A Ilha dos Papagaios, de Robert Margerit

Uma leitura modesta

Desidério Murcho
A Ilha dos Papagaios, de Robert Margerit
Tradução de Ana Maria Chaves
Bizâncio, 1997, 223 pp.

Este é um romance imperfeito, com muitas fragilidades narrativas, como um deficiente domínio do espaço e sobretudo do tempo e personagens pouco mais do que caricaturais (incluindo o personagem principal, narrador fictício da história). No entanto, lê-se com o gosto dos grandes livros de aventuras da nossa juventude.

A história passa-se nos finais do século XVII princípios do XVIII e descreve as aventuras de um jovem camponês francês que se junta a um grupo de piratas depois de ter sido injustamente condenado à morte. O ritmo das peripécias é alucinante, mas confina-se na sua maior parte ao mar das Caraíbas e à Ilha dos Papagaios que lhe dá o nome.

Por entre naufrágios, combates sangrentos, amores desvalidos, fraternidades e traições, perpassa um retrato um pouco grosseiro mas interessante da vida das gentes do mar. A leitura é compulsiva, sendo aconselhável sobretudo a jovens leitores pela rapidez da sua narrativa. Um leitor mais sofisticado fica ligeiramente desiludido, não tanto pelo romance em si, mas porque Julien Gracq afirmou ser este o único romance francês do pós-guerra que verdadeiramente lhe interessou (como se pode ler na contracapa da edição portuguesa). Depois de lermos o romance descobrimos que esta afirmação nos diz mais sobre a inanidade de Julien Gracq como literato, do que do romance em si. Qualquer comparação entre A Ilha dos Papagaios e alguns dos grandes romances franceses do pós-guerra, como os de Margerite Yourcenar, é ociosa, pois Robert Margerit perde sem apelo nem agravo. Não quero, no entanto, deixar a impressão de que se trata de um mau romance! Acontece apenas que não é uma obra-prima da literatura — mas é de uma leitura empolgante, é historicamente informativo e contém algumas observações interessantes sobre a natureza humana.

Desidério Murcho
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