A vocação do silêncio

Maria João Cantinho
Onde, de Carlos Lopes Pires
Editorial Diferença, Leiria, 2001

Gostava de começar por citar um autor que aprecio muito, Hugo von Hofmannsthal, e que escreveu um admirável livro, A Carta de Lord Chandos, num excerto final do livro, em que Lord Chandos diz ao filósofo Francis Bacon, recusando a actividade literária e justificando esse facto:

[...] quero dizer que a língua em que me seria, talvez, dado não apenas a escrever mas a pensar, não é nem o latim, nem o italiano, nem o espanhol, mas uma língua de que não conheço uma só palavra, uma língua com que as coisas mudas me falam e na qual deverei talvez um dia, do fundo da campa, justificar-me perante um juiz desconhecido.

O grande paradoxo da poesia, essa arte frágil e gerada da finitude humana e que não pode ser comparada a nenhuma outra, é com efeito a resistência incontornável, lutando contra a mudez das coisas, ainda por nomear, e por isso há na poesia uma dilaceração interna entre o querer dizer e a impossibilidade do dizer. Trata-se de procurar uma língua capaz de concentrar em si a essencialidade das coisas e a sua luz íntima, o seu secreto fulgor. A sua vocação é, antes de tudo, uma aspiração à linguagem perfeita, capaz de captar o rumor da natureza, como um imenso ouvido que reúne todas as vozes.

Por isso mesmo, a sua vocação é também a do silêncio, aquele que abre clareiras e fracturas nos limites da linguagem para aceder a um lugar, um centro, que se encontra em todo e nenhum lugar. Ao falar-nos dessa fractura, da brecha que faz irromper o sentido da poesia, Bataille referia-se a ela como "Un mot que n'est pas un mot", referindo a suspensão que se instaura nesse instante e que nos toca profundamente, antes e depois de cada poema. E a fragilidade da poesia, o seu insustentável silêncio, o seu desejo erótico de "escutação" é também a sua matriz, o que a alimenta e sustém. Nela, poesia, cada metáfora indica a sua pertença, apelando à reunião do que deseja ser dito, num movimento de discreto brilho, caminhando para um ponto convergente e que é, ele próprio, fonte do sentido e do nomear poético.

E se situarmos o espaço da poesia como o limbo ou o umbral entre o que se quer dizer, mas que nunca é dito porque o dito resvala sempre para a água do silêncio, então podemos afirmar que Onde é uma dessas obras que faz do silêncio a sua respiração latente e descontínua, em permanente escuta, num movimento de atenção em que "a atenção se converte na oração natural da alma", para citar Walter Benjamin, no seu estudo sobre a escrita de Kafka.

Esse sopro ou escuta, pressentida através de cada poema, ele próprio autofágico, o caminho que o poeta faz através do gesto da escrita, gesto sagrado, segue um vestígio mudo, e arrasta-o numa caminhada, conduzindo-o a um topos imaginário e sagrado, cosmogónico, lugar de (re)criação, a que Carlos Lopes Pires chamou Onde.

Não podemos falar de Onde sem recuar à obra anterior do poeta: Em Cada Um. Já aí se anunciava claramente a viagem iniciática, que o poeta realiza sempre a caminho de algo, tacteando, inquieto, convocando as coisas e os seres, transmudando a mundaneidade do seu olhar numa experiência interior e subjectiva, quase irredutível ao dizer. Gostaria, a esse propósito, de relembrar o poema Oração, que encontro em Em Cada Um como o prenúncio de Onde, justamente na passagem que nos permite detectar a continuidade e a coerência interna de que se reveste toda a obra e o projecto poético do autor:

Oração

Ele caminha, caminha sempre
e para dentro. Nada detém os seus passos
de chuva. E onde vai deixa marcas
nas pontes, na lama, nos líquenes,
na rapariga das tranças a olhar o mar que é largo;
está frio à minha porta, sabes?
Um tique-taque vem da água e caminha.
Rosa breve sobre a cama, flor da alma.
Caminha.
Mão de areia procurando o rio e a pedra;
a claridade cresce, a luz transforma.
Repara: caminha e respira para
dentro.

Porquê o título deste poema, porquê a associação e a relação com esta obra? Justamente para dar relevo ao que considero ser a marca dos grandes poetas. O autor define um projecto poético que o inscreve numa tradição da poesia metafísica, como o são raríssimos poetas da actualidade. E a ousadia deste projecto remete-o para uma marginalização, que o tempo certamente julgará, face àquilo que hoje entendemos serem os movimentos poéticos da moda, puramente circunstanciais e ardendo no fogo da sua efemeridade.

