O Pensamento Medieval, de David Luscombe

Leitura soporífera

Desidério Murcho
O Pensamento Medieval, de David Luscombe
Trad. de Lucília Rodrigues
Publicações Europa-América, 2000, 240 pp.

O panorama editorial filosófico de língua inglesa é riquíssimo, mas poucos são os livros que nos chegam. Há quem pense que a filosofia de língua inglesa é "mercantilista". Sempre que morre uma potência cultural e surge outra, há quem tenha medo das novidades; muitos autores gregos deploravam a filosofia em latim. Mais tarde, muitos autores latinos deploraram a filosofia em francês. Depois aconteceu o mesmo com a língua alemã. Tolices.

Este livro foi originalmente editado na excelente colecção "Opus" da Oxford University Press; infelizmente, trata-se de uma excepção a uma colecção que devia estar toda ela editada em português: é uma obra praticamente ilegível, escrita naquele estilo académico árido que parece um indício seguro da vacuidade mental dos respectivos autores, forçando também o leitor a deitar fora qualquer indício de pensamento ao mergulhá-lo na mais soporífera leitura. Mas o pior do livro é o facto de não estar escrito para o leitor comum, como deveria, mas para quem não precisa de ler esta obra introdutória: os especialistas. Este é um tique muito académico; é detestável. Um intelectual que seja incapaz de explicar de forma compreensível as suas ideias a uma pessoa com uma formação média, é um mau intelectual.

Abrangendo a filosofia dos séculos XI-XV, este livro é antecedido por 2 capítulos que traçam a evolução da filosofia pré-medieval, deste o século V. O autor é incapaz de expor um argumento, um problema ou uma ideia filosófica. As notas eruditas são inúteis. O livro é inútil. E é pena: a edição portuguesa foi feita com muito cuidado, o que é raro entre nós.

Desidério Murcho
Publicado em "Livros", Janeiro de 2001
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