Le Philosophe et le Réel, de Jacques Bouveresse
19 de Agosto de 2004 ⋅ Filosofia

Filosofia de café

Aires Almeida
Le Philosophe et le Réel: Entretiens avec Jean-Jacques Rosat, de Jacques Bouveresse
Hachette, 263 pp.
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Eis um livro bastante mais interessante do que, à primeira vista, poderia parecer. Isto porque apesar de se apresentar como uma autobiografia intelectual do filósofo Jacques Bouveresse e de se tratar, afinal, de uma sequência de entrevistas por ele concedidas a um professor liceal parisiense, o que podemos encontrar no livro acaba por ser uma crítica impiedosa e elucidativa do actual panorama filosófico francês e do tipo de filosofia que aí se pratica.

Acontece que as suas críticas nunca são gratuitas nem levianas. Bouveresse mostra de forma clara e fundamentada que a comunidade filosófica francesa mais parece uma “comunidade de crentes” sempre pronta a “adorar os santos e heróis do momento”, do que com uma verdadeira comunidade filosófica. Heróis que, declara, gozam de um estatuto que os “subtrai definitivamente à crítica racional”. Bouveresse conhece como poucos a comunidade filosófica francesa e não se escusa a dar exemplos quando eles são precisos, procurando pôr a nu os mitos e preconceitos filosóficos em que tal comunidade se apoia.

Assim, a leitura do livro, para além de largamente informativa, tem um inegável interesse metafilosófico, pois o que nele se verifica é o confronto de duas diferentes concepções de filosofia: a filosofia continental, maioritariamente praticada em França (e também em outros países), e a filosofia analítica, aqui exemplificada pelo próprio Bouveresse e, segundo ele, hostilizada no país que se autoproclama o país da filosofia.

Deve, contudo, dizer-se que Bouveresse não desenvolve as suas críticas sem algumas cedências ao estilo continental. É o caso do próprio título "Le Philosophe et le Réel", que dificilmente se imagina como um título de filosofia analítica. Ou o caso das inúmeras citações e referências a outros filósofos, mesmo que associados à tradição analítica: Wittgenstein, Frege, Russell, Carnap. E ainda a referência a escritores não filósofos: Musil, Kraus, Valéry. Mas estas cedências parecem compreensíveis, se não mesmo intencionais, pois sem elas talvez as suas ideias não viessem a suscitar qualquer interesse num público para quem as citações e as referências literárias são marcas de distinção intelectual. Numa coisa, no entanto, não cede ao estilo continental: não utiliza uma linguagem inflamada, rebuscada e cheia de tecnicismos dispensáveis.

Mas olhemos mais de perto para cada uma das entrevistas que constituem os dez capítulos do livro.

No primeiro capítulo, “Ironia e sátira”, Bouveresse apresenta-se como um partidário dos ideais iluministas, no sentido em que só através da discussão racional de ideias se pode alcançar algum resultado filosoficamente relevante. Por isso diz ser um racionalista. Só que qualifica o seu racionalismo de “irónico” e até de “satírico”, pois a ironia e a sátira parecem-lhe as formas de intervenção mais adequadas num ambiente intelectual que exibe o seu ódio à discussão racional de ideias, como acontece, por exemplo, com figuras tão destacadas como Gilles Deleuze. Por isso, argumenta que a defesa dos ideais iluministas é tão mais importante quanto impopular, dada a permanente suspeita de autoritarismo de que a razão é vítima em França. Considera que tal situação é o resultado do excesso de dramatização relativamente à ausência de fundamento para o conhecimento, e refere o desconstrucionismo de Derrida como exemplo de um pensamento demasiado obcecado com a questão dos fundamentos. O ambiente filosófico francês é, assim, caracterizado como um ambiente de desencanto; o desencanto de quem exigiu demasiado à razão e retira agora consequências catastróficas das suas próprias decepções. A isso contrapõe Bouveresse uma filosofia sem soluções extremas, com gosto pela precisão e feita de pequenos passos.

