Capitão de Mar e Guerra

Por mares sempre de antes navegados

Desidério Murcho
Capitão de Mar e Guerra, de Patrick O'Brian
Tradução de José Vieira de Lima
Edições Asa, 1998, 415 pp.

Eis que surge pela primeira vez uma tradução de Patrick O'Brian. Como já tinha referido numa crítica anterior (a propósito da reedição inglesa de The Unknown Shore), O'Brian escreveu uma famosa série de romances de marinharia, a série Aubrey/Maturin (os nomes dos dois personagens principais), mas era, até agora, completamente desconhecido em Portugal. Agora essa situação mudou, graças à perspicácia da Asa. Espero que esta tradução portuguesa seja um sucesso e que os restantes livros da série sejam rapidamente editados: há mais 18 (!) livros para fazer as delícias dos leitores.

Os romances de O'Brian têm como pano de fundo a situação política naval dos finais do século XVIII princípios do XIX, quando Franceses, Espanhóis e Ingleses disputavam o domínio dos mares, nomeadamente do Mediterrâneo. Em plena época napoleónica, as técnicas e costumes de marinharia descritos nestes romances são típicos do século XVIII, apesar de já se estar no início do século passado — século que, em termos navais, ficou marcado pela clara separação entre a marinha de guerra e a marinha mercante, o que nos romances não é ainda de todo claro. Mais tarde aparecerão, como toque de finados na chamada "época de ouro da vela", os navios de propulsão mista, logo em meados do século XIX.

Este romance começa quando Jack Aubrey é promovido a capitão da marinha de guerra inglesa; Stephen Maturin, médico (e filósofo, como era costume na altura), torna-se seu amigo e acaba por se tornar médico do navio comandado por Jack. Juntos, percorrem o Mediterrâneo e envolvem-se em inúmeras batalhas navais. Com este esqueleto literário, tanto se pode fazer um romance de cordel, como uma narrativa inesquecível e O'Brian consegue o último prodígio com um à-vontade impressionante.

O domínio histórico do autor é impressionante, sobretudo numa área tão difícil como a da marinharia, cujos termos esotéricos foram imortalizados por Melville. O'Brian não lhe fica atrás, conseguindo entrelaçar vários elementos de forma harmoniosa. Efectivamente, os seus romances podem descrever-se basicamente como livros de aventuras; mas são muito mais do que isso. É verdade que há um espírito de aventura, uma alegria de viver e uma atmosfera em geral amena. Mas por detrás espreitam elementos políticos, sociais e psicológicos mais profundos e mais sérios. No entanto, o aspecto que mais me impressiona é o domínio da língua. Efectivamente, o estilo de O'Brian inscreve-se claramente na narrativa clássica do século XIX, sem que no entanto a sua leitura se torne de modo algum inacessível: pelo contrário, é compulsiva.

Só um grande tradutor poderia deitar mãos à tarefa de fazer O'Brian falar português sem ter medo de fracassar. Mas o tradutor da obra, José Vieira de Lima, foi mais longe e apresenta uma autêntica obra-prima dessa arte tão menosprezada: a tradução. O domínio da língua portuguesa é impressionante. O cuidado posto nesta tradução é de aplaudir e estimular, tanto mais que é infelizmente raro nas traduções portuguesas. José Vieira de Lima introduziu algumas notas, aqui e ali, para esclarecer referências a personagens históricos, acontecimentos, etc., o que torna esta edição portuguesa ainda mais apetecível. Efectivamente, este é o tipo de obra em que se aprende história de forma amena, pelo que as notas do tradutor são tanto mais preciosas. A própria edição da Asa é uma lição de como se fazem livros, uma lição que infelizmente muitos editores têm de aprender: não detectei praticamente nenhuma gralha e tanto a impressão como a paginação são de alta qualidade. Está a Asa de parabéns. E quando um editor está de parabéns, somos todos nós que ganhámos. Não perca este livro!

Desidério Murcho
Com a assistência de Ricardo Ribeiro.
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