Naturalizing the Mind, de Fred Dretske
Filosofia da mente

Representacionismo naturalista

Leônidas Hegenberg
Naturalizing the Mind, de Fred Dretske
MIT Press, 1995, 208 pp.
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O Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) organiza, desde 1993, as chamadas "Conferências Jean Nicod" — homenagem ao conhecido filósofo francês que viveu entre 1893 e 1931. A programação das atividades ficou a cargo de dois ilustres pesquisadores, Jacques Bouveresse (Presidente do "Comitê Jean Nicod") e André Holley (Diretor do Programa de ciências cognitivas do CNRS). Por sua vez, os conferencistas convidados, são, em geral, estudiosos da cognição e, em especial, do que os ingleses denominam "philosophy of mind".

As palestras inaugurais, em 1993, foram dadas, no CNRS, por Jerry A. Fodor. Falou do "mentalês", ou seja, a "linguagem utilizada pelos pensadores que discutem problemas relativos à mente". Suas palestras foram reunidas em livro, The Elm and the Expert (MIT Press, 1995, 129 pp.). No ano seguinte, o conferencista foi Fred Dretske. Suas palestras deram origem ao livro que ora comentamos.

Dretske nasceu nos EUA, em 1932. Durante alguns anos, chefiou o Departamento de Filosofia da Stanford University. Sua obra mais conhecida é Knowledge and the Flow of Information (Oxford, 1981). Para dar resumida idéia de sua contribuição para a teoria do conhecimento, usemos uma analogia. Em linhas amplas, as nuvens associam-se à chuva. Em certa medida, portanto, as nuvens são portadoras de informação a respeito da presença de chuva. Nuvens seriam "indicadores confiáveis" de que a chuva poderá manifestar-se. Valendo-se da noção de informação, Dretske formulou uma explanação redutora da intencionalidade dos fenômenos mentais. Estabeleceu correlações legalóides (ou legiforme: lawlike) entre certos tipos de fenômenos mentais.

Nas conferências de 1994, em Paris, Dretske ressalta que, para entender a mente, não basta focalizar a "maquinaria biológica". Para entendê-la é necessário 1) deixar explícito o trabalho que a ela cabe executar (ou seja, o papel da mente) e 2) como esse trabalho seria realizado por um sistema físico (o sistema nervoso).

Defendendo suas idéias, o autor escreveu os quatro capítulos iniciais deste seu livro. No primeiro, de quase 40 páginas, discorre a respeito de "o caráter representacional da experiência sensória". No segundo (25 pp.), focaliza a "introspecção". No terceiro (30 pp.), analisa os qualia. O quarto capítulo intitula-se "Consciousness".

A respeito dos qualia, um comentário se faz oportuno. O termo — plural de quale, do latim — tem sido empregado, desde os anos 70, aproximadamente, para aludir às qualidades subjetivas da experiência consciente. Os qualia têm sido um obstáculo sério às tentativas de formular soluções materialistas para o problema corpo-mente. De fato, consideremos um quale como "o gosto do açúcar". Não é simples analisar o caráter subjetivo desse gosto (apenas compreensível pelo prisma de um particular ser consciente) em termos físicos — acessíveis a quaisquer indivíduos racionais, independentemente de suas específicas faculdades sensórias.

Preparando seu texto para publicação, Dretske escreveu um quinto capítulo ("Externalism and supervenience", de 45 pp.), em que antecipa — a fim de tentar contorná-las — algumas possíveis críticas que poderiam ser dirigidas contra seus planos.

O autor, numa linha naturalista, supera, de maneira habilidosa, as dificuldades enfrentadas por adeptos dessa linha e apresenta uma teoria representacinal dos aspectos qualitativos da mente. Alicerce dessa teoria é a idéia de que os itens "fenomênicos" das experiências perceptuais se equiparam às propriedades externas (reais) que a experiência atribui aos objetos (por meio de representações).

Colocando essa idéia básica num contexto evolucionário da representação sensorial, Dretske apresenta explanação inteiramente naturalista da consciência que temos dos fenômenos.

Focalizando o que caberia chamar "representacionismo naturalista", Dretske está em condições de melhor explicar os delicados problemas da "primeira pessoa" — no campo da experiência sensorial e no campo da experiência afetiva. Ele separa aquilo de que temos experiência (a realidade) do modo como temos dela experiência (a aparência). Abre, dessa maneira, uma possibilidade de estudar a subjetividade em termos estritamente objetivos. O livro contém, ainda, uma resposta razoavelmente plausível para as questões relativas aos propósitos da consciência.

Leônidas Hegenberg
lh@phonet.com.br

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