Mortal Questions
22 de Julho de 2005 ⋅ Filosofia

Filosofia mortal

Desidério Murcho
Mortal Questions, de Thomas Nagel
Cambridge: Cambridge University Press, 1991, 229 pp.
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O cientismo é a aplicação acrítica de métodos científicos ou pseudocientíficos a objectos de estudo inapropriados. Em muitos casos, trata-se de menoridade intelectual: a sensação de que se não se usa fórmulas ou uma algaraviada pseudo-intelectual não se está a fazer trabalho académico sério. Noutros casos, trata-se apenas de desconhecimento: se nunca se estudaram os melhores trabalhos académicos que não padecem de cientismo, fica-se com a sensação de que certos temas são insusceptíveis de um tratamento académico sério, rigoroso e iluminante. Thomas Nagel é um bom antídoto ao cientismo e à ideia errada de que a filosofia analítica padece de cientismo. Este livro em particular é iluminante e praticamente todos os ensaios que o constituem exerceram e continuam a exercer uma forte influência na filosofia contemporânea. Tratando-se de uma colecção de catorze ensaios, doze foram previamente publicados em algumas das melhores revistas académicas da especialidade (Noûs, Journal of Philosophy, Philosophy & Public Affairs, Synthese e Philosophical Review) ou em colectâneas colectivas de ensaios.

Alguns dos ensaios desta colecção são clássicos modernos. É o caso de "Como é Ser um Morcego?", que integra este volume, e no qual Nagel argumenta que qualquer compreensão científica da mente é incompleta porque é incapaz de integrar a perspectiva de primeira pessoa: por mais que se descreva e explique cientificamente o que é uma dor, por exemplo, a "qualidade" da sensação de dor, é algo que só é acessível da perspectiva da primeira pessoa. Outros ensaios adquiriram recentemente uma nova actualidade, depois de um período em que pareciam felizmente datados. É o caso de "Guerra e Massacre" e "Atrocidade na Vida Pública". O primeiro discute os limites morais do que se pode fazer numa guerra ("jus in bello"), contra a noção de que tais limites são meramente convencionais ou baseados em interesse político. O segundo discute a responsabilidade moral dos altos funcionários governamentais quando estes obedecem a, ou dão, ordens imorais (ou até ilegais) — o problema é que tais funcionários têm tendência para escapar ilesos a qualquer tentativa de responsabilização moral ou legal, acabando por ser recompensados com cargos públicos muitíssimo bem pagos, mas longe das luzes da ribalta.

Os ensaios "Morte" e "O Absurdo" estão na origem da discussão moderna sobre o mal da morte e o sentido da vida. No primeiro caso, o autor defende que a morte é um mal, contra a posição clássica de Epicuro. No segundo, o autor defende que a vida carece de sentido, mas não pelas razões habitualmente apresentadas. Os restantes ensaios incluem temas como a arbitrariedade da sorte moral, a perversão sexual, a igualdade, a noção de valor, a redução da ética à biologia e a oposição entre a objectividade e a subjectividade. Em todos os ensaios Nagel revela cuidado e rigor, uma visão ampla e informada, e uma argumentação clara e precisa. Apesar da disparidade de temas, há relações surpreendentes entre eles; mas os ensaios mantêm uma grande autonomia entre si, não sendo por isso necessário lê-los pela ordem apresentada.

Thomas Nagel é um dos mais importantes e discutidos filósofos contemporâneos, e é uma pena que seja tão pouco conhecido entre nós. A tradução desta obra poderia contribuir para combater este estado de coisas e ajudar a clarificar a natureza da filosofia analítica — que tantas vezes injustamente é acusada de cientismo só porque alguns filósofos menos lúcidos sofrem realmente desta doença infantil do intelecto.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (5 de Março de 2005)
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