Gostaria de falar aqui, em tom de revisitação, talvez um pouco errante, de aspectos que considero fundamentais na sua poética e que em Onde aparecem em toda a sua fulgurância, revelando a depuração e contenção formais que sempre acompanharam a sua obra. Alguns desses aspectos referindo-se ao uso das metáforas que, por vezes, nos desafiam tão hermeticamente, outros, e esses não são de somenos importância, referindo-se à sequência da própria obra.

Desde já, aponto como chave para a leitura desta obra o admirável excerto de Paul Celan, com que Carlos Lopes Pires "abre" a obra. A uma certa altura desse fabuloso texto que é "O Meridiano," Celan fala da função e do sentido da poesia, afirmando: "O poema é solitário. É solitário e vai a caminho. Quem o escreve torna-se parte integrante dele."

Não é por acaso que roubamos citações, como ladrões que se põem à beira do caminho, aguardando alguém desprevenido. "Roubar uma citação" como esta implica tomar para si todas as consequências do seu significado mais íntimo e profundo. Implica sobretudo retomar todos os postulados sobre os quais assenta um projecto metafísico. O poema é solitário como o é o gesto do poeta, configurando em si próprio a experiência da perda e da dor, plasmando essa experiência e transfigurando-a poeticamente. Mas, justamente, a coerência que caracteriza a obra dos grandes poetas, é a de não conseguir separar o dito do gesto como se diz, de não separar o caminho do próprio caminhar. E essa impossibilidade revela uma potência genesíaca, dar nome e existência aos entes, às coisas e aos seres que nos rodeiam. Recriar cosmogonicamente o mundo, repetir o gesto adâmico de arrancar às coisas à sua tristeza muda, dando-lhes um nome, cumprindo a função divina da criação, ritualizada pela oração natural da alma que é o poema.

Que pathos, que sentimento habita o poeta enquanto demiurgo? Que sofrimento traz aquele que caminha, arrastando para "dentro de si" a essência daquilo que é? Onde retira ele a força mágica para consagrar o mundo? Isso permanece um enigma tão vasto e insolúvel que me parece ser a razão por que apenas alguns homens (e não por acaso) são poetas. Fazendo da poesia a sua Ítaca, a pátria a que sempre se retorna, após a longa viagem, onde o homem se perde tantas vezes, trazendo a sua mundaneidade e experiência para "dentro" de si. A indissociabilidade entre o poema e aquele que o escreve, como que sendo absorvido pelo solitário poema, parece ser o nó górdio, o núcleo central de Onde. Aquele que caminha, o poeta, arrastando, trazendo para dentro o mundo, atravessando os escombros e as ruínas da experiência humana, e em que ele próprio é consumido pelo gesto salvífico, que leva a cabo. E esse é um acto heróico, pela sua própria natureza, abrindo novas modalidades de existência, novos mundos, fissurando a realidade para a resgatar através da linguagem.

Aquele que realiza o gesto é aquele que caminha com pressa, pois o mundo urge, reclama a sua redenção, o que procura as "papoilas", metáfora tão polissémica e rica na obra do autor e de que falarei adiante, "o das urtigas" (p. 9) é, não apenas o gesto que se deseja redentor, mas também o sacrifício ritual e simbólico do poeta.

O tom hierático e profético que Carlos Lopes Pires assume, desde logo, inscrevendo uma tensão dilacerante e alegórica, exprimindo uma polaridade constante e inconciliável entre a figura de Cristo e o homem profano, o ser mundano, ouvido atento à escuta da respiração de cada ser, de cada pedra, perdendo-se no oculto significado do olhar dos animais, nas inúmeras e pequenas coisas que possuem um rumor a que já não acedemos, esse silêncio interdito, são traços, marcas constantes da sua poética, que têm o condão de revelar o olhar cristalino do poeta, esse que é mais que um homem, mas menos que um deus, numa dolorosa viagem para "dentro de si", escavando a terra, indo ao fundo do poço, atravessando a opacidade da matéria e a sua escuridão para a transformar na mais intensa claridade: a claridade do nome, a palavra que se soltou do seu corpo e se tornou imaterial, etérea, convocando a existência espiritual e metafísica do mundo, permanecendo, no entanto, consciente da dor que lhe advém do reconhecimento dos limites que lhe são impostos pela linguagem.

O que é "esperado" para cumprir a sua missão, o poeta, atravessa o limbo das palavras, falando aos animais que, famintos, escutam a palavra: "A palavra da palavra/dita minha palavra". "O Esperado" cumpre o ritual, faz da palavra a oração, anunciando o que há-de vir, consagrando em simultâneo o gesto e o que nele é dito. Isto é, transformando alquimicamente a palavra no nome. Libertando-a do seu peso, da sua instrumentalidade, da sua banalidade, elevando a língua ao seu esplendor. E, se atendermos a essa vocação, o poema seria, ele próprio, um ente singular, linguagem pura (como aquela que Lord Chandos desejaria encontrar), tornada figura, essência pura, presença e luminosa evidência.

O belíssimo poema Intensidades, sibilino e fechado, resiste à minha compreensão e inquieta-me profundamente. Julgo ver nele a confluência de todas as intensidades, desde a intensidade de cada ser vivo, o seu peso existencial, específico e irredutível, até à intensidade suprema da finitude humana, atormentada pela dor constante, a dor de Sísifo, constituindo a essência do seu heroísmo. Também a dor do poeta é sem fim, anunciada em vários poemas, a dor da perda, a dor do que procura redimir e salvar a experiência humana, sabendo-a sempre como um campo de ruínas e escolhos. A dor conhecida do poeta ou do anjo, reconhecendo na redenção uma tarefa inconcretizável, mas, ao mesmo tempo, irrecusável. Um olhar impotente, a olhar o mundo e a história humana, como areia escapando entre os dedos. E essa tarefa é um "Chamamento," em que é convocado o repouso da água, a claridade da voz, essa voz íntima e gerada por dentro do silêncio salvífico: "[...] sombra e água/na claridade da voz/que te chama" (p. 31). O chamamento como um gesto, convocando o repouso absoluto, "Esta rosa pousada nos teus olhos".

Em Onde, o poeta reclama uma abertura da existência "para dentro", como no poema "Abre e Abre", terminando da seguinte forma: "E que a vida é/semente e vagem: abre e abre/para dentro". Num contraponto ao inesquecível poema de Celan, A Morte é uma Flor, em que a morte abre, florescendo de dentro para fora, brilhando em toda a sua luz alegórica, o autor inverte essa abertura, como um reencaminhamento para o sujeito e para a pura subjectividade. E se, na sua obra anterior, a presença do Outro como instância metafísica se revelava como uma exigência, essa presença, aqui, dissipa-se quase completamente, tornando-se paradoxal, perfazendo um círculo, onde o poema integra a vivência daquele que o escreve. Paradoxal, no sentido em que, se por um lado, a suspensão operada pela metáfora disseminadora da existência física (do espaço e tempo físicos) se apresenta de um modo rememorativo, por outro lado, nessa suspensão emerge a possibilidade de uma nova vida, uma nova existência absoluta e plena de sentido, numa abertura para um plano de transcendência.

"O caminhar para dentro" é algo que é exigido a cada momento, caminhando de metáfora em metáfora, metáforas que nos reenviam sempre para uma mesma interioridade, esta sim, já irrespirável, em que tempo o espaço se dissipam, na sua dimensão física. A vida é reconduzida numa escuta atenta do mundo mineral e animal, onde nos surpreendemos com metáforas como a de "Os rios singrando para o coração", "o pássaro recebido no coração", a água, a claridade, os olhos dos animais convertendo-se sempre em sinais de respiração interior e irredutível à palavra. Tudo é recebido no coração, metáfora de centralidade afectiva e também ela irradiante, capaz de acolher o mundo, transfigurando-se no "lugar onde desemboca toda a subjectividade".

Entre as metáforas que aparecem recorrentemente, na poética do autor, gostaria de salientar algumas que me parecem essenciais, iluminando o caminho que o poeta faz, por dentro do gesto nomeador e iniciático. Uma dessas metáforas, a mais inquietante é, sem dúvida, a metáfora das papoilas, lançando-nos no coração do paradoxo e da dilaceração existente entre o gesto rememorativo e a palavra profética, aquela que contém em si o porvir, como potência nomeadora e mágica.

Logo no primeiro poema, "Onde", a pergunta surge: "papoilas, papoilas/onde?" O poeta, o que inflecte a sua caminhada para "dentro", transportando a sua experiência, quando todos repousam, ele, inquieto, dirige a sua pressa, em busca de papoilas. A inquietação nasce imediatamente, obrigando-nos a seguir o seu olhar. Para onde? Onde estão as papoilas?

