O Professsor e o Louco, de Simon Winchester
3 de Agosto de 2004 ⋅ Livros

Palavra de louco

Desidério Murcho
O Professor e o Louco, de Simon Winchester
Lisboa: Temas e Debates, 2001, 242 págs., 16,62 €

O "Oxford English Dictionary", conhecido por "OED", é um dos grandes feitos de sempre do mundo da cultura: 12 volumes imensos que definem 414 825 palavras (os maiores dicionários portugueses não chegam às 100 mil palavras), apresentando 1 827 306 citações de obras clássicas e outras que ilustram os significados das palavras definidas e traçam a sua história. A investigação e produção do OED demorou 69 anos (de 1878 a 1927), apesar de ter sido concebido em 1858, 20 anos antes de se ter encontrado a pessoa certa para levar a cabo esta ciclópica tarefa. E a pessoa certa foi James Murray, que trabalhou no dicionário até à sua morte como editor-chefe. A tarefa ciclópica de rastrear a história de todas as palavras da língua inglesa só pode conseguir-se lendo; e é preciso ler muito. Por esse motivo, os editores do "OED" acharam por bem pedir a colaboração do público no sentido de procurarem palavras em obras clássicas, com o objectivo não só de ilustrar os significados das mesmas, mas também de tentar encontrar a altura em que tais palavras foram pela primeira vez registadas por escrito. Um dos colaboradores mais importantes do "OED" foi W. C. Minor, um americano com uma história peculiar. É a história deste americano — mas também de Murray e do próprio OED — que Winchester nos apresenta de forma magistral nesta obra magnífica.

Minor era médico e um homem culto e dado às letras; a sua inteligência e competência permitiram-lhe subir rapidamente na hierarquia militar, onde servia como médico. Mas aquando da Guerra Civil Americana Minor começa a dar sinais de paranóia e acaba por ser reformado e internado num hospital psiquiátrico. Posteriormente, viaja pela Europa e estabelece-se na Inglaterra. Aí, vítima de uma das suas manias paranóicas, persegue um desconhecido e fulmina-o com um tiro de pistola, pensando que se trata de um dos personagens imaginários que o querem matar. Minor entrega-se à polícia na cena do crime e acaba por ser declarado louco; é então encerrado num hospital psiquiátrico dos arredores de Londres, onde irá passar praticamente o resto da sua vida. E é neste hospital que Minor irá estabelecer-se como um dos melhores lexicógrafos do mundo e um dos mais importantes colaboradores do OED (cujo nome surge nos agradecimentos da primeira e segunda edições).

Winchester conduz o leitor com graça e inteligência pelos meandros desta história. Dá-nos a conhecer um pouco da vida de Murray, um homem extraordinário que nunca tirou um curso superior por ser pobre, mas a quem Oxford concedeu um grau em função do seu brilhante trabalho no OED. E narra a brilhante história da concepção e produção do ciclópico OED. Mas o tema central da obra é a vida desventurada de Minor, vítima de delírios paranóicos, o que o levou não só ao homicídio já aludido, mas também a amputar o seu próprio pénis com uma frieza de cirurgião de guerra que ele efectivamente tinha sido. Um aspecto interessante da paranóia de Minor é o facto de ela estar relacionada com o seu enorme apetite sexual, o que me fez lembrar o caso dos "serial killers" ou assassinos patológicos (veja-se a crítica à obra The Last Victim). Compreende-se que Freud tenha tentado relacionar a repressão sexual com a loucura, dado os casos deste género; mas parece-me superficial pensar que a causa da loucura seja a repressão sexual. Minor, por exemplo, viveu durante muito tempo uma vida promíscua; e o mesmo acontece com os "serial killers". Aparentemente as coisas passam-se ao contrário: é porque estas pessoas são loucas que são incapazes de ter uma relação compensadora com a sua sexualidade.

"O Professor e o Louco" é uma obra tocante, empolgante e de leitura compulsiva. Recomendo-a vivamente a todos os bibliófilos e lexicógrafos, mas também a psicólogos interessados em casos de paranóia e aos leitores em geral interessados nestes temas.

Desidério Murcho
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