Philosophy of Mind, de William Bechtel
Filosofia da mente

Intencionalidade e cognição

Leônidas Hegenberg
Philosophy of Mind, de William Bechtel
Lawrence Erlbaum, 1988, 162 pp.
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Bechtel nos oferece uma visão geral dos problemas que têm caracterizado uma área que, em inglês, se conhece como philosophy of mind. Faz um levantamento das questões dessa área e descreve as principais teorias ai debatidas — advogadas por alguns especialistas e combatidas por outros.

Tendo em conta os interesses de estudiosos da cognição, vários problemas da "filosofia da mente" são relevantes. Com efeito, quem se preocupa com a cognição, precisa "tomar pé" ante as dificuldades colocadas pela intencionalidade, precisa decidir sobre a maneira de identificar eventos mentais e não pode ignorar questões relativas às relações corpo/mente.

Bechtel comenta essas questões, procurando simplificar a atuação de cognitivistas que desejem participar dos debates ultimamente havidos, capacitando-se a contribuir com alguma parcela na construção de alicerces para futuros entendimentos interdisciplinares.

No primeiro capítulo, o autor apresenta idéias que pensadores do passado defenderam, exercendo influência sobre o que hoje se entende por filosofia do espírito e por cognição. Rápida alusão a Sócrates, Platão e Aristóteles conduz aos "racionalistas" (Descartes, Leibniz e Espinosa) assim como aos "empiristas" (Locke, Berkeley e Hume), para culminar com mais pormenorizada visão das idéias de Kant. O capítulo termina traçando breve contraste entre filosofia "continental" (sobretudo da Alemanha e da França) e "corrente analítica" (Grã Bretanha).

O capítulo segundo se volta para a linguagem, principalmente pelo prisma da filosofia analítica. Idéias de Frege e Russell são apresentadas. É minuciosa a análise das contribuições de Wittgenstein. Mais curtos, embora adequados, são os resumos dos trabalhos de Austin, Searle, Grice (teorias dos atos de fala); Quine, Davidson (concepções holistas); Kripke e Putnam (teorias da referência). A tais noções, os capítulos seguintes fazem freqüentes alusões.

Os capítulos 3 e 4 focalizam a delicada questão da intencionalidade, vista por muitos como o traço caracterizador dos fenômenos mentais. O primeiro desses capítulos está bem feito. São claramente descritas as posições de Brentano e de Chisholm (e seu critério lingüístico para entender a intencionalidade), assim como as tentativas feitas no sentido de negar a realidade da intencionalidade (e.g., as de Quine, defensor de uma linha estritamente comportamentalista no exame de questões e fenômenos psicológicos). O capítulo 4 focaliza, em sucessão, várias teorias do espírito: 1) computacionais (Fodor); 2) das representações mentais, porém sem computação (Dennett; Churchland); 3) de base na informação (Dretske); 4) da "redução à biologia" (Searle); e 5) da "intentional stance" (Dennett). Este item 5 foi bem posto pelo autor. Os itens 3 e 4, porém, não foram apresentados de modo claro. Senti certa dificuldade para acompanhar o autor e entender os pontos por ele criticados. Leitores familiarizados com os problemas postos em tela, estarão, por certo, em melhores condições do que eu para superar as dificuldades que se puseram aos meus olhos.

Os capítulos 5 e 6 discutem o problema corpo/mente. Esse problema, como se reconhece, em geral, chegou a nós por intermédio de Descartes. É a questão mais debatida, provavelmente, na área da "philosophy of mind". Numerosas soluções foram aventadas. Bechtel analisa algumas, preocupando-se com as repercussões que possam ter tido sobre as ciências da cognição. No capítulo 5, a atenção se dirige para as "teorias dualistas", segundo as quais os corpos seriam "coisas" inteiramente diversas dos espíritos — o que (pelo menos aparentemente) impediria explicar atividades mentais por meio da ciência natural. Ainda nesse capítulo, Bechtel examina o comportamentalismo, ou seja, o behaviorismo filosófico, uma das primeiras tentativas de superar o dualismo. Já o capítulo 6 se volta para certas visões materialistas, segundo as quais os chamados "estados mentais" seriam "estados do cérebro". Três formas específicas do materialismo são examinadas.

A cognição colocou alguns problemas para a filosofia do espírito, hoje muito debatidos. Esse é o tema do capítulo final do livro de Bechtel. Segundo o autor, os especialistas em cognição procuram caracterizar eventos mentais em termos de sua eficácia causal, isto é, em termos de suas conseqüências práticas. O objetivo do funcionalismo seria, precisamente, entender esse modo de identificar e classificar os eventos mentais. Depois de formular algumas variantes e algumas críticas, o capítulo se encerra com a observação de que o funcionalismo seria a linha dominante na análise de eventos mentais (na contemporânea filosofia do espírito).

Philosophy of mind contém uma ótima lista de "References" (treze páginas); uma completa lista de nomes de autores citados (três páginas); e curto (muito curto) índice de assuntos (duas páginas).

Bechtel priorizou 1) a possibilidade de caracterizar a intencionalidade com recursos da ciência "natural"; 2) as relações cérebro/espírito; 3) a maneira de identificar eventos mentais. Deixou de lado certas questões típicas da "philosophy of mind", como, digamos, 4) o problema do "inatismo" (o conhecimento seria inato?); e 5) o problema das imagens mentais (como se formam e como se preservam?). Apesar da importância dessas questões "não examinadas", os temas focalizados por Bechtel são relevantes e sua análise é bem feita. Isso permite recomendar a leitura deste seu livro. Aos interessados, notar que Bechtel anunciou mais um livro, complementar deste, intitulado Philosophy of science: an overview for cognitive science, que também pode ser de leitura compensadora.

Leônidas Hegenberg
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