Das obras anteriores do poeta, há uma viragem nesta obra que é a substituição da rosa, flor dúplice, simbolizando ao mesmo tempo a beleza absoluta, a indestrutibilidade das suas pétalas como marcas de eternidade transformada em beleza absoluta e alquímica, e a dor provocada pelos espinhos. No martírio cristão, o sacrifício evoca a rosa e a sua cor vermelha o sangue. E parece-me algo perturbadora (e inovadora, introduzindo uma nova semântica na sua poética) a substituição da metáfora da rosa, tão claramente visível nas obras anteriores, pelas papoilas, também elas manifestação do sacrifício redentor.

Mas não só! O que evocam as papoilas e por que se tornam elas tão inquietantes? Parece-me que a papoila é a flor que se encontra intimamente associada ao esquecimento, a uma espécie de campânula onde se protege e distancia aquele que vive. A campânula da rememoração, da dilatação do espaço e do tempo físicos, convocando a imaterialidade da memória. É um espaço de subjectividade que faz explodir a temporalidade profana. Daí que uma das metáforas centrais que contribuem para iluminar esta obra seja a evidência da papoila, impondo-se como uma "imagem pairante", um caminho percorrido pelo poeta, que atravessa campos de papoilas. No poema "Traz o Nome," as papoilas gotejam e fazem muros. E a imagem da papoila surge inevitavelmente associada à imagem, à aura da infância, reforçando um sentido que tanto pode evocar a rememoração, pela suspensão do olhar, mas que contém em si, paradoxalmente, a possibilidade de uma abertura: o novo mundo que virá, tão claramente expressa nos versos: "e as crianças perseguem o chão até onde". Por um lado, também em "Abre e Abre", existe essa alusão, uma remissão para um tempo cheio e plenamente existencial (porvir) que se encontra contido na semente: "[...] E que a vida é/semente e vagem: abre e abre".

As papoilas encontram-se quase sempre associadas a muros, aqueles onde o poeta pousa as mãos e procura alcançar o que diante dele se estende, encontram-se frequentemente associadas à água, símbolo do tempo também ele rememorativo. Por isso, elas estabelecem a passagem entre a rememoração como um pólo dialéctico que luta com o outro: o porvir, o anunciar de um novo mundo,

E é sobretudo na metáfora da água, em "os rios singrando para o coração", evocando o rio de Heraclito, que aqui se apresenta como uma referência incontornável, aquele rio do tempo onde as águas jamais se repetem, correndo sempre, lavando tudo, conduzindo tudo até ao coração. Nesse rio, todas as linhas de água/todos os tempos (passado, presente e futuro) se entrecruzam e caminham para um tempo capaz de tudo abarcar, o tempo que explode e ilumina a partir de si o passado, o presente e o futuro, o tempo da transcendência, e este é justamente o porvir.

Numa leitura atenta, seguindo o inevitável eixo água/papoilas/infância e redenção, o poeta é "salvo" entre as papoilas, flor do esquecimento, mas também da abertura à transcendência, passagem efectuada pela morte simbólica, redentora. E ele sabe, pelo sacrifício evocado pela cor das papoilas, sacrifício resguardado no esquecimento, que fundará e fará renascer o sentido do mundo. Ele é o esperado, o que reúne em si a experiência do mundo e a carrega, o passado, o presente e o futuro, transmudando a finitude do vivido nessa transcendência luminosa. Aquele que caminha e dirige a sua pressa, para "Onde, o lugar das papoilas", onde a "infância ressurge na água do tempo", como um vestígio aurático e que se procura a todo o custo guardar como o retorno possível e nostálgico, é a expressão universal da finitude humana. Um caminhar do homem e uma libertação em simultâneo. Uma libertação que só pode ocorrer pela abertura para um olhar infinito, esse olhar interior. E o significado do vivido, do que antes era dito nasce dessa caminhada, como uma abertura ou um "caminhar" para a transcendência. Essa tensão da finitude e a procura da sublimidade do homem pela passagem para a transcendência, num olhar interior, remete-nos inevitavelmente para essa referência filosófica kierkegaardiana, tão importante para o autor. O sentido da existência e a possibilidade da salvação humana configura-se na procura da transcendência. Só existe Onde, num sentido pleno e cheio, esse lugar sem espaço nem tempo, estilhaçado e ao mesmo tempo salvo, fonte de sentido.

O vivido, a experiência mundana do homem deve abandonar "as suas prisões" para atingir a sua plenitude existencial. A rememoração é, com efeito, uma encenação da morte, uma simbolização da morte dos sentidos, para o sensorial, reflectindo a recusa platónica do mundo das sombras, o mundo dominado pelas aparências sensoriais (veríamos ainda aqui uma revisitação platónica do Fédon, em que a morte se abre para a verdadeira vida, a vida essencial).

