Perdeu-se Metade do Universo, de Jean-Pierre Petit
Livros

Por que não explodem as galáxias?

Pedro Galvão
Perdeu-se Metade do Universo, de Jean-Pierre Petit
Instituto Piaget, 1999, 199 pp.

Jean-Pierre Petit, investigador no CNRS, sugere-nos que metade do universo tem andado perdida, mas que há boas razões para esperar encontrá-la num futuro próximo. Esta ideia, que corresponde a postular um "universo-sombra" que coabita com o nosso, é esclarecida e avaliada em "Perdeu-se Metade do Universo". É uma ideia que pode parecer extravagante, sem dúvida, mas Petit mostra-nos que ela não se reduz a uma fantasia cientificamente infundada. Vale a pena perceber porquê.

Na primeira das duas partes do livro, Petit procura fazer o "ponto da situação". Concentrando-se na estrutura a grande escala do universo, apresenta, à semelhança de muitos outros livros de divulgação, o modelo "standard" que tem dominado a cosmologia do nosso século. Mas Petit não fica por aí. O seu objectivo principal, que imprime a este livro uma ênfase pouco habitual nas obras de divulgação, é evidenciar os pontos fracos desse modelo.

Por que não explodem as galáxias? Como se formam e a que se deve a sua estrutura em espiral? Por que razão, contrariamente ao que seria de esperar, não se observa a antimatéria primordial? E por que apresenta o universo uma "estrutura lacunar", na qual as galáxias se agrupam em torno de grandes bolhas de vazio? A nada disto o modelo "standard" consegue responder satisfatoriamente. E, para além disso, esse modelo não consegue dissolver anomalias graves, suscitadas em grande parte pelas observações do Hubble. Devido as essas observações, reduziu-se a idade do universo para um máximo de 10 mil milhões de anos, o que se torna estranho quando se sabe que existem estrelas com 15 mil milhões de anos. Tudo isto deixa bem claro que "é preciso inventar qualquer coisa inédita, dotar o universo de um novo componente ou... de uma nova estrutura".

Com este desafio entramos na segunda parte do livro, que nos introduz numa "nova guerra das estrelas". O resultado desta guerra permanece imprevisível, mas podemos identificar e comparar os seus protagonistas: a matéria escura e a matéria-sombra. Os partidários da matéria escura, na sua tentativa de encontrar o "ingrediente suplementar" exigido pelas debilidades do modelo "standard", seguem a abordagem conservadora. Acreditam que toda a matéria necessária para efeitos explicativos está aqui, no nosso universo. O problema é apenas encontrá-la em quantidade suficiente.

Os defensores da abordagem mais "exótica" supõem, pelo contrário, que a matéria em falta reside num "universo-sombra" — um universo invisível, que "só interagiria com o nosso através da gravitação". Este universo, declara Petit, "está para o nosso como uma imagem num espelho. O tempo corre aí... ao contrário. Está repleto de partículas portadoras de cargas eléctricas opostas". Quando se supõe que a nossa matéria e a matéria-sombra se atraem, acaba por não haver grande diferença em relação ao modelo da matéria escura. Mas, salienta Petit, se presumirmos que há repulsão entre os dois tipos de matéria, ficaremos com um modelo do universo com grande poder explicativo e um futuro muito promissor. O Hubble e o seu sucessor, o Hubble 2, poderão em breve decidir o destino deste modelo.

Obviamente, como Petit não deixa de insistir, a teoria do "universo sombra" tem, por agora, um carácter bastante especulativo, embora seja proposta por investigadores notáveis, como o Prémio Nobel Abdus Selam. Mas, felizmente, isso não é razão para não a examinar fora do pequeno círculo dos especialistas competentes para a avaliar. Em "Perdeu-se Metade do Universo", Petit mostra como a divulgação científica séria não tem de se restringir à apresentação dos resultados já estabelecidos; esta também pode (e deve) deixar claro como a ciência está continuamente a transformar-se. Petit conclui o livro, sugestivamente, citando Borges: "A ciência talvez seja apenas a forma mais elaborada da literatura fantástica."

Pedro Galvão
p.m.galvao@gmail.com
Texto publicado no Público, 15 de Janeiro de 2000
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