Moondust
30 de Janeiro de 2007 ⋅ Livros

Os lunáticos

Desidério Murcho
Moondust: In Search of the Men Who Fell to Earth, de Andrew Smith
Londres: Bloomsbury, 2006, 384 pp.
Comprar

Doze seres humanos estiveram na Lua, entre 1969 e 1972. Três deles (Irwin, Shepard e Conrad) faleceram entretanto, restam nove. Em breve, todos desaparecerão e poderá demorar décadas até outro ser humano pisar a Lua. Como foi viver na Lua durante alguns dias? Que tipo de experiência estes doze homens tiveram, quais apóstolos da humanidade num primeiro passo em direcção ao espaço? Estas são algumas das perguntas a que o autor do presente livro procura responder. E quase falha completamente, vítima da vontade de encher folhas e folhas com observações repetitivas e um estilo impressionista bom para cartazes de Coca-Cola. Das suas 384 páginas, bastaria, na realidade, umas 150, se o autor fosse suficientemente honesto para não se dedicar à indústria de enchidos que parece exigir hoje em dia que qualquer paperback de sucesso tenha no mínimo 300 páginas.

Ao longo de nove capítulos, o autor vai entrevistando os nove astronautas que foram à Lua, procurando lançar alguma luz sobre essa experiência única e sobre o seu significado. Contudo, não há da sua parte uma organização criteriosa do material; limita-se a ir narrando as ideias que lhe vêm à cabeça, assim como as suas deambulações e memórias de quando era criança e assistiu aos primeiros passos de Neil Armstrong na Lua. No meio de todo o lixo que nos atira para cima, conseguimos extrair alguma informação interessante. Mas é pena que uma ideia original, que poderia ter dado origem a um livro iluminante, tenha dado origem a um disparate.

Como é evidente, os homens que estiveram na Lua reagiram de formas muito diversificadas àquela experiência única. Neil Armstrong é o mais misterioso dos homens, pois nunca dá entrevistas e protege ferozmente a sua privacidade. Neste livro, ele é apenas uma presença fantasmagórica — o autor consegue falar com ele algumas vezes, e trocar correspondência, mas nunca consegue efectivamente uma entrevista na qual Armstrong revele quaisquer pontos de vista sobre a sua experiência. Numa das raras ocasiões em que Armstrong acedeu a aparecer em público foi precisamente em Portugal, em Vilamoura, no Terceiro Encontro de Viagens e Turismo Globais. Contudo, os jornalistas foram obrigados a assinar um documento, conhecido como "Armstrong Clause", que os proíbe de reproduzir seja o que for que Armstrong diga na sua comunicação — além de não poderem fazer-lhe perguntas. Smith interroga-se sobre a necessidade de tal cláusula, dado que Armstrong, como é típico nele, nada disse que não fosse puramente factual e absolutamente desinteressante.

O enquadramento histórico da missão Apollo poderia ter sido desenvolvido de forma sóbria e informativa. Ao invés, o autor atira para cima do leitor alguns dados e observações avulsas que pouco ajudam a compreender as coisas, e não trazem qualquer insight novo. Produto de um presidente americano populista, John F. Kennedy, ir à Lua e voltar foi em parte um golpe de publicidade política numa altura em que o presidente precisava dela. Mas se fosse apenas isso teria falhado. A guerra-fria, e a ideia de competir com os russos comunistas, que na altura faziam as vezes dos muçulmanos de hoje — ou seja, eram o Estranho, desumanizado e incompreensível, que só resta humilhar e depois aniquilar completamente — foi fundamental para que o projecto de ir à Lua tivesse o apoio do Congresso. Mas mesmo com o apoio do Congresso, sem um terceiro elemento teria sido impossível ir à Lua: o apoio popular. O sonho de conquistar novas fronteiras e de explorar os limites da tecnologia e da capacidade de invenção humana fazia parte das mentalidades daquela altura. E mal esta mentalidade mudou, o apoio do Congresso cortou os fundos e os políticos abandonaram as veleidades espaciais. Desde então, a NASA tem tentado sobreviver aos erros que foi obrigada a cometer por motivos políticos.

O mais importante desses erros foi o abandono dos testes com aviões supersónicos que, a pouco e pouco, mas seguramente, teriam dado origem ao desenvolvimento de uma nave no verdadeiro sentido da palavra, capaz de descolar e aterrar como um avião, mas capaz igualmente de vencer a gravidade e sair para o espaço. Duas razões fizeram a NASA apostar fortemente nos foguetões e abandonar os aviões: pressa e von Braun. A pressa era determinada por dois acontecimentos: o lançamento com sucesso do Sputnik soviético, o humilde e inofensivo satélite que pôs os americanos a fazer chichi na cama com medo de estarem a ser espiados, a partir do espaço, pelos perigosos comunistas; e o irresponsável e famoso discurso de Kennedy, que declarava o final da década de 60 como meta para ir à Lua e voltar. Com esta pressa toda, os EUA tiveram de se voltar para o nazi von Braun, que sempre tinha sonhado com foguetões e defendia este tipo de tecnologia como a melhor para fazer tudo — desde bombas para destruir a Inglaterra até naves para ir dar uma volta a Marte e voltar. Assim, depois de ter trabalhado para Hitler, von Braun ficou a trabalhar para os EUA.

Contudo, para lá de toda a hubris e de todas as tolices políticas do costume, ir à Lua e voltar, numa missão tripulada, transmitida em directo pela televisão, constituiu também um acontecimento humanamente marcante: pela primeira vez, os seres humanos punham os pés noutro corpo celeste, concretizando uma aventura que parecia saída dos filmes e livros de ficção científica. Os seus mais notórios protagonistas, os próprios astronautas, sofreram uma enorme pressão pública, eram mal pagos, eram muito jovens e tinham de encarnar o mito do americano feliz — com a sua mulher, filhos, casa e carro, tudo com as cores da moda, ao mesmo tempo que mal tinham tempo para ver os filhos crescer. E, subitamente, tudo acabou para eles. Que fizeram depois? Que se pode fazer depois de uma experiência dessas? Como integraram eles as suas memórias e experiências dos dias que viveram na Lua?

Em muitos casos, o sonho americano da família feliz caiu por terra; seguiram-se os divórcios e as depressões, o alcoolismo e o desespero. Um dos astronautas tornou-se pintor — pinta incessantemente paisagens lunares. Outro fundou uma espécie de religião — era inevitável, nos EUA — porque ouviu a voz de Deus quando estava na Lua a tentar coçar as costas. Alguns continuam activos como homens do espaço, procurando apoio para um regresso à Lua e para viajar até Marte. À excepção do misterioso Armstrong, todos falam da experiência superlativa que viveram na Lua. Contudo, parece que tal experiência superlativa é uma ilusão que resulta de todas as fantasias e anseios que a cultura popular associou à conquista do espaço. Caminhar na Lua, sem todo o envolvimento da cultura popular, deve ser um anti-clímax pelo simples motivo de que nada há de verdadeiramente interessante na Lua — a não ser as nossas projecções, fantasmas e esperanças. Os homens que pisaram o solo lunar foram os seguintes: Neil Armstrong e Buzz Aldrin (Apollo 11), Pete Conrad e Alan Bean (Apollo 12), Alan Shepard e Edgar Mitchel (Apollo 14), David Scott e James Irving (Apollo 15), John Young e Charles Duke (Apollo 16), Gene Cernan e Jack Schmitt (Apollo 17). Para os conhecer um pouco melhor, leia este livro — ou procure outro melhor.

Desidério Murcho
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte