Proust à vela
Desidério MurchoPatrick O'Brian escreve há quase trinta anos romances de marinharia cuja acção decorre no tempo das guerras napoleónicas. Alguns críticos compararam-no com Jane Austin e Proust. Escreveu uma longa série de romances com os mesmos personagens principais ("Lucky Jack" Aubrey e Stephen Maturin), de que acabou de prublicar-se o último da série (The Yellow Admiral). No entanto, não é deste último que vos vou falar, mas antes do precursor da série Aubrey-Maturin: The Unknow Shore, o livro ideal para começar a explorar o universo de O'Brian.
Há dois aspectos na obra de O'Brian que gostaria de sublinhar. Do ponto de vista formal, estamos perante um cultor da língua inglesa e da forma narrativa no seu melhor. O léxico está de tal forma adaptado à época na qual o romance se desenrola que mal começamos a leitura ficamos imersos num universo marítimo com 3 séculos de idade. O fascínio que isso provoca só é comparável à sensação que tínhamos quando descobríamos universos deslumbrantes nas nossas leituras de viagens e aventuras dos 13 anos. E este é o segundo aspecto que gostaria de destacar: há uma alegria narrativa, uma vivacidade, uma sensação de deslumbramento e aventura que é hoje praticamente inexistente, infelizmente, na literatura para adultos. A alegria de viver transmitida pela narrativa é contagiante. As descrições aparentemente sóbrias guardam sempre pérolas de observações irónicas, os personagens estão marcados por personalidades que mesmo quanto desagradáveis ao trato se revelam deliciosas à leitura...
Jack Byron — aspirante da marinha de guerra britânica — e Toby — ajudante do médico — são os personagens principais deste romance. O primeiro prima pela sensatez e conhecimento do mundo da marinharia; o segundo, por uma paixão por todas as matérias científicas, em especial a zoologia. As aventuras de ambos começam quando Toby se vê obrigado a seguir o rumo da vida marítima, acompanhado do seu amigo Jack, já experiente em tais matérias. A amizade inabalável que une dois espíritos fundamentalmente diferentes é em si uma lição — mas nunca na escrita de O'Brian a pedagogia bacoca entrava o brilho da literatura.
The Unknown Shore é a prova definitiva de que se pode cultivar os leitores divertindo-os ao mesmo tempo, refutando-se assim a ideia de que ler é uma coisa chata. E num país como Portugal, a tarefa de demonstrar isto é talvez uma das mais importantes.