Pensar e Agir, de João Cardoso Nunes
Junho de 2003 ⋅ Ensino da filosofia

O homem total

Álvaro Nunes
Pensar e Agir — Manual de Filosofia, 10.º ano, de João Cardoso Nunes, Francisco Torres e Eduardo Reisinho
Areal Editores, 2003

Ao lermos o primeiro capítulo, "Abordagem introdutória à filosofia e ao filosofar", do manual Pensar e Agir, de João Cardoso Nunes, Francisco Torres e Eduardo Reisinho, publicado pela Areal, ficamos com a impressão de que estamos perante um manual que prova ser possível fazer manuais de certa qualidade dentro de uma leitura tradicional, francófona, do programa. Ao contrário dos outros manuais da mesma linha, o discurso está bem organizado e o aluno encontra conteúdos para estudar. A exposição inicial é bastante superior à superficialidade vazia com que a maior parte dos manuais da mesma tendência abordam o programa.[1]

No entanto, as insuficiências inerentes a esta perspectiva da filosofia, acabam por se reflectir nos conteúdos do manual, em particular quando se trata de especificar o papel da lógica na filosofia. O que é dito a esse propósito comporta tantos erros e tão gritantes que as expectativas inicialmente criadas têm de ser completamente abandonadas. Assim, na página 34, diz-se o seguinte:

"A Filosofia necessita da Lógica, mas não está tão marcada por ela como a Ciência. E já explicámos porquê: é que a Filosofia está associada ao homem total, o que leva a que tenha que incorporar os valores humanos, os seus belos e feios, o que consideramos bom e mau, as nossas preferências, sentimentos, interrogações, espantos, prioridades, obsessões (relativas ao sentido da vida ou à falta de sentido, por exemplo), que, na maior parte dos casos, são realidades estranhas às ciências e à Lógica.

Por isso, mais que ligada à Lógica, a Filosofia está prioritariamente articulada com a linguagem comum, que, ao mesmo tempo que incorpora a Lógica, é mais rica e complexa que ela, e mais mergulhada da realidade humana total.

Há várias razões para o facto de a linguagem comum ser mais rica e adaptada aos fins da Filosofia do que uma linguagem baseada na Lógica:

― em primeiro lugar, e antes de mais, porque a Filosofia incorpora valores e juízos de valor, que não são redutíveis à Lógica, e em que a nossa linguagem está perfeitamente à vontade: é o caso de valores como o Bem, a Felicidade, a Justiça, o Importante, o Espiritual.

― em segundo lugar, porque a linguagem comum ultrapassa a Lógica. Ela usa metáforas, usa ironias, usa imagens, usa poesia, usa vocábulos polissémicos e ambíguos, usa processos que superam as regras lógicas. E isso, longe de a diminuir, permite-lhe uma expressividade e uma riqueza superior, que a Filosofia pode aproveitar.

― em terceiro lugar, pela necessidade que a Filosofia tem de recusar, a determinados níveis, a lógica bivalente, ou seja, a necessidade de recusar as regras lógicas que afirmam que uma coisa tem que ser falsa ou, então, verdadeira, e que não há a possibilidade de se ser e não ser, simultaneamente. Esta regra lógica é muito eficaz na maior parte dos domínios científicos, e é necessário e essencial à Filosofia, mas não tem um espectro universal. Há casos em que as realidades são e não são, simultaneamente. Exemplos: não devemos encarar a maioria dos animais como presas ou como predadores; eles são frequentemente presas e também predadores; do mesmo modo, o homem não tem que ser avaliados em termos de bom ou mau: ele é bom e é mau, o homem pode ser bom, e grandioso, e elevado, e extraordinário, em muitos momentos, ou em certa perspectiva, e, por outro lado, mau, e mesquinho, e baixo, e animal e banal, em muitos outros momentos ou perspectivas. A linguagem comum tem virtualidades que outras linguagens não têm."

São tantos os erros desta passagem que é impossível mostrá-los a todos, mas vejamos alguns. Assim, é falso dizer que

"A Filosofia necessita da Lógica, mas não está tão marcada por ela como a Ciência."

É o contrário que acontece. A filosofia está mais marcada pela lógica do que a ciência. Pelo menos se por "marcada" entendermos "ligada" ou "dependente", que perecem ser os sentidos que ela pode aqui assumir. A razão está no facto de na maior parte das ciências ser possível recorrer à experimentação para testar as teorias, enquanto na filosofia isso não é possível. Por exemplo, não podemos recorrer à experiência para a testar a tese utilitarista de que "uma acção boa é aquela que traz maior felicidade ao maior número de pessoas", uma vez que é impossível fazê-lo sem pressupor a própria tese (ou uma qualquer outra tese do mesmo nível). Assim, os filósofos dependem mais da lógica do que os cientistas.

Os cientistas também atribuem uma grande importância a factores de carácter lógico como, por exemplo, a consistência das teorias. Isso é importante, mas frequentemente insuficiente, uma vez que uma teoria pode ser consistente sem ser verdadeira[2]. Assim, quando tenta determinar qual de várias teorias consistentes é verdadeira, o cientista pode, na maior parte dos casos, fazer experiências. O filósofo, numa situação idêntica, não o pode fazer e tem, por isso, de recorrer a argumentos com que mostre que dessa teoria resultam consequências absurdas ou improváveis, expondo, por essa via, a insuficiência da teoria. Como os argumentos são o objecto de estudo da lógica isso explica o grande interesse que os filósofos têm nela.