No segundo capítulo, “Um realismo sem metafísica”, Bouveresse defende uma espécie de realismo naturalista com pretensões ao conhecimento da realidade objectiva, ao mesmo tempo que combate todas as formas de idealismo e de relativismo. Argumenta que a ciência é o modelo desse tipo de realismo, recusando as mistificações que filósofos como Bachelard ou Kuhn constróem acerca da ciência, assim como a ideia de Rorty segundo a qual a diferença entre as ficções literárias e as teorias científicas é cada vez mais ténue. A sua rejeição da metafísica é justificada, de forma algo simplista, como a recusa em teorizar num sentido que não seja o da reabilitação da realidade comum e quotidiana.

O terceiro capítulo, “Do Jura ao Quartier Latin”, é de todos o mais autobiográfico. Não deixa, contudo, de ser curioso assistir ao relato do percurso de alguém que, como Bouveresse, é oriundo de um meio rural francês (Jura) e que, ao chegar a Paris, fica fortemente decepcionado com um sistema que consagra tantos “pseudo-génios”. Confessa mesmo que a sua tendência para o uso frequente de citações surgiu como uma consequência da necessidade de ser aceite como erudito num meio intelectual em que a palavra de ordem era, e ainda é: “diz seja o que for, que alguma coisa há-de sair”.

O quarto capítulo, “Tempo de opções”, ainda que marcadamente autobiográfico, faz uma caracterização impiedosa do ambiente filosófico parisiense dos anos 60-70: do “dogmatismo insuportável” característico da filosofia política de Althusser, cuja intolerância se manifestava na sentença que impunha como única alternativa desenvolver "a ciência marxista" ou então "dedicar-se à bricolagem"; da filosofia feita de palavras de ordem e do ódio ao apolitismo aparente dos filósofos anglo-saxónicos, suspeitos de defender a democracia liberal; da presunção ridícula de que a “epistemologia constituía uma especialidade francesa cuja criação resultava da noção de "ruptura epistemológica"”, sendo necessário, nesse caso como noutros, “comprar produto francês”; da desconfiança instintiva em relação à lógica, considerada repressiva; da ideia de que a filosofia tinha de prestar contas à psicanálise; da verdadeira obsessão pela teorização, da qual nada mais resultava senão “teorias sem factos”; da defesa de uma concepção doutrinária da filosofia, esvaziando a filosofia enquanto actividade; da utilização disparatada e abusiva de conceitos científicos (reforçando as críticas feitas por Sokal e Bricmont) assim como o uso indiscriminado das metáforas e das analogias. Bouveresse resume tudo isso com a ideia de que “para ser sério e profundo, era praticamente indispensável tornar-se obscuro e até incompreensível”. Só que ao demarcar-se desse “ambiente irrespirável”, arriscou-se a ser visto como o “mau francês, o qual se recusa a pagar o tributo de admiração obrigatória às glórias filosóficas nacionais”. Mas o pior é que, observa, as coisas não mudaram muito entretanto.

No capítulo seguinte, “Filosofar”, Bouveresse desenvolve a ideia, já antes apresentada, do que considera ser a filosofia: uma actividade comprometida com a procura da verdade, independentemente de saber se daí resultam coisas novas, excitantes ou sedutoras” e capaz de avançar por um processo de correcção progressiva. Argumenta que o tipo de verdades alcançadas pela filosofia não é um tipo de verdades sui generis ou a priori, mas de verdades que não pertencem exclusivamente ao domínio da filosofia. Opõe-se à ideia, muito acarinhada em França, de que os filósofos não podem errar e que nunca dizem falsidades. Afirmar, como o faz Deleuze, que “um verdadeiro filósofo nunca discute” porque “cada filósofo cria os seus conceitos para resolver os seus problemas, podendo ser colocados outros problemas, mas nunca discutir as soluções”, nada tem que ver com a filosofia como actividade crítica. Talvez seja por isso que, em França, grande parte do trabalho filosófico acabe por se reduzir a um trabalho de justificação ou, pelo contrário, de desmistificação da filosofia. Ou seja, quase não se faz filosofia, mas metafilosofia.

