Os Órgãos de Estaline
17 de Setembro de 2005 ⋅ Livros

Uma história sem história

Ricardo Ribeiro
Os Órgãos de Estaline, de Gert Leidig
Lisboa: Ulisseia, 2005, 172 pp.

O romance de guerra tende a tornar-se mais intenso quando a pena que o escreve é manuseada por quem privou com todos os horrores e privações provocados pela confrontação bélica. Não é portanto de espantar que Gert Ledig revele ao longo das páginas deste livro uma crueza descritiva que traduz a sua própria experiência como combatente do exército alemão. O cenário da acção, a zona de Leninegrado, na famigerada frente leste, é-lhe familiar, pois foi ali que em 1942 foi ferido e evacuado, o que lhe terá talvez valido a sobrevivência à guerra, visto que não regressou ao serviço activo.

De resto, Os Órgãos de Estaline é uma história sem história, um mosaico de experiências individuais concentradas num curto espaço de tempo. Ali, naquele disputado pedaço de terreno, alemães e russos degladiam-se e sofrem, diferentes em tantos aspectos mas iguais em toda a essência. As lágrimas, essas, não parecem conhecer a língua que falam os que as derramam.

Qualquer experiência será sempre sensorialmente apreendida de forma diversa pelo indíviduo que a regista. Não é preciso discorrer muito sobre a subjectividade do testemunho e as profundas diferenças nos sulcos lavrados pelo trauma da guerra de pessoa para pessoa. No nosso caso, Gert Ledig terá talvez sido especialmente marcado pela violência da guerra. Toda a sua prosa parece-nos inflacionar a loucura e a perda de valores que sempre ocorrem durante os conflictos armados; poderemos contra-argumentar, alegando que afinal de contas foi Gert Ledig e não qualquer um de nós que derramou o seu sangue e enfrentou a insanidade colectiva. Certo. Mas a verdade é que não foi ele o único a exprimir o que testemunhou, e raros são os relatos ou adaptações romanceadas que apoiam uma perspectiva tão azeda e pessimista da experiência nas linhas da frente.

Para melhor compreender a importância deste romance no âmbito da literatura de guerra, é preciso não esquecer que foi publicado pela primeira vez em 1955. Ou seja, apenas dez anos após o cessar das hostilidades, e numa época onde a guerra projectada para a opinião pública pouco mais era que as pistolas de 1001 tiros de John Wayne e os mortos sem sangue das películas de Hollywood. Perante o romanceado combate no campo de batalha, cuja forte influência da herança propagandística trazida dos tempos da II Guerra Mundial, o conto deste jovem alemão de apenas 34 anos não poderia deixar de causar impacto.

Na altura, a crítica delirou com esta forma revolucionária de contar a guerra. O autor viu-se guindado a figura incontornável do panorama literário germânico, gozando do pioneirismo na coragem de assim contar as coisas que viu e sentiu. Contudo, nos dias de hoje, muito desse brilho se apagou aos nossos olhos, ofuscado por uma série de interpretações literárias e cinematográficas que banalizaram a descrição gráfica da guerra.

O título dado em Portugal — Os Órgãos de Estaline — a esta obra que no original se chama Die Stalinorgel, carece de um esclarecimento para os menos versados nestas matérias: os órgãos de Estaline consistiam num sistema lança-foguetes montado em cima de um vulgar camião, que emitiam um sinistro silvo, de grande impacto, sobretudo psicológico. A título de curiosidade podemos referir que tais órgãos de Estaline não têm qualquer papel no romance em foco.

Apesar do impacto que a obra teve em meados dos anos 50 não poder ser naturalmente reproduzido nos dias de hoje, talvez a Ulisseia devesse apostar na edição dos restantes dois volumes que formam a trilogia da guerra, de Gert Ledig. São eles Vergeltung (A Vingança), de 1956, e Faustrecht (O Direito do Mais Forte), de 1957. Até por uma questão de coerência, porque, para o bem e para o mal, uma trilogia devia ser inseparável.

A tradução de Paulo Osório de Castro encontra-se a um bom nível, merecendo um respeito acrescido pelas naturais dificuldades oferecidas pela linguagem rude e pelo calão técnico com que o autor recheia todas as suas páginas.

Ricardo Ribeiro
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