História da filosofia

Seriedade e autoridade

Leônidas Hegenberg
A Filosofia Brasileira Contemporânea, de António Paim
Estudos Complementares à História das Ideias Filosóficas no Brasil, volume 7
Centro de Estudos Filosóficos de Londrina, 2000, 313 pp.

Na dependência de quem a emprega, a expressão "pensamento brasileiro" adquire diversos significados. Para uso presente, imaginemos que a expressão tenha em conta autores brasileiros (ou estrangeiros radicados no Brasil) que hajam publicado livros e ensaios gravitando em torno de temas filosóficos — seja em sentido estrito, seja abrangendo aspectos antropológicos, históricos, políticos, sociológicos, seja, ainda, tangenciando-os mediante análise de assuntos como, digamos, a economia, o direito, os estudos biográficos, a filosofia da ciência.

Poucas vezes terá alcançado maior amplitude do que nos escritos de António Paim, a tarefa (um tanto ingrata) de traçar a história e analisar a importância do "pensamento brasileiro", investigando os autores e as obras que lhe dão contornos. Com efeito, Paim se dedica a esse mister há mais de quarenta anos. Celebrizou-se, como sabido, por sua História das Ideias Filosóficas no Brasil, de l967 — cuja 5.a ed., muito ampliada, surgiu em 1997 e lhe valeu dois prêmios, recebidos em 68 (INL) e em 85 (Jabuti).

Paim é pesquisador de reconhecidos méritos. Nessa condição, granjeou fama com seus estudos a respeito de Tobias Barreto (1972), do Marquês de Pombal (1982), de Oliveira Viana (1989) e da política do País — estes nascidos e desenvolvidos em um curso de Introdução ao Pensamento Político Brasileiro, ministrado na Universidade de Brasília, para o qual ele e Vicente Barreto prepararam um texto básico, de sete volumes (UnB, 1982). Paim voltou a abordar o tema escrevendo, em 1989, o tratado Evolução do Pensamento Político Brasileiro.

Não se deve esquecer o imenso trabalho de Paim, junto ao CDPB (Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro), onde organizou uma importantíssima Bibliografia Filosófica Brasileira, em dois volumes, abrangendo os períodos de 1801-1930 e de 1931-1977, este com 2.a edição ampliada. E não é possível deixar de mencionar o fato de que Paim, a par disso tudo, é especialmente habilidoso ao agir como orientador de numerosos discípulos — que, aliás, se têm encarregado de alargar os estudos do mestre, buscando as minúcias em condições de completar os "quadros" por ele esboçados.

Paim escreveu vários ensaios curtos, como, digamos, O Krausismo Brasileiro (1996, 31 pp.); vários livros de tamanho médio, como, por exemplo, Fundamentos da Moral Moderna (1994, 144 pp.) e Problemática do Culturalismo (1977, 2.a ed. 1995, 196 pp.); assim como longos estudos, como a História da Ideias Filosóficas no Brasil (de 760 pp.) e a Evolução do Pensamento Político Brasileiro (de quase 500 páginas).

Como se isso não bastasse para colocar Paim no posto de maior investigador do pensamento brasileiro, cabe lembrar que, infatigável, ele se tem dedicado a preparar diversos "estudos complementares", destinados a atualizar sua História das Ideias Filosóficas. Até o momento, seis estudos já foram distribuídos — e um sétimo, relativo à escola cientificista brasileira, está prestes a ser concluído. Focalizam "os intérpretes da filosofia brasileira", "as filosofias nacionais", as "etapas iniciais da filosofia brasileira", a "escola eclética" e a "filosofia contemporânea". Não custa notar que os seis volumes colocados nas livrarias já totalizam 1330 páginas!

O livro que ora comentamos é, justamente, o volume sete desses estudos complementares. Aproveitando resenhas e artigos publicados em jornais e revistas, conferências pronunciadas em diversas ocasiões, assim como algumas introduções a livros de outros autores, juntando farto material novo, Paim faz, no presente livro, um importante balanço das contribuições de muitos pensadores brasileiros de nossos dias.

Depois de rápida visão geral (cap. 1, cerca de 20 páginas), em que aponta aspectos do neopositivismo, do realismo, do tomismo, do marxismo acadêmico e de algumas outras vertentes contemporâneas, Paim passa a uma análise pormenorizada das contribuições de autores dessas várias correntes de pensamento.

