Thomas More
29 de Outubro de 2004 ⋅ Livros

O mártir da utopia

Pedro Galvão
Thomas More, de Peter Ackroyd
Tradução de Mário Correia
Lisboa: Bertrand, 2003, 302 pp.

Peter Ackroyd tem uma obsessão absolutamente indisfarçável: Londres. É nesta cidade que se movem as personagens dos seus romances; foi nela que viveram os protagonistas das suas biografias. Um dos seus livros mais recentes, aliás, é simplesmente uma biografia de Londres. Houve quem tivesse ficado decepcionado, talvez com razão, ao saber que os rumores que apontavam Ackroyd como candidato a "mayor" da cidade não tinham o menor fundamento. A paixão por Londres levou Ackroyd a escrever biografias de T. S. Eliot, Dickens e Blake. Era quase inevitável que também Thomas More, o mártir londrino executado sob as ordens de Henrique VIII, acabasse por receber uma atenção similar.

Na biografia de More, publicada agora entre nós pela Bertrand numa tradução de qualidade, podemos discernir claramente uma ambição explícita e persistente de Ackroyd: diluir as fronteiras entre a ficção e a biografia. Felizmente, pelo menos neste livro nada sugere que esta diluição se obtém pelo sacrifício do rigor histórico, pela invenção ou coloração dos factos. Além de não esconder as incertezas relativas a alguns aspectos da vida de More, Ackroyd adopta um estilo invariavelmente sóbrio que não propicia a efabulação. Nota-se que todo o livro assenta numa investigação ampla e minuciosa, mas a vida de More é-nos apresentada sob uma forma mais próxima do romance histórico que do ensaio. Em alguns momentos, podemos mesmo acompanhar breves diálogos. As fontes são indicadas apenas em discretas notas de rodapé, o que beneficia significativamente a fluência da leitura.

More foi um homem de dois mundos em mais do que um sentido da expressão. Venerava a ordem social da Europa da idade média, assente na autoridade incontestada da Igreja, mas repudiou o escolasticismo e abraçou sem reservas o novo saber humanista. Era profundamente religioso e vivia absorvido em questões espirituais, mas o seu fortíssimo sentido prático levou-o a envolver-se nas questões mundanas e a conhecer sucessos impressionantes nesse registo. Flagelava a carne com uma inseparável camisa de crina e açoitava-se na sua capela privativa com um azorrague de couro, mas estas inclinações ascéticas não lhe anulavam a generosidade, o humor e o gosto pela ironia. Ao longo de trinta e três capítulos, Ackroyd faz reviver com extremo engenho esta personalidade complexa e multifacetada.

Alguns dos capítulos valem sobretudo pela reconstituição meticulosa dos espaços sociais que marcaram as diversas fases da vida de More: entre muitos outros, a Universidade de Oxford, o mosteiro da Cartuxa de Londres e a residência da família More em Chelsea, na qual havia até lugar para um bobo. Ao retratar estes espaços e aqueles que os habitaram, Ackroyd capta os costumes, os rituais e a mentalidade da época de uma forma muito sugestiva, introduzindo na narrativa inúmeros pormenores tão insignificantes quanto reveladores. Veja-se, por exemplo, como descreve o cardeal Wosley: "O cardeal usava as ricas vestes vermelhas da sua condição, com a estola de marta e o chapéu escarlate; levava na mão uma laranja esvaziada da respectiva polpa e recheada com uma esponja ensopada em vinagre temperado com várias ervas, que aproximava do nariz quando se via rodeado pela multidão de obsequiadores e suplicantes."

Ao longo da maior parte do livro, acompanhamos a carreira meteórica de More — uma carreira em que foram poucos os incidentes infelizes. O humanista destacou-se como advogado exímio, ocupou cargos infindáveis e cultivou interesses muito diversificados. Detestava a lógica dos medievais, tendo encontrado na retórica os alicerces para a sua actividade profissional e intelectual. No que diz respeito à produção literária de More, vale a pena destacar o capítulo dedicado à célebre "Utopia". Ackroyd mostra-nos que esta obra não deve ser entendida como a proposta de um modelo de sociedade ideal, mas como um exercício subtilmente satírico.

No último terço do livro a intriga política adensa-se, revelando-nos um More cada vez mais grave e inquieto que se dedica quase exclusivamente a travar a ameaça da Reforma. Persegue os hereges, escreve efusivamente em defesa da Igreja e quando percebe que a sua causa está perdida opta por se retirar da vida política. Ackroyd mostra-nos como More fez tudo o que estava ao seu alcance para não atentar contra a autoridade de Henrique VIII, mas o rei acabou por forçá-lo à condenação fatal da sua política eclesiástica e do seu casamento com Ana Bolena.

Não é fácil encontrar um traço unificador na vida de More, mas Ackroyd apresenta-nos o humanista a uma luz interessante que sobressai nesta passagem: "More era genial precisamente porque tinha uma relação simbólica com a sua época", declara, "corporizava a velha ordem de autoridade e hierarquia no preciso momento em que ela começava a desmoronar-se à sua volta. Morreu em defesa da ordem que começou a aprender na casa do pai."

Pedro Galvão
Originalmente publicado no jornal Público
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte