Um Outro Olhar Sobre o Mundo
Junho de 2003 ⋅ Ensino da filosofia

Um mau olhado sobre a filosofia

Júlio Sameiro
Um Outro Olhar Sobre o Mundo, de Maria Antónia Abrunhosa e Miguel Leitão
Edições Asa, 2003

Penso que este manual vai ser um dos mais adoptados e por várias razões. Uma é a imagem que consegue veicular de organização e simplicidade. Vejam-se, a este respeito, a série de títulos e subtítulos do Módulo Inicial que denota a preocupação, conseguida, de evitar a típica terminologia pretensiosa. Folheando o módulo, encontramos ainda a preocupação de evitar, para cada item, desenvolvimentos excessivos seja em quantidade seja em complexidade.

Mas estas virtudes não são suficientes para tornar este manual um bom instrumento de trabalho.

Em primeiro lugar evitou cumprir o programa ao não incluir, no módulo inicial qualquer esclarecimento sobre o trabalho filosófico e os seus instrumentos. Esclarecimento que o programa requer que seja sobretudo prático.

Em segundo lugar insistiu numa apresentação da Filosofia que acabou por fugir à simplicidade pedida pelo programa pelo número de coisas que acaba por declarar serem necessárias para caracterizar a filosofia. Mais uma vez o estudante não vai compreender que a Filosofia é uma actividade de exame e debate de princípios e que propõe sobretudo o aperfeiçoamento do seu filosofar espontâneo. Em vez de filosofar, isto é, em vez de lidar com problemas, respostas e argumentos da filosofia, estará soterrado numa matéria em tudo exterior a essa actividade.

Em terceiro lugar deve ser criticado o facto de que os itens apresentados para caracterizar a filosofia serem apenas uma receita, uma das possíveis colecções de expedientes para pessoas que não sabem o que é a Filosofia mas são obrigadas a caracterizá-la. Isto explica por que razão este manual, como muitos outros, insiste em incluir uma caracterização que a revisão excluiu do programa, como a conversa da autonomia, radicalidade e universalidade do filosofar.

Finalmente resta provar que estes defeitos do manual derivam do mesmo erro científico básico: a incompreensão da especificidade dos problemas da Filosofia.

Na página 48, os autores consideram não filosófica a seguinte pergunta:

— Qual a forma mais aceitável de distribuir as riquezas?

E justificam esta exclusão dizendo que a resposta poderá vir a ser dada por especialistas do campo da ciência e da técnica.

Isto é um erro grave. Como é que um economista, por exemplo, pode responder àquela pergunta? Interpretando "aceitável" de uma maneira particular, operatória. Por exemplo: "Quais as formas de distribuição de riqueza que não põem em causa o actual modelo económico?" ou "Quais as formas de distribuição de riqueza que podem promover os objectivos económicos e sociais A, B e C?" Mas é aquele modelo aceitável? E são aqueles objectivos A, B e C os mais aceitáveis?

Não pode ser o economista, enquanto economista, a responder a estas novas perguntas porque elas nos arrastam para a discussão de princípios. Não vejo como possa ter passado na cabeça dos autores a ideia de que cabe à ciência e à técnica dar uma resposta consensual a tais perguntas. Pelo menos deviam ter visto que, na prática, é o político que responde e que os políticos não respondem (ou não deviam responder) sem uma filosofia da justiça, das desigualdades, da equidade... e que essas teorias são filosóficas.

E poderiam ter suspeitado de que algo não estava bem se tivessem lido o seu próprio manual! Por exemplo: nas páginas 184 a 186 expõem a posição de Rawls sobre a justiça como equidade. Francamente se, depois de discutida a teoria de Rawls, um aluno me dissesse que a distribuição mais aceitável de riqueza é uma questão técnica e científica, ponto final, a minha vontade de o reprovar seria imensa.

Júlio Sameiro

Texto retirado de Filosofia e Educação
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