No capítulo 2 (outras 20 pp.), investiga a "filosofia da ciência". Aponta incongruências da sociologia de Florestan Fernandes e ressalta escritos de Milton Vargas, Alberto Oliva, Mário Guerreiro e Leônidas Hegenberg. Em seguida (cap. 3, o mais longo da obra, 56 pp.), analisa o culturalismo, com minuciosa apresentação das ideias originais de Miguel Reale, assim como das discussões de Djacir Menezes e Ricardo Velez Rodriguez. O movimento fenomenológico é objeto de atenção no capítulo 4 (18 pp.), em que aparecem comentários em torno de alguns de nossos mais conhecidos adeptos de Husserl — como Leonardo van Acker, Creusa Capalbo e Machado Neto. No capítulo seguinte, em 36 páginas, Paim se volta para os existencialistas, concentrando-se muito especialmente nas figuras de Emmanuel Carneiro Leão e Vicente Ferreira da Silva. O capítulo se encerra com longa e apreciada análise das ideias de Adolpho Crippa, relativas à cultura. Nas 49 páginas seguintes (cap. 6), Paim comenta o tomismo e o neotomismo que no Brasil tiveram, como figuras de maior relevo, o mesmo van Acker, Urbano Zilles, João de Scantinburgo (adepto de Blondel), Monsenhor Emílio Silva, José Pedro Galvão de Sousa e Don Odilão Moura. Complementando as análises anteriores, Paim devota o capítulo 7 (24 pp.) aos "orteguianos", entre os quais destaca Gilberto de Mello Kujawski e Ubiratan Macedo — que se destaca na condição de conhecedor do liberalismo e da justiça social (título de um de seus recentes livros, publicado em 1996).

Completando seu "quadro" de mais notáveis vultos da filosofia brasileira contemporânea, Paim devota o capítulo 8 (33 pp.) a certos "pensadores desgarrados" (Renato Cirell Czerna, Almir de Andrade e Roque Spencer Maciel de Barros) e o capítulo 9 (oito páginas) a três "perdas assinaláveis" (Machado Neto, Geraldo Pinheiro Machado e Dumerval Trigueiro Mendes).

As 40 e poucas páginas finais do livro contêm comentário em torno do ensino da filosofia e levantamento das principais instituições filosóficas existentes no Brasil. A propósito do ensino, adotando perspectiva há muito defendida pelo filósofo Rodolfo Mondolfo, ressalta que uma compreensão do curso histórico da filosofia depende de substituir a visão baseada em "sucessão de sistemas" pela visão assentada em "problemas". A isso, Paim acrescenta: "Em todas as áreas em que a filosofia permaneceu fiel a si mesma e não se colocou ao serviço da religião e da política, desenvolveu-se em torno de problemas."

Quanto às instituições, Paim fala da Sociedade Brasileira de Filosofia (fundada no Rio de Janeiro, em 1927, presidida por Moreira Guimarães) e da Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos (fundada em 1970 por Stanislavs Ladusans e presidida, a partir de 1975, por Tarcisio Padilha). Dedica uma parte do capítulo ao Instituto Brasileiro de Filosofia (criado em 1949 e até hoje dirigido por Miguel Reale, a quem se deve a pontualidade da publicação da Revista Brasileira de Filosofia, com 200 fascículos que retratam aspectos fundamentais do desenvolvimento da filosofia em nosso País) e, enfim, ao Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, com sede na Bahia (estruturado em 1982 e presidido pelo próprio António Paim).

Tendo em conta que qualquer estudioso de filosofia terá tido contato com obras de pelo menos meia dúzia dos autores comentados neste livro; tendo em conta que as análises aqui reunidas revelam a seriedade e a autoridade do autor; tendo em conta, ainda, que Paim não esconde suas preferências (e algumas poucas antipatias), a obra é oportuna e de leitura agradável. Paim traz para perto de nós, as figuras que nos habituamos a encontrar em jornais, revistas e livros que tratam do pensamento brasileiro, dando-lhes "concretude", por assim dizer, transformando-as em pessoas que passamos a compreender melhor e cuja obra podemos, em seguida, apreciar em seu apropriado contexto.

Leônidas Hegenberg
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