criticanarede.com · ISSN 1749‑8457
http://criticanarede.com/lds_natfilosofia1.html
ISSN 1749‑8457 · criticanarede.com
Enviar por email Imprimir Adicionar aos feeds
A Natureza da Filosofia e o seu Ensino, de Desidério Murcho

A Natureza da Filosofia e o seu Ensino, de Desidério Murcho
Plátano, 2002, 103 pp.
Comprar · Excerto · Apresentação e índice

Como o título deixa explícito, Desidério Murcho trata de caracterizar a filosofia e de indicar diretrizes para o ensino dessa disciplina. Ao lado de curto prefácio e de uma página com leituras recomendadas, reúne oito ensaios, quase todos resultantes de suas atividades na SPF. Os ensaios mais breves são "Filosofia e Subjectividade" (duas páginas) e "O Problema Didáctico da Definição de Filosofia" (quatro); os mais longos são "O que é Filosofia?" (21); "Definição de «Definição»" (18); e "A Tradição Socrática" (17).

O ensaio inicial, "Filosofia e Desencanto no Ensino Secundário" (11 páginas) encerra contundentes críticas dirigidas contra o sistema escolar de Portugal — críticas aplicáveis a sistemas de muitos outros países. Nota, explicitamente, que a formação universitária deficiente, os professores e estudantes desmotivados e os maus programas estariam entre os fatores que explicariam a baixa produção filosófica de Portugal. Em síntese, as faculdades ensinam a comentar, não ensinam a pensar.

O autor aponta falhas de programas escolares e de sistemas didácticos, assim como condena a repetição enfadonha e inútil de textos clássicos — sem a desejável e imprescindível criação de um espírito crítico. Entende que aos professores de filosofia não cabe dar aos alunos a capacidade de repetir (bem ou mal) "as ideias dos filósofos, mas a capacidade para defender e criticar ideias, a capacidade criativa para reagir a problemas com propostas bem pensadas, o talento para compreender o objectivo de um argumento, as suas premissas e o seu alcance" (p. 79). Assevera que "os licenciados em filosofia pouco mais sabem do que citar e parafrasear textos" (p. 66). Para evitar a transmissão de preconceitos, os comentários vagos, a exegese estéril, defende o modo socrático de "fazer filosofia", insistindo no exercício crítico da razão. Em especial, "o ensino da filosofia não faz sentido se for transformado em propaganda ou em catequese" (p. 22). Mais: "A filosofia não cultiva dogmas (...); faz o contrário: procura destruir dogmas" (p. 57).

Os filósofos "introduzem muitos conceitos com os quais não estamos habituados a lidar no dia-a-dia" (p. 86); fazem-no para que se possa "compreender melhor outros conceitos" que nos habituamos a encontrar na arte, na religião, na ciência. Filosofia é estudo disciplinado e rigoroso (p. 12) de conceitos como os de verdade, validade, conhecimento, realidade, bem, arte, Deus, existência, propriedade, justiça... Daí resultam teorias que visam resolver problemas relativos a tais conceitos (p. 21). E as possíveis soluções, como é desejável, devem apresentar-se apoiadas em argumentos "corretos".

As opiniões em torno dos problemas "nunca parecem chegar a um consenso mínimo" (p. 25). Por isso, é oportuno conhecer o que certos pensadores disseram a respeito dessas questões (p. 27). Em outras palavras, convém conhecer a história da filosofia (p. 67), boa maneira para entender o que determinado filósofo pretendia asseverar. Contudo, filosofia não é história da filosofia, lembra Desidério, com razão. A história é meio; o fim "é perguntar-se se o filósofo tem razão", o que requer a atitude crítica.

Na p. 12, Desidério fala da "opacidade referencial" (noção desenvolvida por W. Quine, em 1960, no livro Word and Object), atribuindo ao termo um alcance mais amplo. Existe opacidade quando nos limitamos a dizer "P afirmou x; Q contestou, asseverando y; R retrucou defendendo z", sem, no entanto, conhecer o que significam x, y, z... (Lamentavelmente, isso é muito comum.) O comentário em torno da "incomensurabilidade de teorias", (p. 75s.) é curioso.

No livro de Desidério há cinco itens que merecem comentário, mesmo que breve. Primeiro. Desidério diz (p. 25) que "em filosofia não se sabe praticamente nada". Evidentemente, mera façon de parler. Esqueçamos o exagero. Adiante (p. 49), segundo item, assevera que "As definições explícitas são, na verdade, raras". Cabe notar que numerosíssimas definições da matemática são explícitas (algumas poucas são recursivas e contextuais). A par disso, os dicionários oferecem ou procuram oferecer definições explícitas da maioria dos termos arrolados (mesmo que muitas sejam "horríveis"). O terceiro item (p.64), refere-se à dupla negação. Para a lógica, a dupla negação equipara-se a uma afirmação. Em diálogos corriqueiros, porém, portugueses e brasileiros costumam empregá-la com "força" de negação. Creio que não vale a pena acolher o erro. Parece preferível insistir, desde cedo, no uso correto. Quarto item: exigir "argumentos que sustentam nossas posições" (p. 60), isto é, a fundamentação racional do que asseveramos, não é exigência que possa ficar circunscrita à arena filosófica. Argumentos dedutivamente legítimos ou, no mínimo, indutivamente "fortes" são exigíveis em quaisquer disciplinas. Melhor, em qualquer discussão "civilizada".

O quinto item diz respeito às definições. Deixei registrado (cap. 2.5 do livro Saber de e Saber Que: Alicerces da Racionalidade, Petrópolis: Vozes, 2002), meu modo de entender as definições. Desidério examina o assunto por um prisma excessivamente tradicionalista. Preso a tais esquemas, define coisas — enquanto, no meu entender, definimos palavras, isto é, termos de uma língua. Para mim, a ostensão não é modo de definir, mas forma de incutir certos hábitos lingüísticos. Essa diferença de enfoques não impede, porém, que lhe dê razão e aceite vários de seus pontos de vista.


Instituto Brasileiro de Filosofia
Enviar por email · Imprimir · Termos de utilização
Reproduza livremente mas, por favor, cite a fonte.
Copyright © 1997–2010 criticanarede.com · ISSN 1749-8457
Reproduza livremente mas, por favor, cite a fonte.
Termos de utilização: http://criticanarede.com/termos.html.