefácio de José Pacheco Pereira
Lisboa: Publicações D. Quixote, 2001, 971 pp.

Com primeira edição portuguesa em Janeiro de 2001, parece que só agora este livro despertou alguma atenção do público. Não será de admirar, quer pela sua dimensão (971 páginas), quer pelo grau de crueza do que revela sobre a provável realidade dos serviços secretos e de informações dos governos. Desenganem-se os apaixonados do 007, as actividades de informações não dispõem nem do "glamour" nem da honra que ostenta o "James Bond" da ficção.

A realidade que nos é dada por este livro é muito mais comezinha, crua e malévola. Nele ficamos a saber, por exemplo, que o KGB dedicava muito mais esforços e recursos para perseguir os possíveis dissidentes do regime soviético, do que para espiar o ocidente. Que a crise dos mísseis de Cuba, foi uma reacção de medo de Khrushchev, que se tinha firmemente convencido de que os EUA se preparavam para lançar um ataque nuclear sobre a URSS, no que seria os primórdios das guerras preemptivas.

Também ficamos a saber que afinal os Rosenberg eram mesmo espiões atómicos que passaram os segredos de "Little Boy" e "Fat Boy" para a ex-URSS. Além de que a voz corrente de que a URSS copiava a tecnologia ocidental era bem verdade, afinal, tendo servido para alimentar a "détente" da guerra-fria.

Relativamente a Portugal, ficamos também a saber que o PCP realmente entregou, logo a seguir ao 25 de Abril, à recém aberta embaixada soviética em Lisboa, cerca de 500 kg de documentos retirados da sede da PIDE-DGS. Documentos esses suficientemente importantes para que na sede do KGB em Moscovo, fosse aberto um departamento específico para os tratar e analisar.

Mas será tudo assim mesmo? Provavelmente nunca o saberemos.

Quem é este Mitrokhine e o seu arquivo? Vasili Mitrokhine é um antigo funcionário de gabinete do próprio KGB que, ao longo da sua vida profissional, alegadamente copiou manualmente arquivos e documentos a que teve acesso no seu trabalho burocrático. Em 1992 entrou na embaixada da Grã-bretanha em Moscovo pedindo para falar com alguém importante. O corolário foi a sua retirada de Moscovo pelos Serviços Secretos ingleses com bilhete pago pelos referidos arquivos. Até à publicação do livro em Inglaterra em 2000, decorreram oito anos de trabalho com o professor de História Moderna e Contemporânea de Cambridge, Christoher Andrew, que é também presidente do British Intelligence Study Group.

Como o próprio José Pacheco Pereira ressalva no seu brilhante prefácio, a totalidade do arquivo poderá não ter sido publicado, ou poderá ter sido alterado. Quer por razões de importância estratégica ainda actuais, quer por interesse em desinformar com documentos verídicos, tudo pode acontecer. Não esqueçamos que a elite académica inglesa desde sempre esteve ligada (para o mal e para o bem) à comunidade dos serviços secretos. Não será por isso de estranhar que tenham, também neste caso, interferido. Mas apesar destas dúvidas e da impossibilidade de verificação de fontes e documentos, prevalece a importância pioneira deste trabalho, como janela que deixa entrever uma realidade mesclada de "cinzento" bem como uma nova abordagem ao enquadramento histórico da política e das decisões dos políticos, moldada pela "informação" privilegiada providenciada pelos serviços de informações de todos os governos.

Fernando M. Caria
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