O sexto capítulo, “Linguagem e mente”, começa por explicar o que está na origem da aversão francesa relativamente à filosofia analítica, a qual é vista como pouco mais do que lógica e filosofia da linguagem. Mostra como a influência de Saussure em França, nomeadamente a ideia de que o problema da referência não é um problema da linguística, levou a que os problemas de filosofia da linguagem não chegassem sequer a colocar-se. Desprezando problemas como os do “sentido” e da “referência”, formulados por Frege, o que fica é a autonomia e a autoreferencialidade da linguagem, pelo que há apenas que compreender as relações que as palavras estabelecem entre si. O que se faz em França não é, pois, filosofia da linguagem mas linguística. Em relação à filosofia da mente e às ciências cognitivas, Bouveresse mostra algumas reservas quanto ao que tem sido conseguido, convencido que está de que pouco se tem avançado para além de se terem encontrado algumas boas metáforas. Mas Bouveresse, neste aspecto, é pouco mais do que vago nas razões que apresenta.

“Matemática” é o capítulo seguinte. Bouveresse apresenta algumas das razões que o opõem ao realismo matemático, argumentando a favor de uma posição anti-realista. Procura mostrar que o seu realismo relativamente aos objectos físicos não é inconsistente com um anti-realismo matemático. Refere ainda que o problema do fundamento da matemática tem sido importante para a filosofia, na medida em que o conhecimento matemático tem sido frequentemente encarado como paradigma da certeza.

No capítulo oitavo, “A filosofia e as ciências”, Bouveresse insiste na ideia de que a verdade é sempre o objectivo a atingir, tanto para a filosofia como para a ciência. Aproximando-se do positivismo, que em França é um termo quase difamatório, defende a ciência como modelo de conhecimento. Mostra que o que em França se afirma acerca do positivismo não passa de uma simples caricatura e destaca figuras como Carnap que, segundo ele, têm muito mais interesse do que filósofos como Bachelard ou Kuhn. Acusa os filósofos da ciência franceses dos anos 60-70 de fazerem pouco caso daquilo que os próprios cientistas escreviam, o que era referido com alguma sobranceria intelectual como “filosofia espontânea dos cientistas”. Argumenta ainda contra algumas das teses radicais de Popper, que considera estarem na origem de posições cépticas como a de Rorty, se bem que considere meritório o esforço de Popper em mostrar que as concepções sociológicas e psicológicas acerca da descoberta científica (como as de Kuhn e outros) não respondem ao essencial: o problema da justificação das teorias científicas.

“História e moral” é o capítulo nono e, talvez, o menos interessante de todos. Em ralação à história, Bouveresse critica os sistemas de Hegel e Marx. Vai buscar a Robert Musil a ideia de que a história precisa de uma direcção (que está sempre a mudar), mas nunca de um fim, explicando o que isso significa. Em relação à moral, Bouveresse limita-se a fazer algumas vagas meditações num estilo continental, cujo alcance é pouco mais do que nulo.

No último capítulo, “Profissionalizar a filosofia”, argumenta, a partir da situação concreta da filosofia e do seu ensino em França, pela necessidade de tornar a actividade filosófica mais profissional. O que significa que deve procurar ser mais sóbria, mais rigorosa e mais eficaz. Defende uma concepção anti-heróica da filosofia e bate-se contra a ideia de que o filósofo tem de se assumir como uma espécie de guia espiritual. Acima de tudo é preciso, segundo Bouveresse, “deixar de postular que os erros dos filósofos são sempre mais interessantes e mais profundos do que as verdades de todos os outros, em particular as dos cientistas”. Relativamente ao ensino da filosofia e ao lugar de relevo que a filosofia ocupa no seu país, Bouveresse é particularmente contundente. A esse propósito afirma:

o centralismo, o autoritarismo, o conformismo e, por fim, uma forma de ortodoxia inconfessada são o preço a pagar pela posição institucionalmente forte que a filosofia ocupa no nosso país. Toda a gente se congratula por esta situação tão favorável e acredita, ou finge acreditar, que todo o mundo nos inveja ou que, pelo menos, nos devia invejar.

Ao ler este livro é difícil não pensar também na situação da filosofia em Portugal. Daí que a sua leitura valha mesmo a pena.

Aires Almeida
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