Trata-se assim de transportar o vivido e o dito mundanos para uma esfera do sentido. O dito terá de ficar à porta da transfiguração, pois as palavras são humanas por excelência, não são nomes nem verbo criador. As palavras enchem o ar, fecham-no e cercam-no de angústia. Limitam-no e agrilhoam-no. Numa dimensão metafísica (escolho o tempo trágico por excelência) e também o tempo do ritual ou o da oração do poema, o tempo o do sacrifício, a existência integra o silêncio, rompendo definitivamente os limites do dizer. Deixando o homem a sós com o seu deus e esta é também a solidão trágica de Cristo na cruz, o silêncio de Deus, perante seu acto de redenção.

Tal como o trágico gesto de Antígona, silenciando-se perante o mundo humano. Ou Édipo... onde os gestos se convertem em actos puros e sagrados. Acima das leis humanas e das palavras dos homens, acima do juízo e das distinções, acima dos conceitos e das categorias e de todas as linhas divisórias. Mais uma vez a morte simboliza esse gesto de romper com os gestos dos homens, com a angústia das palavras e do fluxo do devir, escavando o desespero humano, projectando o homem para uma abertura, aniquilando nele tudo o que era finitude (corpo, sentidos, palavra, história) para aceder ao infinito. Num movimento ascendente. O movimento que permite a passagem do finito ao eterno, das palavras à linguagem pura, dos gestos irremediáveis ao repouso das mãos e do olhar.

O gesto supremo da recusa humana, inadiável, é a morte e essa perda provoca a dor, mas também o supremo êxtase, se o entendermos à luz do pensamento platónico. O êxtase de saber-se definitivamente liberto da dor e dos gestos sem remédio, da finitude e da accedia que ela arrasta consigo, da angústia sempre em busca de uma saída, do desespero provocado pela lucidez e pela solidão. Estes temas são já kierkegaardianos, pensando em Kierkegaard como o filósofo que pensou a vida como uma imensa metáfora. Ainda que reconhecendo a comunidade entre a vida e a obra, Kierkegaard reconhece igualmente a dor existencial do homem como o que está projectado para o seu futuro, angustiando-se à procura de determinar-se a si próprio, desesperando pela saída do seu estado de finitude para se fundir com uma dimensão suprasensorial. É aí que eu encontro a mais profunda afinidade entre Carlos Lopes Pires e o pensamento de Kierkegaard. Já não a distância, entre o real (finito) e o supra-real (infinito), mas um caminhar erótico e despojada para essa dimensão, numa angústia que se define pelo desejo da sua salvação.

Permanece na escrita do poeta essa intensa procura, através da escrita, de um centro, onde o domínio da palavra é já o interdito e o poema procura a solidão feliz que existe no silêncio para que todas as coisas convergem e caem. Um silêncio litúrgico, sagrado, num lugar hierofântico de pura pertença recíproca e simbólica dos seres e das coisas existentes, mas tornadas já impalpáveis e imateriais pela luz irradiante dessa plenitude de que nos fala Carlos Lopes Pires, no comovente poema "Tempo de Onde," a finalizar a sequência e fechando-a em "Tempo de Onde", como um círculo perfeito:

E haverá um tempo em
que tudo será dito. Coisa a coisa,
rosa com rosa, água da água,
e a ferida será do lábio que
a gerou,
e o fruto estará na árvore
e não no apanhador,
e tu não nomearás fora
da tua boca,
nem a cereja estará fora do cesto,
nem o gesto espreitará através
da água,
porque o tempo de sermos velhos
será uma estação cheia de
raízes, e tu dirás caminhei e caminhei
e agora estou onde os
teus olhos.

Os últimos versos operam uma disseminação total do espaço e do tempo físico, convertendo o olhar na expressão derradeira e quieta da suspensão e morte derradeira do olhar sensorial e, ao mesmo tempo, possibilitando o nascimento de um novo olhar, que inflecte e descobre o mundo autêntico, a clareira de sentido, para parafrasear Heidegger. E este é o olhar redentor, em que o mundo se aquieta, em que se descobre a pertença recíproca de cada coisa e de cada ser, esse centro simbólico que dará ao homem o "poder de olhar fora do coração" (p. 61) porque adquiriu a verdadeira visão, a do essencial, a visão íntima de cada coisa, de cada ser, de cada criatura.

Sem dúvida uma jóia de discreto brilho, para ser usufruída no silêncio da chuva mansa.

Maria João Cantinho
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