Poderão eventualmente existir razões para que "a Filosofia [tenha] de recusar, a determinados níveis, a lógica bivalente", isto é, regras como o princípio da não contradição, mas elas não serão, certamente, as que os autores ilustram com exemplos como

"não devemos encarar a maioria dos animais como presas ou como predadores; eles são frequentemente presas e também predadores;"

ou que

"o homem não tem que ser avaliado em termos de bom ou mau: ele é bom e é mau, o homem pode ser bom, e grandioso, e elevado, e extraordinário, em muitos momentos, ou em certa perspectiva, e, por outro lado, mau, e mesquinho, e baixo, e animal e banal, em muitos outros momentos ou perspectivas."

Porque em nenhum destes casos se viola o princípio da não contradição. Vejamos o que se passa com o primeiro caso. O manual parece considerar que a aplicação do princípio da não contradição obriga a afirmar que

A maioria dos animais são presas ou a maioria dos animais são predadores

porque a afirmação

A maioria dos animais são presas e a maioria dos animais são predadores

seria uma contradição. Isto, no entanto, é falso, como a lógica, numa confirmação adicional da sua utilidade para pensar com clareza e correcção, pode facilmente tornar evidente. O princípio da não contradição diz que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo e na mesma situação ou na formulação da página 32, um juízo A não pode ser simultaneamente verdadeiro e falso. Violar este princípio seria, portanto, dizer que uma coisa pode ser e não ser ao mesmo tempo e na mesma situação (ou que um juízo A pode ser simultaneamente verdadeiro e falso). Por exemplo, dizer

o homem é e não é animal

ou melhor,

o homem é animal e o homem não é animal

violaria o princípio da não contradição. Simbolizemos "o homem é animal" por P, isto é, substituamos todas as ocorrências de "o homem é animal" por P. Uma vez que "o homem não é animal" é apenas a negação de "o homem é animal", a afirmação "o homem é e não é animal", simboliza-se, então, assim:

P e não P

É fácil ver que estamos perante uma contradição, isto é, uma violação do princípio da não contradição. "P e não P" é sempre falsa. Se "P" é verdadeira "não P" é falsa e vice-versa. Quando uma proposição viola o princípio da não contradição é sempre falsa para todos os valores de verdade das proposições que entram nela.

Acontece o mesmo com a proposição "A maioria dos animais são presas e a maioria dos animais são predadores"? Simbolizemos "A maioria dos animais são presas" com P. Para termos uma contradição teríamos de, uma vez mais, ter

P e não P

mas neste caso que estaríamos a dizer? Isto:

A maioria dos animais são presas e a maioria dos animais não são presas

o que é uma afirmação muito diferente de

A maioria dos animais são presas e a maioria dos animais são predadores

uma vez que dizer "A maioria dos animais não são presas" não é o mesmo que dizer "A maioria dos animais são predadores". Na verdade, para simbolizarmos "A maioria dos animais são presas e a maioria dos animais são predadores" precisamos de atribuir uma letra, por exemplo, Q, a "A maioria dos animais são predadores", para podermos simbolizar

P e Q

"P e Q" não é contraditória. É consistente. "P" e "Q" podem ser ambas verdadeiras. E não só podem como são, uma vez que a maior parte dos animais são de facto ao mesmo tempo presas e predadores.

Assim, ao contrário do que o manual afirma, não é preciso abandonar a lógica bivalente e, em particular, o princípio da não contradição, para poder trabalhar com afirmações do tipo

A maioria dos animais são presas e a maioria dos animais são predadores

Pelo contrário, não só é possível usar esta lógica, como isso nos permite evitar confusões como estas. Daí a imensa utilidade da lógica para a filosofia.

O mesmo é verdade de forma ainda mais gritante do outro exemplo dado no manual, a saber:

"o homem não tem que ser avaliado em termos de bom ou mau: ele é bom e é mau, o homem pode ser bom, e grandioso, e elevado, e extraordinário, em muitos momentos, ou em certa perspectiva, e, por outro lado, mau, e mesquinho, e baixo, e animal e banal, em muitos outros momentos ou perspectivas."

Os próprios autores afirmam que o homem é muitas coisas "em muitos momentos, ou em certa perspectiva" e muitas outras "em muitos outros momentos ou perspectivas". Mas se isto é assim não há qualquer violação do princípio da não contradição, uma vez que o facto do homem ser coisas diferentes e até opostas não ocorre "ao mesmo tempo e na mesma situação", condição necessária para que esse princípio fosse violado.

Quando os autores, a propósito de coisas tão importantes para a filosofia como as que acabámos de ver, cometem erros e fazem confusões tão clamorosas, como é que alguém pode adoptar este manual?

Álvaro Nunes
Texto retirado de Filosofia e Educação

Notas

[1] Isto é sobretudo verdade no item "O que é a filosofia?", em que neste manual, como noutros, se recupera, sem que se perceba porquê, alguns dos conteúdos do programa de Filosofia de 1979.

[2] Uma teoria é constituída por uma ou mais afirmações. Nos casos em que a teoria é constituída por várias afirmações diz-se que é consistente se essas afirmações puderem ser todas verdadeiras ao mesmo tempo. Dizer que uma teoria é consistente é equivalente a dizer que não encerra uma contradição. Mas o facto de uma teoria não ser contraditória não acarreta que seja verdadeira. Por exemplo, "A relva é vermelha e o céu é verde" é consistente e falsa.

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